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sábado, 2 de maio de 2009

1º de maio: dia do trabalho ou do trabalhador?

Há algum tempo temos visto um crescimento sem precedentes de referências ao dia 1º de maio como “dia do trabalho”, tanto na imprensa, em agendas oficiais e até mesmo na marcação de calendários ao referir-se à razão do feriado.

Não raro, inclusive, vemos alguns apresentadores de televisão, jornais e rádio, comentaristas, políticos e palpiteiros em geral, fazendo piada sobre “o dia do trabalho” ser feriado. E também não raro, vemos esses mesmos fazendo piada sobre “o brasileiro não querer trabalhar nem mesmo no ‘dia do trabalho’.”.

De outro lado, vemos o cada vez mais despolitizado e esvaziado movimento sindical brasileiro deixar de lado as tradicionais manifestações dessa data, substituindo-as por festas com patrocinadores privados, ou fazendo precárias, esvaziadas e escassas manifestações, sempre em lugares escondidos, deixando de apontar ao grande público essa data como tendo algum outro significado.

Isso nos leva à pergunta título desse texto: é dia do trabalho, ou do trabalhador?

O momento histórico que marca a data de 1º de maio ocorre na cidade de Chicago, maior centro industrial dos Estados Unidos, no ano de 1886.

Naquele tempo os trabalhadores estadunidenses eram submetidos a um regime de trabalho sem qualquer tipo de garantia, com jornadas de 16 horas diárias. E foi essa a razão que levou milhares de trabalhadores às ruas naquele 1886, em grandes manifestações, organizadas no final de abril realizadas a partir de 1º de maio.

A principal reivindicação dos manifestantes era a redução da jornada de trabalho das 16, para 8 horas diárias, o que era visto com grande reprovação pelos empresários e pelo governo, que consideravam um absurdo querer retirar das fábricas metade de sua produtividade, tornando o custo das empresas impraticável.

Aquelas manifestações nas ruas de Chicago foram violentamente reprimidas pelo aparato oficial, tendo a polícia assassinado, oficialmente, 12 trabalhadores. Ao final do ciclo de manifestações, somou-se a esse trágico saldo centenas de feridos e, sobretudo, 5 trabalhadores, tidos como líderes daquele movimento, enforcados.

Estima-se, no entanto, que além dos 12 executados e 5 enforcados, dezenas de outros trabalhadores tenham sido mortos nos confrontos com a polícia. Mas suas mortes jamais foram reconhecidas oficialmente.

Essa série de assassinato de trabalhadores que lutavam pela redução da jornada de trabalho e melhoria de suas condições laborais levou, em 20 de junho de 1889, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, a declarar o dia 1º de maio como Dia Internacional de Luta Pela Jornada de 8 Horas, com manifestações sendo convocadas em todo o mundo.

Como fruto dessas mobilizações, já em 1890 o Senado estadunidense termina por aprovar a lei de redução da jornada de trabalho, instituindo a jornada de 8 horas diárias. No entanto, a história do 1º de maio ainda continuava pelo mundo.

Em 1891, na manifestação convocada pela Segunda Internacional Socialista, no 1º de maio na França, a reação policial é de extrema violência. Resultado da violência do Estado contra a manifestação foi a morte de pelo menos 10 manifestantes, o que acaba por reforçar a data como dia internacional de mobilização dos trabalhadores.

Nesse rumo, o 1º de maio como data de luta ganha força em todo o mundo, marcado por numerosas e grandes manifestações de luta por melhoria nas condições de trabalho, melhoria nos salários e redução da jornada de trabalho.

Esse histórico de mobilizações levou, apenas em 1919, o Senado francês a ratificar a jornada de trabalho de 8 horas. No mesmo ato, o Senado francês institui o 1º de maio desse ano como feriado.

Mas foi apenas em 1920, na recém nascida da revolução operária, União Soviética, que o 1º de maio é instituído como feriado nacional todos os anos.

Nesse tempo, e também até anos mais tarde, o 1º de maio foi marcado por diversas manifestações e milhares de trabalhadores assassinados em todo o mundo, inclusive no Brasil, a partir da primeira greve geral, em 1917.

Hoje, o 1º de maio é reconhecido em quase todos os países do mundo como feriado internacional, em homenagem ao Dia do Trabalhador, homenagem a todos aqueles que lutaram e morreram nas lutas pela redução da jornada de trabalho, melhoria das condições laborais e salários dignos. Tal reconhecimento é feito inclusive pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), em decisão ratificada por quase todos os países do globo.

Dois dos poucos países cujos governos não reconhecem o 1º de maio como dia do trabalhador são Estados Unidos e Austrália. O primeiro porque se recusa a reconhecer a arbitrariedade e a violência de seus atos em 1886, bem como a legitimidade daquele movimento. O segundo, porque tem a homenagem ao trabalhador em diferentes datas, variando em diversas regiões do país, por diversas razões locais.

Por essa razão, deixar de reconhecer o 1º de maio como Dia do Trabalhador, chamando-o de “Dia do Trabalho”, é como tornar a assassinar, desta vez a alma e a memória, de todos aqueles que lutaram e morreram, para que hoje os trabalhadores pudessem ter um pouco de dignidade e uma jornada de trabalho um pouco menos desumana.

1º de maio é Dia do Trabalhador. Quem disser o contrário está a cometer um verdadeiro crime contra a humanidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O conflito Israel – Palestina e o terrorismo no Oriente Médio

Há muito nós temos falado acerca da forma como se define o terrorismo e o enquadramento feito pela mídia em geral.


No caso do conflito Israel – Palestina a realidade não poderia ser outra.


Nessa semana, como fartamente divulgado pela imprensa, o grupo palestino que controla a Faixa de Gaza, o Hamas, encerrou o cessar – fogo celebrado com Israel, promovendo um ataque contra território Israelense. Saldo do ataque, segundo fontes do próprio governo israelense: 1 morto.


A “resposta” de Israel foi imediata, lançando uma ofensiva contra a Faixa de Gaza e mesmo preparando uma invasão. Saldo dessa operação israelense até o momento: 296 mortos, sendo 180 militantes do Hamas e 116 civis inocentes, entre mulheres e crianças.


Segundo a Ministra do Exterior de Israel, candidata à cadeira de Premiê, o número de palestinos mortos seria até baixo.


Não há sequer necessidade de comentar a situação, a desproporção do ataque de Israel e o caráter terrorista do mesmo. Nem mesmo precisamos lembrar que trata-se de uma operação genocida, uma verdadeira “limpeza étnica”.


Não bastasse uma operação de tamanha envergadura e que faz tantas vítimas, a própria política de Israel para a região não deixa alternativa de fuga para aqueles que desejam escapar da morte.


A saída dos palestinos para o Egito está fechada, inclusive em razão de acordos e mesmo em razão de o Egito não suportar mais o êxodo de refugiados palestinos em seu território. De tal forma, aqueles palestinos desesperados que ainda tentam passar por algum túnel clandestino, ou tentam passar por algum buraco no muro, são recebidos a bala, mortos ou presos e mandados de volta para seu território, para a morte.


Do outro lado, o cerco israelense à Faixa de Gaza é absoluto, não havendo qualquer possibilidade de um palestino deixar a região para fugir do conflito.


A tragédia social ainda se amplifica, pois os inúmeros feridos que conseguiram escapar da morte não encontram socorro adequado. Os hospitais já estão todos lotados. E mesmo aqueles que conseguem um leito se deparam com a completa falta de suprimentos médicos ou alimentação, resultado do longo bloqueio israelense imposto àquele povo há muito.


Como alternativa ao bloqueio, os palestinos ainda contavam com rotas de contrabando de suprimentos, que passavam por onze túneis clandestinos. Todos os onze, já no início da ofensiva, foram destruídos.


Simplesmente não há forma de aqueles palestinos escaparem da brincadeira de tiro ao alvo com mísseis e tanques, praticada por Israel. A eles só resta torcer e rezar, contar com a sorte.


E diante de tal realidade, o máximo de reação da comunidade internacional, representada pelo Conselho de Segurança da ONU, foi se manifestar em defesa de um novo cessar fogo e de novos diálogos de paz. Nenhuma censura à ofensiva militar israelense.


Apesar de toda essa situação, alguém poderia questionar: “mas foi o Hamas que acabou com o cessar fogo, realizando ataques contra Israel, que apenas reagiu”. Não é a realidade.


Durante toda a vigência do cessar fogo, Israel não deixou de realizar incursões militares e ataques contra supostos “alvos terroristas”. Nesse período a média de palestinos mortos por forças israelenses foi superior a dois por dia.


Além desse fator, a promessa de deixar chegar suprimentos à Faixa de Gaza, parte do acordo de cessar fogo, jamais foi cumprida, tendo sido mantido o embargo nos mesmos moldes de antes.


De tal forma, temos que o acordo de cessar fogo jamais foi válido para Israel, mas apenas para o Hamas.


Diante disso conclua-se: quem são os maiores terroristas, os fanáticos militantes do Hamas, ou o sionista Estado de Israel?

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A pequena vendedora de fósforos

Caros amigos


Neste dia de natal, onde certos sentimentos afloram, mas onde muito mais se mostra o espírito consumista, uma história que acabei de conhecer foi capaz de mexer realmente com meus sentimentos.


Deixo-os aqui com esse maravilhoso conto, de triste história, com espírito tão real e realista.


Reflitam:


Hans Christian Andersen


Fazia tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.


Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.


Sentou-se no chão e enrolou-se ao canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.


Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.


«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»


Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!


— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.


Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços, e soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.


Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.



quarta-feira, 11 de junho de 2008

Dia dos Namorados

Atravessando as principais ruas da cidade, percebi o clima do dia dos namorados.


Não, não vi casais apaixonados aos beijos e abraços, lindas jovens carregando seus buquês de flores, velhos casais relembrando os velhos tempos daquela paixão arrebatadora, sorridentes rapazes ruborizados fazendo eloqüentes declarações de amor.


Não vi nada disso.


Vi algumas filas em lojas de celulares e lojas de bijuterias. Vi algumas jovens olhando vitrines tentando adivinhar aquilo que receberiam de presente mais tarde. Vi alguns jovens contando seu salário dos próximos doze meses para planejar o pagamento das prestações do novo aparelhinho de comunicação da moda.


Já posso imaginar as filas gigantescas e a espera de mais de uma hora nos restaurantes "populares-chiques" de minha cidade essa noite. As broncas dadas ao garçom pelo namorado valentão nos antros da alta roda. A irritação dos operários das bandejas com o extenuante trabalho extra que pouco ou nada lhe rende a mais.


Já vejo a fila de carros em frente aos motéis, onde alguns fazem a volta rapidamente para não serem vistos. Vejo também os jovens de classe média sem dinheiro para comprar um carro, fazendo-se de desinteressados nas imediações da região dos motéis centrais, esperando por um casal que lhes dê a vaga com a qual eles tanto sonham.


Estou a me lembrar dos solitários que presenteiam a si mesmos nesse dia.


Observo tudo isso e não posso deixar de notar que ainda não vi aquele amor romântico, poético, desinteressado, que nada pede em troca, exceto o próprio amor.


Mais do que nunca, tenho a certeza, privatizamos e transformamos em propriedade e consumo até mesmo o amor.


Feliz dia dos namorados ao grande mercado.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O caso Isabella e o jogo de cena das "novelas jornalísticas"

Dessa vez estou correndo sério perigo. Perigo duplo, diga-se de passagem.

Recebi a presente entrevista por e-mail, que supostamente seria do Terra Magazine.

Por seu conteúdo extremamente relevante, não resisti e sou obrigado a publicar. Aí residem os riscos a que estou sujeito.

Se realmente for uma entrevista do Terra Magazine, corro o risco de responder pela reprodução não autorizada do material. Se não for, corro o risco de responder por atribuir-lhes a autoria de algo com o que talvez não concordem.

De qualquer forma, publico. Se pode servir para algo, deixo registrado os meus parabéns à publicação, caso realmente seja sua entrevista, pela qualidade e significância do tema abordado. Caso não seja, fique feliz por alguém poder imaginar que são capazes de algo de tão elevada qualidade.

Segue o artigo:

Claudio Leal

A morte de Isabella Nardoni, 5 anos, deu início a uma novela midiática à procura de desfecho. Em 29 de março, a menina morreu após uma queda da janela do apartamento do pai, Alexandre, na Zona Norte de São Paulo. A polícia investiga a autoria do crime e tem como principais suspeitos o pai e a madrasta de Isabella, Anna Carolina.

Há indícios de que ela tenha sido assassinada. Esse é o enredo central. O resto, segundo o antropólogo Roberto Albergaria, é a construção de uma novela "trágica" e "doentia".
Doutor em Antropologia pela Universidade de Paris VII e professor da Universidade Federal da Bahia, Albergaria critica os exageros da cobertura midiática e aponta uma abordagem "classista" e "racialista" do crime. "Porque é uma menina de classe média, bonitinha, e aí vem a estética", afirma.

- Há um lado doentio, e quem alimenta essa doença, que se tornou uma epidemia como a dengue, é a própria mídia. Porque há um viés "comunicacionista" ao se alimentar de forma mórbida uma história trágica. E transformar essa história trágica numa novela, no mesmo estilo das novelas das grandes televisões: mexicana.

Reviravoltas, vídeos da menina, sangue nas camisas, testemunhas surpreendentes (o garçom do bar em que a tia de Isabella estava no dia da morte), os parentes, os vizinhos (personagens fatais na obra de Nelson Rodrigues), compõem o painel da novela. Para Albergaria, o crime virou "metade da pauta da mídia durante semanas e semanas".

- O caso da menina veio a calhar para a mídia porque junta todas essas determinações: o classismo, o racialismo, o infantilismo... E, sobretudo, o "comunicacionismo", uma das coisas mais doentias que existe hoje. É você explorar algumas misérias, seletivamente, como forma de emocionar as multidões.

O antropólogo enxerga outra distorção: ajudada pelo mistério, a novela em que se transformou o caso Isabella vale mais do que os fatos, e tira do debate público temas mais relevantes.

- A mídia é o grande filtro. O espaço ocupado por essa menina é o espaço retirado de coisas muito mais importantes para a vida coletiva. Mas isso é um fato emocionante. A emoção vale mais do que a razão. A novela, o enredo, vale mais do que o fato - analisa Albergaria.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Terra Magazine - Como o senhor analisa a cobertura do caso Isabella na mídia? Os vizinhos, a tia, a roupa, o sangue, os vídeos... Há um lado doentio nesse interesse minimalista?
Roberto Albergaria - Há, sim. Há um lado doentio, e quem alimenta essa doença, que se tornou uma epidemia como a dengue, é a própria mídia. Porque há um viés "comunicacionista" ao se alimentar de forma mórbida uma história trágica. E transformar essa história trágica numa novela, no mesmo estilo das novelas das grandes televisões: mexicana. É você transformar um fato, evidentemente grave, em metade da pauta da mídia durante semanas e semanas. Até que apareça outro. Não é uma questão puramente brasileira. É como aconteceu na Europa com o caso Madeleine. Por que essa menina foi escolhida como a bola da vez, a coitadinha da vez? Primeiro, porque já havia o modelo europeu. O caso Madeleine é alimentado por jornais sensacionalistas ingleses. Houve até recompensas. Segundo, ela é, digamos assim, "a vítima ideal". Porque há um viés classista.

Por que classista?
Porque é uma menina de classe média, bonitinha, e aí vem a estética. Se ela fosse muito feia, se ela fosse um pequeno "canhão", não daria. As revistas semanais escolheram as fotos mais fotogênicas pra ressaltar isso.

E não é um caso, aparentemente, para um Sherlock Holmes...
É isso. Não existe mais muita diferença entre o jornalismo e a ficção, entre a novela e o jornal das 20h. O tratamento dado a um fato verdadeiro é o mesmo dado a um fato novelesco. Vão fazer render esta novela com todos os ingredientes possíveis. Aí entra o que eu chamei de viés classista. Ela é uma menina de classe média, branquinha. Na maioria dos Estados brasileiros, sobretudo aqui na Bahia, onde você tem uma maioria negro-mestiça, uma menina branca vale mais do que uma menina negra. Do ponto de vista dos Estados nordestinos, há esse lado racialista. A mídia dá um centímetro para as meninas negras que morrem.

Há muitas mortes de crianças na epidemia de dengue no Rio.
São geralmente crianças pobres. A mídia pega um caso de pobre e dois de ricos. Mas, no Rio de Janeiro, não há o elemento do mistério. Há a política. O que as pessoas querem é o filtro do mistério, da novela, da descoberta... Pra você entender esse caso, há um concurso de causas e circunstâncias. É um infanticídio. Na sociedade ocidental, o infanticídio é um pecado, uma falta muito forte. A possibilidade de ela ter sido morta por um dos pais é também um elemento de grande emoção para o público telespectador caseiro. Hoje se dá muito valor às crianças. Antigamente elas não eram importantes.

Quando é que nasce a valorização da infância?
Nasce no século XVIII, com o mundo burguês. A criança se tornou o menino-rei, o núcleo simbólico da família nuclear burguesa. Antes, nas famílias aristocráticas, nas famílias pobres, você tinha unidades familiares com vários filhos. A perda de um filho era a perda de um único filho, não fazia tanta falta quanto iria fazer no mundo burguês, que tem no filho o futuro daquela unidade familiar. Além disso, eram poucos os filhos. Agora, há o filho único. Então, há esse viés infantilista, ou juvenicista, que tem a ver com a própria cultura contemporânea. O caso da menina veio a calhar para a mídia porque junta todas essas determinações: o classismo, o racialismo, o infantilismo - e o medo, o assombro, a tragédia do infanticídio. E, sobretudo, o "comunicacionismo", uma das coisas mais doentias que existe hoje. É você explorar algumas misérias, seletivamente, como forma de emocionar as multidões.

Qual é o grau de envolvimento dos jornalistas com essas tragédias?
O jornalismo passa a se envolver, no Brasil ainda pouco. Os jornais sensacionalistas ingleses chegaram a oferecer recompensas milionárias no caso Madeleine. É como se o jornalismo fosse parte dessa novela, parte integrante das investigações, das denúncias. Sobretudo na definição do que é importante para o telespectador, o ouvinte ou o leitor, ter como elemento de reflexão. A mídia é o grande filtro. O espaço ocupado por essa menina é o espaço retirado de coisas muito mais importantes para a vida coletiva. Mas isso é um fato emocionante. A emoção vale mais do que a razão. A novela, o enredo, vale mais do que o fato.

sábado, 29 de março de 2008

Curitiba 315 anos: o que comemorar?

Ontem, minha querida e amada Curitiba completou seus 315 anos.

Eu passei apressado pelo local da comemoração oficial, desviando da fila que aguardava por um pedaço de bolo, observando, apesar da pressa, os detalhes daquela cena.

A partir da cena do ato oficial de comemoração, fiquei pensando sobre o que comemorar nessa data.

Nas filas gigantescas, à espera de um pedaço de bolo, eu vi pessoas de razoável aparência, com vestimentas razoáveis, feições não muito sofridas. Mas ao redor da fila, vi mães maltrapilhas, estampando o cansaço e o sofrimento nas faces, enquanto seguravam seus filhos de colo nos braços, numa cena desoladora. Ao redor, crianças com roupas sujas e rasgadas, olhando para tudo com um ar de perplexidade. Traço comum e marcante naquelas mães e crianças, era o olhar faminto com que fitavam os pedaços de bolo nas mãos dos outros.

Não sei se por ato de alguma autoridade, ou se apenas por um sentimento de exclusão provocado pela presença de autoridades e “gente tão fina”, mas eles simplesmente não tomaram parte na festa, não tendo direito sequer a um pedaço daquele bolo. Talvez depois que os outros comeram tudo o que queriam, tenha sobrado algo para esses curitibanos de “segunda classe”.

Nas extremidades da praça, sede da primeira universidade do país, alguns carrinheiros, apoiados em seu instrumento de trabalho, olhavam para a cena como se a não compreendessem. E realmente, acredito, não a compreendiam.

Nas escadarias da universidade, cercada por equipamentos de iluminação e de som, além de tendas, um coral de crianças entoava algumas músicas que eu jamais tinha ouvido. E ao mesmo tempo, um locutor com um som muitas vezes mais potente que o das crianças, anunciava que eram alunos de escolas municipais, ao mesmo tempo em que anunciava os 315 “gloriosos” anos dessa cidade.

As crianças, apesar das músicas que eu jamais ouvira, até que cantavam bem. Mas ninguém estava a lhes dar a mínima atenção.

O que pude notar, é que para aqueles carrinheiros, para aquelas mães pobres, para aquelas crianças que nem sabiam que podiam comer o bolo, não havia o que comemorar. Aquelas crianças correndo, apesar da vontade de comer, apenas não procuravam seu pedaço de bolo, pelo hábito de não terem direito a nada, de saberem que pedir algo para comer era um ato reprovável.

E aquelas crianças que cantavam. Elas estavam ali apenas para simbolizar a participação do povo da periferia. E o fizeram muito bem, pois por mais que cantassem, ninguém lhes dava atenção, assim como fazem com o seu povo, que por mais que gritem, não são ouvidos efetivamente por ninguém.

O que estavam a comemorar? Será que comemoravam o fato de os moradores da Vila Audi terem conseguido preparar sua sopa de papelão por mais essa noite? Ou estavam a festejar o povo das moradias Barigüi que esperam por uma creche? Ou seria a falta de escola no Tatuquara?

Seria talvez a comemoração dos trabalhadores da empresa municipal de urbanização, por seus salários próximos ao mínimo, enquanto assistem alguns de seus chefes receberem até 16 mil mensais para gastarem seu horário de trabalho no salão de beleza? Ou seriam os 45 concursados da companhia de desenvolvimento, por seus mais de 200 chefes comissionados com altos salários?

Talvez fosse a comemoração daquele assessor do meu prefeito do PSDB comemorando o salário de sua sogra, funcionária fantasma da Assembléia Legislativa, cujos rendimentos somaram mais de 500 mil reais, que ele prometeu repor, com um dinheiro que poucos sabem, mas sairá dos cofres públicos também.

Será que naquela praça estava Dalton Trevisan, para tão melhor mal dizer aquela festa da hipocrisia?

Talvez fosse o prefeito a comemorar o fim do circuito de bares alternativos, dos ambientes culturais populares, do boteco de meia dose, ao tempo em que florescem os recantos da elite, da juventude alienada.

Não sei ao certo. Mas sei que, diante da visível miséria de meu povo, do massacre contra a cultura de minha cidade, da repressão às expressões populares, da falta de comida na mesa de meus irmãos, do superfaturamento de obras, das profundas desigualdades sociais e dos meus irmãos que ocupam ares irregulares apenas esperando quando a guarda municipal irá despejá-los com o uso das armas, pouco ou nada pude comemorar.

O que comemoravam eles então?

domingo, 9 de março de 2008

“Seria o narcotráfico tão pouco rentável?” – as contradições da mídia sobre a Colômbia

Os últimos acontecimentos na Colômbia, o tratamento dado pela imprensa de massas e as acusações feitas por Uribe e seus porta-vozes na mídia, despertam a pergunta: “seria o narcotráfico tão pouco, ou nada rentável assim?”.

Não fosse o fato de Uribe, conhecido no Cartel de Medelin, do qual sempre foi membro, juntamente com sua família, ter feito fortuna com o tráfico, a resposta aparente para essa pergunta seria um “sim”.

As acusações da “Grande Mídia” e dos poderosos colombianos contra as FARC, são do envolvimento e comando da guerrilha sobre o negócio do narcotráfico internacional, negócio que fatura bilhões todos os anos.

Reconhecidamente, a Colômbia é o maior produtor mundial de cocaína, responsável pelo abastecimento do mercado estadunidense e europeu, visto que quase a totalidade da produção da Bolívia é legalizada e destinada ao abastecimento da indústria de bebidas (Coca-Cola e Pepsi), além da indústria farmacêutica mundial.

Estima-se, nos Estados Unidos, que o negócio das drogas, com destaque absoluto para a cocaína, esteja entre os 50 maiores negócios do mundo, em termo de movimentação financeira.

Todos esses fatores, por si só, levam a imaginar que, em se acreditando nas acusações que a “Grande Mídia”, Uribe e sua turma fazem às FARC, a guerrilha seja uma grande potência econômica, com os cofres forrados de dólares e seus líderes acumulando um patrimônio incalculável.

Como paradigma dessa análise, podemos tomar o caso de Abadia, mega-traficante colombiano preso no Brasil, cuja fortuna calculada ultrapassa o limite do imaginável, tendo o patrimônio formado por toda sorte de negócios e bens possíveis, além de sua fantástica capacidade que chegava ao ponto de construir submarinos próprios para o transporte de drogas.

Entretanto, na contramão de tais acusações contra as FARC, temos os fatos apresentados, a realidade que teima em aparecer, mesmo nos discursos oficiais daqueles que fazem as acusações.

Raúl Reyes, apontado como o número 2 das FARC, foi assassinado em um acampamento improvisado em meio à selva, sem quaisquer itens de conforto ou luxo. Tratava-se do segundo na linha de comando em uma organização cujos detratores apontam como proprietária do negócio multimilionário.

Onde estará a fortuna acumulada com o negócio das drogas? Por que o homem que comandava o negócio tão rentável estaria vivendo em condições precárias em meio à selva? Onde teria ido parar os tantos itens de riqueza que os acusadores sempre apontaram?

Pode algum defensor do regime narco-fascista reinante no país apontar que estaria Reyes em tal situação apenas em razão de sua necessidade de se esconder do governo. Entretanto, em nenhum caso conhecido na história, a necessidade de se esconder impediu que os criminosos usufruíssem da fortuna amealhada na prática criminosa, pelo contrário, lembre-se da ostentação de Pablo Escobar, ou mesmo do caso daquele que tomamos como paradigma, Abadia, que permaneceu levando sua vida de milionário na Colômbia até o momento em que sua popularidade entre os demais chefes criminosos caiu.

Mas o caso não se encerra aí.

As FARC ficaram famosas em todo o mundo justamente pelo fato de jamais esconderem os rostos, por falarem abertamente de seus métodos, de suas formas de luta e suas formas de manutenção. Sempre falaram abertamente sobre a cobrança de impostos sobre grandes fortunas, como também da sanção de reclusão aplicada aos sonegadores. A esse último, a imprensa aponta como sendo seqüestros. Assim sendo, qual problema teria as FARC em assumir a prática do narcotráfico caso o praticasse?

E o caso de Reyes acrescenta mais um elemento para a análise: as acusações contra Rafael Correa e Hugo Chávez de sustentarem a guerrilha com vultuosas contribuições.

Ora, se as FARC comandam um negócio que movimenta quantias quase superiores a metade do PIB desses países, que necessidade ou utilidade teria para as FARC contribuições desse tipo?

E note-se que a acusação feita contra os dois presidentes é aquela do caso que ficou conhecido como dos “computadores antimísseis colombianos”, por quão ridícula é a tese de que computadores tenham passado intactos a um ataque com bombas cluster.

Vamos acrescentar ao nosso caso, a acusação de que as FARC, no ano de 2002, teriam contribuído ilegalmente com 4 milhões de reais para a campanha presidencial de Lula. A acusação foi feita por inúmeros órgãos de imprensa do Brasil e estrangeiros, tentando vincular Lula às FARC, as FARC ao narcotráfico, assim podendo conquistar um distanciamento definitivo entre Lula e PT, em relação às FARC.

Pois bem, temos que, segundo as acusações que são feitas pelas mesmas pessoas sempre, as FARC são um grupo de traficantes que não conseguem se manter com o dinheiro do tráfico, que parece ser pouco lucrativo. Assim as FARC precisam de dinheiro vindo de outros países da América Latina, de forma ilegal, para garantir sua manutenção. Ao mesmo tempo, as FARC dispõe de 4 milhões para dar como contribuição para uma campanha eleitoral no exterior, mostrando que tem grande capacidade econômica. E tudo isso acontece enquanto seus dirigentes vivem em acampamentos improvisados, em meio à selva, sem qualquer condição de conforto ou bens próprios.

Se esses elementos não são suficientes, vamos acrescentar as declarações dos prisioneiros das FARC libertados recentemente.

Os prisioneiros fizeram duras críticas às condições em que foram mantidos durante o período de cárcere. Reclamaram, sobretudo, as condições de alojamento e de alimentação, além de cuidados básicos com a saúde.

No entanto, os próprios libertados apontaram que, apesar de suas reclamações, suas condições de alojamento, quando não estavam em deslocamento, eram quase iguais às dos guerrilheiros e dirigentes guerrilheiros, assim como sua alimentação era exatamente a mesma.

Podemos concluir disso, que o negócio do tráfico internacional de drogas é um dos menos rentáveis, com lucratividade inferior a qualquer plantação de batatas, ou coisa que o valha.

Podemos também concluir que os líderes das FARC são um incrível grupo de masoquistas, dedicados a se empenhar na atividade econômica menos rentável e mais reprimida que puderem encontrar. Ou então são masoquistas porque a atividade lhes rende muito, mas eles, por opção própria, preferem viver em condições precárias, talvez para garantir uma boa acumulação de dinheiro e propriedades para o pós morte, pois não usufruem dos recursos em vida.

Um último elemento que podemos acrescentar à nossa análise, é essa nova alegação dos narcos que comandam a política e o Estado colombiano, para tentarem convencer o mundo de que estão enfraquecendo as FARC.

No episódio do assassinato sob encomenda de Ríos, o discurso ensaiado do pistoleiro contratado por 5 milhões, foi de que cometera o crime, a emboscada e traição, por não suportar as condições em que estava, até mesmo com falta de alimentos.

Note-se: um “chefe do tráfico”, juntamente com os seus “capangas”, que “atuariam na prática do tráfico”, atividade que movimenta bilhões ao ano na Colômbia, não dispunham sequer de alimentação adequada e suficiente.

Acredito não precisar apontar mais qualquer argumento, pois a constatação da mentira é óbvia, ululante, exageradamente clara: as acusações que se fazem contra as FARC são falsas, pois são contradições insuperáveis dentro do discurso dos próprios acusadores. Não se precisou aqui recorrer a qualquer argumento trazido pelo campo que defende a guerrilha, mas apenas de seus detratores. Sequer precisaremos lembrar que Uribe foi funcionário dos mais fiéis de Escobar, chefe do cartel de Medelín, o qual, segundo seus assessores mais diretos e até sua noiva, tinha em Uribe um dos mais competentes e fiéis executores das atividades de sua quadrilha. Nem precisaremos lembrar que o primo de Escobar, seu braço direito nos tempos do Cartel, é hoje o Conselheiro Presidencial.

A realidade demonstra, de forma cabal, que além de falsas e mentirosas, as acusações contra as FARC são obra da mais absoluta incompetência, de quem não consegue ser minimamente coerente em suas armações.

As mentiras contadas pelo narco-fascismo, através da imprensa dominad pelo crime e pelos grandes grupos econômicos, não se sustenta diante de seus próprios argumentos. E o mais triste é ver que pessoas ditas de boa fé, ainda compram tais contos da carochinha como suas verdades absolutas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Os processos políticos contra os povos - A condenação de Ricardo Palmera Parte I

Com informações de ANNCOL - Brasil


Abrindo essa semana, a justiça estadunidense condenou o professor Ricardo Palmera, líder guerrilheiro das FARC conhecido por Simon Trinidad, a 60 anos de prisão em regime fechado. Apesar disso, a pena e a condenação não são os fatores centrais dessa história.

Simon Trinidad é um caso raro da justiça de países que se declaram democráticos no mundo contemporâneo. Trata-se de um caso em que as acusações aconteceram depois das condenações iniciais, que contaram com uma absurda persistência para se confirmar.

Ricardo Palmera foi preso no Equador sem qualquer acusação formal. Apenas foi preso, de forma ilegal, levado à Colômbia e depois extraditado para os EUA sem o devido processo legal para a extradição.

Se isso fosse pouco, cumpre ressaltar que contra Simon Trinidad, até sua prisão, não pesava qualquer acusação, sendo que seu nome sequer havia sido citado em qualquer parte dos processos em que, depois de sua prisão e extradição, passou a figurar como principal réu.

Trata-se, portanto, de uma aberração jurídica sem precedentes no direito contemporâneo em Estados formalmente democráticos.

A acusação real que pesou contra Trinidad após sua prisão e extradição foi a de envolvimento no seqüestro dos 3 oficiais estadunidenses pelas FARC na Colômbia. No entanto, para justificar sua extradição incluíram-se acusações de tráfico internacional de drogas, acusações que sequer tem indícios apontados nos autos de seu processo.

Basicamente podemos dizer que elementos básicos do processo penal, que nada mais são do que garantias mínimas de proteção contra arbitrariedades, foram solenemente ignorados no presente caso. Elementos como a materialidade do crime ou indício de autoria estão entre aqueles que sequer os acusadores colombianos ou os estadunidenses buscaram apontar no início ou no decorrer do processo.

Durante o julgamento, a acusação escancarou sua intenção de julgar não o Homem Ricardo Palmera, mas sim de julgar politicamente as FARC, aplicando a pena corporal de forma simbólica contra Trinidad.

Evidente que um processo montado sem a presença dos elementos mais básicos de uma acusação criminal impôs à justiça estadunidense imensas dificuldades para confirmar a condenação prévia contra Palmera.

Foram 4 julgamentos, tendo os três primeiros anulados em razão da não obtenção da condenação desejada. Três julgamentos políticos que foram incapazes de condenar Trinidad, que permanecia preso em condições proibidas por todos os tratados de direitos humanos, durante todo o processo.

A promotoria arrolou um sem número de testemunhas, todas pessoas que jamais tiveram qualquer contato com Trinidad.

Sobre envolvimento com tráfico de drogas nada se falou. Apenas se tentou vincular Trinidad aos prisioneiros em poder das FARC, no que Pinchao, o oficial que fugiu do cativeiro, seria a principal testemunha.

Mas Pinchao, apesar de todas as vantagens obtidas para testemunhar, apesar de todo o circo montado, não foi capaz de mentir o suficiente para justificar a condenação de Palmera.

Em seu depoimento Pichao acabou, mesmo a contragosto, esclarecendo que jamais tivera contato com Palmera, nem jamais ouvira sua voz. No entanto Pinchao insistiu em dizer que sabia que Simon Trinidad era um dos responsáveis pelo cárcere. Mas deu tal certeza ao mesmo tempo em que dava a certeza de que estivera preso com a ex-candidata presidencial, a franco-colombiana Ingrid Bettancourt, que teria dado aulas de francês ao oficial. No entanto, o marido de Bettancourt, Lecompte, esclareceu que Ingrid simplesmente não sabe falar francês, razão pela qual jamais poderia ter dado aulas do idioma.

E foi assim que se completou o fim da farsa montada, do teatro político que vitima Palmera, o que sequer seria realmente necessário caso houvesse alguma seriedade no processo. Note-se que ao afirmar que “sabia que Trinidad era responsável pelo seqüestro”, Pinchao não apontava nenhum elemento que justificasse tal convicção, pelo contrário, simplesmente apontava que nada sabia de Palmera, que jamais o ouvira ou vira.

E é de se ressaltar que essa trapalhada foi proveniente de um alto-oficial, tido como a principal testemunha contra Trinidad, dentre as inúmeras testemunhas arroladas pela acusação, que têm custado um salário mensal de 15 mil dólares por sua “colaboração”.

Tantas trapalhadas, tantos tropeços, tantas armações desmascaradas, acabaram frustrando a pretensão do governo colombiano e do governo estadunidense de julgar as FARC nas pessoas de Trinidad, nesse julgamento e de Sonia. E isso significa uma grande vitória da defesa de Palmera.

Não é segredo a grande campanha de mídia que tenta promover as FARC, nos Estados Unidos, como um grupo terrorista envolvido com o tráfico de drogas. E também não é novidade o forte apelo de acusações de terrorismo naquele país após os atentados do 11 de setembro. Ainda assim, com tamanha obviedade da falsidade das acusações contra Palmera, três vezes o julgamento terminou sem a condenação do guerrilheiro.

Esse tipo de processo, no entanto, parece não abalar tão profundamente um guerrilheiro que passou a integrar as FARC depois de ver seus maiores amigos assassinados pelo governo, sendo obrigado a enviar sua família para o exílio em razão de inúmeras ameaças de morte, quando ainda estava apenas na luta política.

Trinidad ainda resistiu às piores condições a que um prisioneiro pode ser submetido, como ele mesmo descreveu:

“Desde 8 de fevereiro do ano passado, há pouco mais de um mês de minha extradição, o Departamento de Estado determinou que mantivessem-me sob o sistema de “medidas administrativas especiais” (SAM), em inglês, e por isso é que me mantêm em uma área de segurança máxima desta prisão, encerrado na cela 24 horas por dia, sem direito a ligação, de enviar ou receber correspondência, sem visitas e só posso me reunir com os advogados norte-americanos. E nos últimos 6 meses estas condições têm endurecido ao ponto de no começo do ano me passarem à cela mais isolada, onde não vejo nada diferente dos policiais que me vigiam dia e noite; de dois meses para cá, quando vêm meus advogados, os policiais já não liberam minha mão direita das algemas e cadeias, pelo que me impedem de tomar notas ou para manipular os documentos que analisamos, ou que entrego, ou que recebo de meus advogados.(...)”

Além de tais condições, outros pontos que Trinidad não pôde contar em razão da censura, foram denunciados por seus advogados, que apontam que Trinidad está em uma cela iluminada, 24 horas por dia, por potentes luzes, numa conhecida técnica de tortura e desestabilização psicológica. Simplesmente sob métodos conhecidíssimos e condenados por todos os acordos de direitos humanos no mundo.

E assim, apesar de toda a pressão, de tantas ofertas para que Trinidad “colaborasse” com a “justiça”, delatando os “crimes” da guerrilha, Ricardo Palmera manteve a verdade em sua defesa, mesmo sabendo que a verdade o levaria à condenação farsesca, mas que lhe tiraria a liberdade, por 40 ou 60 anos. E assim se fez.

Trinidad foi condenado, mesmo sem qualquer fundamento na acusação, a 60 anos de prisão em regime fechado, com direito a 5 anos em regime aberto após esses 60 anos, totalizando uma pena de 65 anos, a um homem já com 57 anos de idade, o que torna a pena em prisão perpétua.

Mas as declarações do agora oficialmente preso político, Ricardo Palmera, dadas ao final de seu julgamento, não deixam dúvida quanto as sua convicções inabaladas, apesar da perseguição e de todo o sofrimento:

"Aquí se ha hecho un juicio político de cabo a rabo, aunque el gobierno haya tratado de evitarlo" (…)"Ese carácter político del juicio me complace porque confirma el carácter político de las Farc".

"No olvido que el terrorismo de estado que en Colombia es común motivó mi ingreso a las Farc", dijo. "Por principio, el terrorismo no tiene cabida en mi mente y mi corazón".

Enfim, Ricardo Palmera foi condenado no circo de um julgamento político, mas é absolvido pela história e pela consciência dos povos em luta pelo mundo e pelo seu povo na Colômbia. Palmera perde sua liberdade, mas mantêm intacta sua coerência, sua decência, seus ideais, sua certeza de que a luta de seu povo deve continuar até a vitória, ainda que sua liberdade e sua vida sejam o preço a pagar pela justiça.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Crime de opinião

Por ANNCOL - Traduzido por equipe ANNCOL - Brasil

A valente senadora Piedad Córdoba tem suportado tudo. Tudo o que os inimigos da paz do povo colombiano lhe têm feito. Foi perseguida pelos narco-paramilitares e se viu obrigada a se exilar no Canadá. Lá permaneceu alguns anos.

‘Desapareceu’ sua filha. Não conhecemos os detalles de tal fato.

Desapareceu seu assessor, Jaime Gómez, e seu corpo apareceu jogado nas colinas de Bogotá e os militares trataram de justificar sua morte dizendo que havia deslizado e morrido acidentalmente. Posteriormente a Medicina Legal demonstrou que não havia sido assim.

A morte de Jaime foi um típico crime do Terrorismo de Estado.

E sempre têm pretendido calar a voz corajosa, Valente, de Piedad. Os vergonhosos furibistas e o próprio narco-paramilitar presidente, Álvaro Uribe Vélez, teme sua voz acesa, a única arma que exibe esta bela negra.

Quem na Colombia não se lembra que foi exatamente a negra Piedad Córdoba quem denunciou que ‘todos os caminhos do narco-paramilitarismo conduzem a Uribe’?

Agora Álvaro Uribe Vélez cobra a conta de Piedad Córdoba por suas denúncias de um regime corrupto. Como pretende passar à Corte Suprema. Como tem pretendido passar aos jornalistas que tem publicado seus escândalos de corrupção e narco-paramilitarismo.

Tampouco tolera a posição clara de Piedad sobre o conflito colombiano. Sua voz tem sido clara e ativa. Por isso, o corrompido chanceler, ‘Chambacú’ Araújo, a classificou como sendo a ‘chanceler das FARC’. Homenagem recebida de uma personagem representante da mais obscura corrupção oficial, mas falso sob as luzes. Ah, isso seria uma imensa honra.

Querem julgá-la por ‘traição à pátria’. Por suas opiniões políticas. Porque não aceitam que alguém escape da homogeneização com que pretendem apresentar as honrosas vozes dissonantes do ‘estabilishment’.

É a conformação de um típico tribunal fascista para julgar Piedad por um crime de opinião. Como na época da inquisição. Como nos tempos do franquismo.

Mas não poderão. Aí estão os resultados de sua ‘traição à Pátria’: Consuelo, Clara e Emmanuel estão em casa, novamente, quando já todo o mundo não dava um tostão por sua volta. Aí estão seus debates em um Congresso corrompido pelo narco-paramilitarismo e o clientelismo, ao qual tem dado um pouco de oxigênio. Aí está o respeito e o carinho da comunidade internacional com Piedad.

Os colombianos de bem estão contigo, Piedad. E se segue lutando contra Uribe Vélez e todos os furibistas, lutaremos com você. Disso não tenham a menor dúvida, covardes!

Enlace Original

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Operação Emmanuel e as falsas especulações da imprensa internacional

A operação Emmanuel, para o resgate dos prisioneiros que serão libertados pelas FARC novamente teve sua conclusão adiada neste domingo. Tais sucessivos adiamentos certamente provocam profunda angustia nas famílias dos prisioneiros que serão libertados, como também gera uma imensa ansiedade no povo colombiano e nos envolvidos na operação que desejam o seu sucesso.

Entretanto, esse aparente atraso tem gerado uma série de especulações por parte da grande imprensa internacional, capitaneados pelos tradicionais veículos de informação da Colômbia e a mídia privada da Venezuela, francos opositores de qualquer acordo humanitário.

Mas essas especulações não passam de falsas especulações.

Parte da imprensa colombiana e venezuelana, com alguma repercussão no Brasil e no mundo, já vinha alertando há muito sobre os riscos, as dificuldades e os problemas da operação, que estaria sendo alvo de inúmeras sabotagens por parte do exército colombiano e de parcela significativa de poderosos do país, sejam do governo, da política, de grandes fortunas ou de narco-traficantes.

Já no dia 25 de dezembro, a ANNCOL – Brasil denunciava que o governo da Colômbia buscava impedir, de todas as maneiras, a entrega dos prisioneiros. Naquele período, ainda não se havia anunciado nenhum plano de resgate, no que se apostava numa operação das FARC com a entrega dos prisioneiros já em território venezuelano. No entanto tal possível operação restou absolutamente inviabilizada, em razão dos grandes efetivos militares mobilizados por toda a fronteira entre Colômbia e Venezuela.

Já não é mais segredo para ninguém que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, pretende impedir qualquer solução pacífica para o conflito. Já demonstrou isso ao ordenar a operação que terminou com a morte dos 11 deputados do Vale del Cauca, mortos por tiros do próprio exército colombiano numa tentativa atrapalhada de resgate. Continuou em suas tentativas de impedir qualquer negociação impedindo a entrega dos corpos de tais deputados, que só acabou ocorrendo graças aos esforços das FARC e à intervenção dos familiares das vítimas e da Cruz Vermelha, além de diversos países.

Esse mesmo espírito de guerra, fez com que Uribe encerrasse a gestão de Chávez e Piedad Córdoba como mediadores assim que se viu as negociações chegando em um ponto onde a saída pacífica se tornaria inevitável.

Agora, diante da iniciativa das FARC de libertação unilateral de prisioneiros, algo que Uribe não tem como sabotar ou controlar, restou ao presidente colombiano buscar impedi-la à bala, mobilizando todo o contingente militar para que interceptem os guerrilheiros com os prisioneiros, ou mesmo para que assassinem os prisioneiros, da mesma forma que tentaram matar o marido de Ingrid Betancourt há poucos dias.

São as velhas políticas de Uribe e dos paramilitares, de sabotar e impedir qualquer caminho para a paz, além de cometerem os mais bárbaros crimes para jogar a culpa sobre as FARC. Isso foi feito em vários atentados a bomba, como já descoberto pela justiça colombiana, foi feito com os 11 deputados assassinados, é feito diariamente em todo o país.

Porém as FARC não caíram na armadilha planejada por Uribe, tendo mudado seus planos de entrega dos prisioneiros já em território venezuelano. Assim, tendo contatado o presidente venezuelano Hugo Chávez, elaboraram a operação, denominada Emmanuel, para o resgate dos prisioneiros no próprio território colombiano, com a presença de observadores de todas as partes do mundo, a fim de impedir a livre prática de ações terroristas dos militares de Uribe.

Assim teve início a operação para a libertação das duas prisioneiroas, mais Emmanuel, filho de uma das prisioneiras com um guerrilheiro, fruto de um amor que brotou na própria selva colombiana, segundo contou o próprio Pinchao, oficial colombiano que escapou da prisão das FARC.

Uribe então não teve como impedir, diante dos olhares atentos de toda a comunidade internacional, a realização de tal operação. Mas, como esperado, busca desesperadamente impedir o sucesso da mesma.

Assim que anunciado o formato da operação, Uribe tratou de mobilizar um efetivo de mais de 20 mil militares, um efetivo maior que o contingente total das FARC, na região de Villavicencio, coração da operação de resgate anunciada.

Tal informação foi divulgada novamente pela ANNCOL – Brasil já no dia 28 último, mas assim como a primeira notícia, foi convenientemente ignorada por toda a grande imprensa privada do Brasil e do mundo.

Tal mobilização militar na região é absolutamente impeditiva para a execução da operação. Mas a razões disso são ocultadas por toda a grande imprensa, convenientemente.

Ocorre que, apesar de não divulgado no Brasil, a entrega das coordenadas do ponto de resgate seria feita a Rodriguez Chacín, coordenador da operação, no aeroporto de Villavicencio, por um emissário das FARC. No entanto, tal entrega se tornou impossível, visto que ao redor do aeroporto foram fechados todos os acessos por qualquer meio. E mesmo que as FARC resolvessem utilizar algum emissário da imprensa, o acesso dos jornalistas, exceto aqueles ligados aos militares colombianos, foi completamente impedido no aeroporto. Assim tornou-se impossível que o emissário chegasse a Chacín.

Pode-se questionar, no entanto, a razão de as coordenadas não serem repassadas via rádio. Acontece que todas as freqüências de comunicação na região estão sendo monitoradas, tanto de rádio, como telefonia e mesmo eletrônicas, pelos militares colombianos, que utilizam os mais avançados equipamentos de monitoramente e interceptação cedidos pelo governo estadunidense.

Assim, toda a comunicação na região está impedida, visto que no momento em que os militares tiverem acesso a informações da localização do guerrilheiros com os prisioneiros, os mesmos iniciam uma operação de caça, em que os próprios prisioneiros são alvos, como tem denunciado os próprios familiares dos prisioneiros, sobretudo Astrid Betancourt e Lecompte, irmã e marido de Ingrid, respectivamente.

Entretanto, apesar de tais informações serem de conhecimento público em razão das notícias da ANNCOL e da radio Café Stéreo, trazidas ao Brasil pela ANNCOL – Brasil, nossa mídia insiste em não divulgá-las, em razão de seus comprometimentos com os grupos que dominam também a política colombiana. Assim se mantêm fazendo especulações das mais absurdas, levantando hipóteses de atrasos da operação por responsabilidade das FARC, ou mesmo apontando certas movimentações de aeronaves venezuelanas como indicativos de que as coordenadas já estariam em poder de Chacín.

Com tantas dificuldades para a conclusão da operação, outras medidas já previstas na operação passaram a ser adotadas. E isso já fora anunciado pela ANNCOL – Brasil, novamente, nesse dia 30 de dezembro, aos 45 minutos daquele dia, muito antes de qualquer veículo de informação no Brasil sonhar em noticiar mais esse adiamento.

Nessa última informação, a ANNCOL – Brasil, que trazia informações da Rádio Café Stéreo, com repórter na região, informava precisamente a condição de absoluta inacessibilidade ao aeroporto.

A notícia ainda dava conta de que as coordenadas deveriam ter chegado às mãos de Chacín na sexta-feira à noite, mas que foi impossível a entrega em razão das operações militares.

Com isso já estava dado este novo adiamento, com informações que a grande mídia se recusava a divulgar, por interesses diversos. E isso fez com que a operação iniciasse a preparação para alternativas já previstas no plano original, como também já noticiado pela ANNCOL – Brasil, mas ignorado por toda a grande mídia.

Uma forma de driblar tamanho cerco seria a entrega dos prisioneiros em local absolutamente desconhecido e longe do coração da operação, através de uma triangulação que impediria o alcance dos militares colombianos.

Com isso, outras coordenadas seriam entregues, por meio das comunicações que o Secretariado das FARC mantém com o governo venezuelano, indicando alguma pequena vila, de onde se obteriam novas informações de um outro local, onde haveriam pessoas capazes de levar a operação até os prisioneiros.

Daí que, como não chegadas as coordenadas dentro do prazo limite, pela absoluta impossibilidade provocada pelo governo da Colômbia, iniciou-se a fase alternativa da operação, prevista desde o início, com a disponibilização de aeronaves de menor porte para a execução de tal triangulação em locais de difícil acesso.

Mas como a grande mídia não quer apresentar a realidade dos impedimentos de Uribe à operação, preferiram apresentar especulações absolutamente falsas de que isso seria um indicativo de que as coordenadas já eram conhecidas, provocando uma maior angústia a todos que acompanham a situação, além da ansiedade em familiares e pessoas próximas às famílias dos prisioneiros.

Agora é chegado um momento de absoluta tensão e preocupação, com todos os riscos de uma operação da mais alta complexidade e com todos os riscos ocasionados pelos planos de ataque do exército colombiano.

Seria, evidentemente, um momento em que a imprensa cumpriria importantíssimo papel, fazendo uma efetiva cobertura que impedisse o cometimento de ações terroristas e assassinas pelo governo de Uribe. Mas a julgar pela cobertura feita até o momento, podemos descartar qualquer possibilidade de que cumpram tal papel, sabendo que no máximo farão a leitura de comunicados oficiais de Uribe como sendo verdade absoluta, rapidamente apontando o dedo contra Chávez e os sete países da missão como responsáveis por qualquer tragédia.

Resta a nós esperarmos e torcermos pelo sucesso da missão, ao mesmo tempo em que precisamos continuar acompanhando e divulgando a realidade do que acontece na Colômbia, para vermos os prisioneiros nos braços de suas famílias e a Colômbia mais próxima da paz.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

FARC-EP Preocupadas Com Segurança dos Prisioneiros

Com informações de Rádio Café Stéreo, El Tiempo e ANNCOL


O governo colombiano, desde o anúncio acerca da libertação de três prisioneiros em poder das FARC ao presidente venezuelano Hugo Chavez, intensificou suas operações militares, incluindo minuciosas varreduras em toda a extensão da fronteira entre Colômbia e Venezuela.

As FARC têm denunciado, há muito, os planos do governo colombiano de impedir qualquer solução pacífica para a questão dos prisioneiros. A tentativa de resgate dos 12 deputados do Vale del Cauca, em que 11 deles acabaram mortos por militares colombianos, foi exemplo dessa política. Segundo as denúncias, o governo Uribe está disposto a causar até mesmo a morte de todos os prisioneiros em poder das FARC, a fim de impedir que sejam libertados ou que qualquer negociação efetiva ocorra.

Além das operações militares assassinas, outro aspecto que reforça a denúncia, é a inflexibilidade de Uribe no processo de negociação. Uribe destituiu Chavez e Córdoba dos mandatos de negociadores exatamente quando as negociações avançavam em ritmo acelerado. Agora, com Sarkozy entrando nas negociações, Uribe se mantém inflexível quanto ao estabelecimento de uma zona desmilitarizada para as negociações e trocas de prisioneiros.

A zona desmilitarizada, na região que compreende os municípios de Florida e Padrera, é fundamental para a troca de prisioneiros e as negociações, por razões de segurança, tendo em vista o deslocamento dos prisioneiros e negociadores até o local. Exatamente por essa razão é que Uribe não aceita tal condição, pois que inviabilizaria suas operações militares que permitiriam o assassinato de membros das FARC e de prisioneiros, inviabilizando a continuidade de qualquer negociação de paz, o seu real objetivo.

Diante de tal realidade, de absoluta insegurança para o transporte de prisioneiros, a libertação de Clara, Emmanuel e Consuelo, que poderia ter acontecido antes do natal, pode ser adiada, com o objetivo de garantir a vida dos mesmos. Alguns veículos de informação chegam a apontar a possibilidade de suspensão das negociações e da libertação dos prisioneiros por parte das FARC, mas o histórico da organização guerrilheira, de cumprir integralmente com todas as promessas, não autoriza tal especulação, reforçando a certeza de que permanecerão em busca de uma rota de segurança para cumprir com a promessa de libertação, ainda antes do final do ano.

Agora, mais do que nunca, é necessária a atenção de toda a comunidade internacional, seja pressionando o governo colombiano, seja fiscalizando cada operação e cada movimentação militar, para impedir que as forças armadas atentem contra a vida dos prisioneiros e daqueles que fazem o seu transporte para garantir-lhes a libertação.

Mais uma vez, resta evidenciada a busca das FARC por garantir a vida e segurança dos prisioneiros, além de sua incessante busca pela paz. E mais uma vez fica claro o espírito belicista, terrorista e assassino do governo narco-paramilitarista da Colômbia, sob Álvaro Uribe, antigo funcionário do Cartel de Medelin e de Pablo Escobar.

Os familiares de prisioneiros, como o professor Gustavo Moncayo, continuam exortando o governo a aceitar um processo de negociação, que se tornou imperativo e inevitável após o anúncio de libertação de prisioneiros das FARC.

Ao povo colombiano e aos familiares dos prisioneiros, resta torcer pelo êxito da operação das FARC, pelo fracasso das intenções de Uribe e pela astúcia e habilidade dos guerrilheiros que conduzem os prisioneiros, para entregá-los em segurança em território venezuelano.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Berzoini: O Capitão do Mato do PT

Para os trabalhadores rurais, os escravos, os que vivem em regime de semi-escravidão, os estudiosos da história, a figura do capitão do mato é bastante conhecida. Trata-se do responsável por fazer o "trabalho sujo" do patrão, para que o mesmo não precise se envolver no sangue derramado, nem com o constrangimento de levar o sofrimento aos seus subordinados.

Em diversos outros ramos de atividades temos figuras semelhantes. É o policial bandido que espanca o suspeito para arrancar-lhe as informações sobre outros membros do bando, o chefeta da empresa responsável por aterrorizar empregados para manter a disciplina, o braço direito do traficante que promove os julgamentos sumários e execuções a sangue frio.

Na política não é diferente, existindo os tarefeiros que executam o trabalho sujo para evitar que o nome do “patrão” seja envolvido na sujeira ocasionada pelos atos que julga necessário. No governo Lula e no PT, muitos foram os candidatos, mas Lula elegeu o seu capitão do mato predileto, que hoje ocupa reeleito a presidência do partido.

Berzoini foi o “homem forte” escolhido para representar o terror junto à população durante sua estada no governo. Na Previdência, diante de um desejo urgente do governo por redução nas despesas, foi Berzoini que protagonizou o caso do “recadastramento” dos mais idosos, que levou pessoas com mais de 90 anos às filas intermináveis do INSS, a fim de não terem seu mirrado sustento cortado.

Esse caso, como foi demonstrado na prática posterior, era completamente desnecessário, pois esse recadastramento poderia ser feito de diversas outras formas, como foi efetivamente feito depois. Mas a sutileza das atitudes nunca foi a marca registrada de um capitão do mato.

Tratava-se, naquela ocasião, de obter não somente um recadastramento e acabar com as fraudes que tanto sangram os cofres da previdência, mas de uma medida urgente com a finalidade de reduzir despesas e possibilitar a realocação de recursos para a remuneração da especulação com títulos da dívida pública. Os especuladores tinham pressa em ver seu lucro garantido da maneira mais generosa possível, tendo o governo igual pressa em atender-lhes a vontade. Assim, o capitão do mato atuou da forma mais rude e espalhafatosa possível, em método clássico de sua atividade, só não obtendo sucesso em razão de seu ato ter afetado a imagem do patrão. Mas o trabalho foi levado adiante de outra forma.

Os trabalhos sujos do governo ainda não haviam acabado. Portanto Berzoini continuava sendo indispensável. E lá foi o capitão do mato transferido para o Ministério do Trabalho, com a finalidade de empurrar goela abaixo dos trabalhadores as reformas trabalhista e sindical, tão sonhadas pelos patrões e tentadas pelo governo tucano. O capitão do mato não obteve o resultado final, mas deixou o trabalho iniciado e os subordinados devidamente instruídos para seguirem com a obra, que continua em andamento, inclusive com a proposta de restrição do direito de greve ao funcionalismo, encomendada à AGU.

A onda de denúncias contra o governo estoura de forma inimaginável, abalando fortemente o PT. Tarso Genro é escalado para recolocar a casa em ordem, mas lá chegando resolveu questionar muitas coisas, acabar com práticas há muito consolidadas. Seus objetivos nem eram tão bons assim, mas já era o suficiente para afetar certos interesses e certas figuras. Então Tarso não servia, era necessário alguém que não questionasse. Era necessário o capitão do mato.

Berzoini assumiu a presidência do PT com a missão de manter intocável a estrutura real de poder dentro do partido, não permitir nenhuma mudança estrutural, impedir o crescimento de grupos críticos à mudança ideológica da legenda e garantir toda a política de acordos e alianças firmadas para a manutenção dos aparelhos governamentais.

Pode-se dizer que o capitão do mato fez um trabalho perfeito dessa vez. Sob suas ordens, o PT não fez uma única concessão à esquerda, promoveu uma aceleração em sua caminhada à direita, aumentou a política de aproximação com a direita clássica em vários aspectos, manteve a estrutura interna de poder sem qualquer alteração. É importante observar que nesse desenrolar, o capitão do mato obteve extremo êxito em evitar que fosse feita qualquer apuração interna acerca dos fatos e responsáveis por conduzirem o partido à situação que gerou toda a crise.

Agora o PT precisa caminhar a passos largos para se consolidar como um partido tradicional, de características fisiológicas, da estrutura política brasileira, que em nosso sistema tanto favorece a disputa pelos aparelhos de poder. E para isso é preciso barrar, nem que seja à força, qualquer movimentação que vise o resgate de um aparente espírito popular que o partido teve outrora. E para tal missão ninguém melhor do que o capitão do mato.

E nesse rumo, a estrutura de poder real do partido conseguiu, com muito esforço, compra de apoios, filiações em massa, garantir a manutenção de seu tarefeiro mais fiel no comando formal da máquina. E com a manutenção da administração da fazenda nas mãos do capitão do mato, o patrão pode ficar mais tranqüilo, enquanto seus subordinados perdem todas as esperanças de alcançarem, ainda dentro dessa estrutura, um futuro melhor ou o resgate de suas antigas bandeiras.

A Farsa Estadunidense Sobre Argentina e Venezuela

O forte processo de transformações populares pelo qual passa a América Latina tem levado grandes preocupações a Washington.

Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, FARC na Colômbia, Assembléia Popular em Oaxaca, transformações da estrutura econômica na Argentina, Banco do Sul, solidariedade a Cuba, integração acelerada, vários são os movimentos que indicam uma independência da região em relação às políticas colonialistas. Com isso, mais do que esperadas as fortes reações estadunidenses.

Depois das trágicas experiências de implantação de ditaduras militares pelo continente, promovidas por Washington, seria esperado que movimentos de tais contornos tivessem sido completamente abandonados. Ainda assim, houve a tentativa de golpe na Venezuela, sob ordens, financiamento e organização estadunidense, como também o início do movimento golpista e separatista na Bolívia teve a mesma origem. Porém, em países de maior peso econômico na região, tal política se torna mais arriscada, em razão da grande visibilidade dos mesmos no mundo inteiro, além de nenhuma das principais economias da região se encontrar em processo tão avançados quanto os dois alvos principais. Mas alguns deles têm incomodado, ainda assim.

Agora surge um caso clássico de tentativa de desestabilização do governo da Argentina, ao mesmo tempo em que se tenta afasta-lo do principal desafeto de Washington na América Latina, o presidente venezuelano Hugo Chavez.

A acusação é de um suposto envio de 800 mil dólares, de Chavez, para a campanha presidencial de Cristina Kirchner, de forma ilegal. O dinheiro foi apreendido com o empresário de cidadania venezuelana e estadunidense, Guido Antonini Wilson, no dia 04 de agosto, quando o empresário tentava desembarcar em Buenos Aires, de um vôo fretado por uma estatal argentina, com o dinheiro em mãos.

Na ocasião, o empresário que possui negócios no ramo de petróleo, viajava em companhia de funcionários da venezuelana PDVSA e funcionários do governo argentino, teve o dinheiro apreendido e foi liberado, o que permitiu que retornasse a Miami, onde possui residência.

Nos Estados Unidos, o FBI realizou a prisão de 3 empresários venezuelanos e um uruguaio, sob a acusação de serem agentes a serviço do governo venezuelano, encarregados de impedir que Wilson revelasse a origem e o destino do dinheiro apreendido. E foi na acusação contra os quatro empresários presos que surgiu a tese acusatória contra Chavez e Cristina Kirchner.

Segundo o Procurador Federal, Thomas Mulvihill, encarregado do caso, o dinheiro seria uma contribuição ilegal do governo venezuelano à campanha de Cristina. A acusação é negada de forma veemente por Cristina e por representantes do governo venezuelano.

Com tal tese acusatória, o governo estadunidense deve impedir a extradição de Wilson à Argentina, onde deveria responder pela origem e pelo destino do dinheiro apreendido, ou seja, pelo crime efetivamente cometido.

A tese do Procurador estadunidense, segundo divulgado por agências de notícias, seria baseada em escutas telefônicas realizadas pelo FBI. O conteúdo de tais escutas até o momento não foi divulgado, nem a existência das mesmas foi confirmada pelo FBI até o momento.

Inúmeros questionamentos deveriam ser feitos sobre o caso, mas o governo estadunidense não parece disposto a respondê-las.

A acusação de uma doação ilegal, em dinheiro transportado em malas, de um país para uma campanha presidencial, é bastante estranha.

Caso um país qualquer desejasse executar tal operação, o caminho mais simples seria o mesmo adotado pelo governo dos Estados Unidos, em operações de financiamento de campanhas e movimentos, ou seja, via embaixada e consulados. Dessa forma, o dinheiro estaria disponível no país de destino sem passar pelos riscos do transporte, ao mesmo tempo em que estaria resguardado por todo o sigilo das operações diplomáticas. De tal forma, caso a acusação fosse verdadeira, resta explicar as razões de não terem feito tal operação através da representação diplomática.

Mesmo no caso de se descartar tal questionamento, sob a alegação de que a estratégia exigia um sigilo completo, com a operação sendo ocultada até do corpo diplomático venezuelano, resta a pergunta acerca das razões da não utilização de operações financeiras internacionais. É notória que o caminho mais seguro para operações ilícitas é a circulação do dinheiro através de contas em paraísos fiscais, usando empresas de fachada, tornando o rastreamento até mesmo impossível.

Ainda que se descarte tal questionamento mais, cabe lembrar que apenas dois dias após a apreensão do dinheiro, o presidente venezuelano estaria em visita oficial à Argentina. Como é sabido por todos, caso Chavez desejasse efetuar tal alegada operação, o mais seguro caminho seria através de sua própria comitiva, que como qualquer comitiva presidencial, é imune a qualquer tipo de revista, mesmo alfandegária.

Trata-se, portanto, de uma acusação leviana e caricata, que não leva em conta a realidade e as inúmeras possibilidades lógicas para a execução de uma operação desse tipo bem sucedida.

Além disso, a acusação esquece de questionar o que levaria a uma doação dessas, visto a folgada vantagem da então candidata à cadeira presidencial, que em razão da vitória certa também contava com folgados recursos financeiros para sua campanha.

A acusação se baseia, única e exclusivamente, nas supostas interceptações telefônicas e gravações supostamente obtidas pelo FBI. Mas tais gravações jamais foram apresentadas, nem seu conteúdo divulgado.

E mesmo com tudo isso, resta o questionamento acerca de legalidade, legitimidade e razões de interceptações e gravações de conversas, promovidas pelo FBI, contra autoridades de outros países. É, sem dúvida, uma grave infração a todos os protocolos e toda a legislação internacional a alegação da existência de tal tipo de procedimento.

Como pode se verificar, tal tese acusatória carece de legitimidade, carece de base na realidade, de uma análise das possibilidades, ou seja, de qualquer embasamento mínimo, sendo tão somente uma caricata tese difamatória, das piores já elaboradas por Washington em suas guerras de propaganda e desestabilização.

Fica evidente, a partir de tal observação, que se trata apenas de mais uma tentativa de inviabilizar a integração latino americana e a aproximação dos países não alinhados à política da Casa Branca para a região.

Mas se a estratégia do governo estadunidense era isolar Chavez e desestabilizar a Argentina, parece que seus planos falharam por completo. A desestabilização na Argentina não veio, tendo Cristina Kirchner uma popularidade ainda mais alta do que a quantidade de votos que a levaram ao governo. E a julgar pelas declarações dos governos do Equador, Bolívia, Uruguai, além do desdém do Brasil, Chile, dentre outros, os únicos que correm algum risco de isolamento na região são os próprios conspiradores sediados em Washington.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Bolívia - O Preço da Paz

A situação de extrema convulsão social na Bolívia tem gerado grande preocupação na América Latina e no mundo. Enfrentamentos de rua, desrespeito a todas as instituições, chamamentos ao golpe de Estado, seqüestro, espancamento e tortura de constituintes, discursos racistas e separatismo perfazem o cardápio que a oposição direitista adotou no país.

A situação toda ultrapassou o limite do aceitável há muito. E ainda estão em curso inúmeros atos de radicalização da oposição boliviana. A última estratégia foi a declaração de autonomia dos departamentos controlados pela direita, com a finalidade de se apropriar de todas as riquezas contidas nos mesmos.

A Bolívia tem como principal riqueza o gás e o petróleo, cuja exploração sempre esteve vinculada a empresas estrangeiras, em operações nas quais uma pequena parcela da população boliviana muito lucrou.

As populações indígenas, maioria no país, que se espalhavam por todo o território, foram deslocadas, gradualmente, para regiões do país sem as mesmas riquezas naturais, tão logo sua mão de obra barata não mais fosse indispensável. Essas regiões para onde foram deslocadas quase a totalidade das populações indígenas, ao longo da história, foram deixadas de lado de toda a política de desenvolvimento, se constituindo em regiões pobres e abandonadas.

Através de fortes mobilizações populares, iniciou-se um processo de resgate da dívida histórica do país com essas populações indígenas, com os camponeses e os trabalhadores assalariados, até então marginalizados no país. Evidente que tal alteração na correlação de forças no poder formal pôs a classe dominante do país em verdadeiro pé de guerra.

Assim de desenvolve esse processo de conflito e confrontos sem precedentes no país. E a direita elitista promete aprofundar a radicalização de seus atos até que tenha fim esse processo de ascensão de direitos das camadas populares bolivianas, com a volta dos privilégios de que sempre gozaram os poderosos de outrora.

Com isso, a população boliviana vive uma verdadeira chantagem, segundo a qual a única forma de obter a paz seria conformar-se com as profundas desigualdades do país, aceitando que o Estado continue atuando como mero gestor dos interesses de uma minoria abastada, garantindo a manutenção da imensa maioria populacional na miséria. Esse é o preço que a direita boliviana cobra pela paz. Sem isso, a pequena elite econômica local apoiada em grandes grupos econômicos internacionais e países que atuavam de forma imperialista e colonialista no país, prometem uma verdadeira guerra civil.

Entretanto, o imenso apoio e a imensa mobilização popular em defesa das transformações no país, parecem ser razões suficientes para imaginar que o confronto não é uma alternativa tranqüila mesmo para essa elite.

Talvez em outro momento histórico do país, a chantagem já tivesse surtido efeito, com as populações oprimidas tornando a aceitar a opressão de forma dócil e pacífica. No entanto, a grande efervescência dos movimentos populares parece apontar para o fato de que não há verdadeira paz, sem paz social, sem justiça, sem dignidade.

Ocorre que na Bolívia houve a conscientização de uma grande parcela da população do fato de ser falsa qualquer paz que exponha um determinado setor da sociedade a condições análogas à das vítimas da guerra. Parece que aquela paz, da qual falavam os senhores de escravos de outros tempos por toda a América, quando combatiam os sonhos de liberdade de seus escravos negros, não cabe mais para esse povo que aprendeu a enxergar sua verdadeira força.

A paz na Bolívia só será realmente possível em termos que permitam a plenitude da cidadania de seu povo, por inteiro, com todas as diferenças, com todas as necessidades supridas.

Se alguns sonham com a retomada da opressão, mesmo que pra isso seja necessário construir a guerra, é necessário que o povo boliviano procure a paz, sem medo de que nesse caminho seja necessária a guerra.

Se a direita impõe a opressão como o preço de sua paz, que se faça a guerra, pois a paz do povo não admite a opressão, mesmo que a guerra seja o preço da paz.