Mostrando postagens com marcador sentimentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sentimentos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A pequena vendedora de fósforos

Caros amigos


Neste dia de natal, onde certos sentimentos afloram, mas onde muito mais se mostra o espírito consumista, uma história que acabei de conhecer foi capaz de mexer realmente com meus sentimentos.


Deixo-os aqui com esse maravilhoso conto, de triste história, com espírito tão real e realista.


Reflitam:


Hans Christian Andersen


Fazia tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.


Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.


Sentou-se no chão e enrolou-se ao canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.


Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.


«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»


Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!


— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.


Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços, e soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.


Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.



quarta-feira, 11 de junho de 2008

Dia dos Namorados

Atravessando as principais ruas da cidade, percebi o clima do dia dos namorados.


Não, não vi casais apaixonados aos beijos e abraços, lindas jovens carregando seus buquês de flores, velhos casais relembrando os velhos tempos daquela paixão arrebatadora, sorridentes rapazes ruborizados fazendo eloqüentes declarações de amor.


Não vi nada disso.


Vi algumas filas em lojas de celulares e lojas de bijuterias. Vi algumas jovens olhando vitrines tentando adivinhar aquilo que receberiam de presente mais tarde. Vi alguns jovens contando seu salário dos próximos doze meses para planejar o pagamento das prestações do novo aparelhinho de comunicação da moda.


Já posso imaginar as filas gigantescas e a espera de mais de uma hora nos restaurantes "populares-chiques" de minha cidade essa noite. As broncas dadas ao garçom pelo namorado valentão nos antros da alta roda. A irritação dos operários das bandejas com o extenuante trabalho extra que pouco ou nada lhe rende a mais.


Já vejo a fila de carros em frente aos motéis, onde alguns fazem a volta rapidamente para não serem vistos. Vejo também os jovens de classe média sem dinheiro para comprar um carro, fazendo-se de desinteressados nas imediações da região dos motéis centrais, esperando por um casal que lhes dê a vaga com a qual eles tanto sonham.


Estou a me lembrar dos solitários que presenteiam a si mesmos nesse dia.


Observo tudo isso e não posso deixar de notar que ainda não vi aquele amor romântico, poético, desinteressado, que nada pede em troca, exceto o próprio amor.


Mais do que nunca, tenho a certeza, privatizamos e transformamos em propriedade e consumo até mesmo o amor.


Feliz dia dos namorados ao grande mercado.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Fim de ano - um pequeno balanço

Fim de ano é momento de festas, mas também de refletir sobre o que ocorreu no decorrer do ano que se encerra.

Iniciei este espaço no mês de junho desse ano, depois de algum tempo sem escrever nada que fosse para divulgação, apenas documentos e textos dirigidos. A idéia, originalmente, era de mesclar algumas análises e informações sobre política, conjuntura, cultura, direito, sociologia, filosofia e alguma coisa de literatura, poesia, contos. Também foi pensado na hipótese de aproveitar esse espaço para reproduzir alguns dos artigos escritos para jornais antes da popularização da internet, alguns deles sem sequer minha assinatura nas versões impressas, mas sempre sob pseudônimos ou em nome de entidades. Ou talvez alguma parte dos mais de 500 artigos, contos e textos de meu arquivo.

Como pode ser verificado, o que ocorreu naquele início foi bastante diferente do objetivo inicial. Três artigos jurídicos iniciaram as publicações, ao lado de contos, poesias, prosas, crônicas e afins. E foi essa a tônica por algum tempo, talvez em razão de um ritmo imposto pela vida que levava à falta de tempo e paciência pra transcrever tantas idéias e análises. Assim os pensamentos descomprometidos, sentimentos e sensações dominaram as postagens naquele período. Houve quem gostasse. Mas eu não estava satisfeito, pois achava muito pouco.

Naquele início, pouca gente se dava ao trabalho de ler o que aqui era escrito. 10, 15 pessoas ao dia. Alguns dias apenas uma pessoa visitou esse espaço. Mas não era possível esperar outra coisa, afinal, se ninguém conhecia o espaço, não seria possível que ele fosse mais visitado.

Com o passar do tempo, o aprofundamento de outros trabalhos, o maior envolvimento com diversas atividades, acabaram por conduzir os pensamentos de forma cada vez mais concentrada nas questões políticas, sobretudo com relação à realidade vivida pelos irmãos latino-americanos que se encontram em processos de luta. Principalmente com o acompanhamento da ANNCOL-Brasil, suas dificuldades, seu retorno, suas baixas, suas conquistas, surgiu a necessidade de dedicar-se de forma mais profunda a esses temas. E assim chegamos ao ponto atual, em que contos, poesias e outros assuntos mais suaves foram deixados à margem desse espaço, apesar de ainda produzir alguns textos, que disponibilizo apenas no Recanto das Letras.

Essa radical alteração de foco de atuação provocou, igualmente, uma radical alteração do perfil dos visitantes desse espaço. A média de visitas que já superava as vinte pessoas ao dia, caiu drasticamente para não mais do que cinco ou dez. Mas isso não durou muito.

Temas como o conflito colombiano, o processo revolucionário venezuelano, as transformações na Bolívia, a propagação de pensamentos nazistas em nossa sociedade, a hipocrisia de nossa direita, passaram a ocupar quase todas as palavras. E tais temas, ao que parece, chamaram a atenção de muitos. Com isso, tenho a agradecer, profundamente, aos mais de 30 usuários que visitam esse espaço cotidianamente. E também aos mais de 4 mil que já passaram por aqui.

Foi empolgante observar que em certos momentos, quando surgiram determinados temas para o debate público, chegamos a 200 visitantes em um único dia. Alguns textos ultrapassaram as 300 leituras e alguns posicionamentos renderam até mesmo ameaças de morte contra o administrador desse espaço.

Destaco, apesar de temer cometer possíveis injustiças, o acompanhamento do referendo venezuelano, a falsa notícia acerca da morte do comandante da frente 16 das FARC, companheiro Negro Acácio, além da análise sobre o forte componente fascista do filme Tropa de Elite como alguns dos principais momentos aqui. Tivemos vários outros, é verdade. Talvez alguns tenham despertado até mais emoção, como escrever sobre os 40 anos da morte de Che Guevara, ou sobre os 32 anos da morte de Vladmir Herzog.

Espero que as análises, reflexões e informações aqui trazidas, que por vezes são as únicas a desmascarar certas mentiras compradas de sistemas de propaganda de fora do país, em alguma medida estejam contribuindo para a construção de um pensamento crítico, que é a proposta original deste espaço.

E como não poderia deixar de lado, quero registrar aqui alguns agradecimentos importantes:

Ao camarada Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro, do Parêmias Proletárias, meu querido amigo, a quem muito admiro e respeito. Talvez o principal responsável por me trazer a tomar a iniciativa de iniciar esse espaço, além de muito ter contribuído com o meu envolvimento em outras lutas, com idéias, orientações e encorajando sempre a dar continuidade à propagação de idéias. Espero que ele aceite esse sincero agradecimento, além de que ele retome o caminho de outrora, caminho que ele sabe ser o seu.

Ao companheiro e amigo Michael Genofre, do Cozinha do No Sense, que também deu sua contribuição, com críticas, dicas, indicações, algo que eu ainda não retribui da forma que deveria.

Ao companheiro e amigo Jefferson Tramontini, do blog Classista, que se disse inspirado nesse espaço para iniciar o dele. Companheiro que também tem dado imensa contribuição, apesar de recente, com comentários, indicações e citações, além de ser, ao que parece, um dos que acompanham este espaço cotidianamente. Espero poder retribuir no mesmo nível.

E finalmente, não poderia esquecer os amigos Marcus Pessoa, Diego Salmen, Rômulo Mafra e Fernando Pureza, com quem tentamos organizar bela homenagem a Che nos 40 anos de sua morte, iniciativa que não teve o resultado esperado em razão de iniciada tão próxima a data. Quem sabe não possamos retomar a idéia nos 50 anos, se nossos espaços sobreviverem até lá.


Enfim, espero que esse espaço esteja alcançando seu objetivo, além de prometer que, no ano que se aproxima, vamos nos esforçar ao máximo para dar continuidade ao presente trabalho, sempre buscando aprimorá-lo, mais e mais.

Os agradecimentos a todos que visitam esse espaço e um excelente 2008 à todos.

Muito obrigado.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A Morte de Um Filho e os Limites da Liberdade de Imprensa

Na Venezuela, um apresentador de TV, oposicionista declarado do governo Chavez, dos mais radicais, resolveu apelar, usando a morte do filho de uma parlamentar como arma para atingi-la.

O jornalista Gustavo Azocar, em livro publicado em julho deste ano, com o sugestivo nome de "História negra dos próceres vermelhos”, acusa a deputada Iris Varela de ter se aproveitado da morte de seu filho, no início da década de 1990, o que teria sido decisivo para sua vida.

As afirmações do jornalista são baseadas, segundo o autor, são comprovadas, mas não aponta quais os elementos que comprovam as acusações.

Nessa terça-feira, 20 de novembro, a deputada entrou nos estúdios em que o jornalista apresentava seu programa ao vivo, no estado de Tachira, exigindo direito de resposta. O jornalista, além do conteúdo forte de seu livro, teria passado quase que a totalidade de seu programa anterior, tratando do tema e fazendo duros ataques à deputada, inclusive, relacionados à própria morte de seu filho. Nas palavras do jornalista, o mais leve adjetivo utilizado para referir-se à deputada, teria sido o de “mentirosa”.

As agressões do jornalista contra a deputada, envolvendo o caso da morte de seu filho, têm sido constantes e em tom crescente, desde as vésperas do lançamento do livro. E no último programa anterior à interrupção da deputada, teriam atingido seu ápice.

Ao exigir o direito de resposta, a deputada Iris Varela recebeu a negativa veemente do jornalista, que disse acabou por dizer que voltasse outro dia.

Visivelmente emocionada e abalada, a deputada não aceitara a negativa, mantendo-se inflexível quanto a sua disposição em responder às críticas e acusações, relativas à morte de seu filho. Mas o jornalista também manteve-se inflexível quanto a negativa, o que gerou um confronto direto entre ambos, inclusive com agressões físicas, apesar de leves, por parte da deputada.

O vídeo, evidentemente já disponível na internet, mostra a deputada desesperada, tentando responder às informações que o jornalista teria expressado em seu programa e em seu livro, enquanto o jornalista tenta impedi-la de todas as formas possíveis.

Após as primeiras agressões, o jornalista utiliza seus óculos com o aro torto, como “prova” de que teria sido vítima de cruéis agressões, repetindo as mesmas palavras insistentemente, como forma de interromper e provocar a deputada, que já estava absolutamente descontrolada. O resultado são mais agressões e mais provocações.

Tal fato mereceria a mais ampla e irrestrita reprovação, por todos os lados e pontos de vista possíveis, desde o conteúdo do livro, profundamente agressivo para uma mãe que perdera seu filho, passando pelas declarações pesadas, de mesmo tipo, ditas no programa televisivo, até as agressões e o descontrole da parlamentar.

Mas não foi o que se viu pela repercussão que o caso teve em toda a grande mídia, seja da Venezuela, seja a internacional.

Toda a repercussão do caso se baseou apenas na “invasão” do estúdio de televisão, nas “agressões” da parlamentar contra o jornalista e na suposta “violação da liberdade de imprensa”. Nenhum comentário foi feito com relação às provocações do jornalista contra a deputada, no momento de tais agressões, tampouco, se tocou no assunto do conteúdo dos ataques e acusações que o jornalista fizera contra a parlamentar, utilizando-se da morte do filho desta.

Tal padrão da repercussão, que chega ao ponto de todas as matérias parecerem escritas por uma única pessoa, nos coloca como algo absolutamente condenável apenas às atitudes agressivas da parlamentar, salvaguardando o “direito” do jornalista de usar a morte de um filho para atacá-la.

Será realmente legítima uma liberdade de imprensa plena e absoluta, que deixe em segundo plano até mesmo os mais íntimos sentimentos humanos, como o de uma mãe em relação à perda de um filho? Que respondam pais e mães, com filhos vivos ou mortos.

Se realmente o presente caso, como apontaram os principais órgãos de imprensa, deve iniciar um debate sobre a liberdade de imprensa, mas não somente quanto a liberdade de falar ou de não sofrer influências e intervenções de quem quer que seja. É necessário que se estabeleça um debate também quanto aos limites dessa liberdade, que jamais pode ser usada como desculpa para agressões, humilhações e execrações públicas. Não se pode tolerar que, em nome da liberdade de imprensa, aqueles que detêm o controle sobre os veículos de informação de massas, utilizem-se de sua condição para atacar, quem quer que seja, em seus mais íntimos sentimentos.

A liberdade de imprensa deve ser inviolável, no que a atitude da parlamentar venezuelana deve ser condenada. Mas igualmente inviolável, é o sentimento de uma mãe que perdera um filho, que deve ser resguardada de todas as formas, contra a infâmia e as ofensas mais graves contra a sua condição humana.

Nada, nenhuma palavra que se possa dizer, pode estar acima da condição humana, pois é o ser humano a raiz e a razão de ser de tudo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Meu Aniversário

O tempo passa. E parece levar consigo as alegrias e as esperanças.

Neste exato momento eu queria coisas simples, como ter meu pai ao meu lado, ter meu filho vivendo comigo.

Meu presente ideal seria a imagem de meu pai segurando meu filho no colo, em meio às árvores plantadas por aquele que sempre foi meu grande ídolo, no quintal dessa casa que guarda um pouco de cada traço dele.

Ah, que presente lindo seria meu pai e meu filho, juntos, brincando.

O tempo passa e nos leva as alegrais e a vida.

Eu queria encontrar uma razão para isso tudo. Talvez meu pai pudesse me ajudar. Mas o tempo o levou.

Talvez meu filho pudesse me explicar, através da convivência diária. Mas ele não mora comigo.

O amor ainda pode ser o significado dessa vida. Mas eu descubro, dia após dia, que amar dói. Sobretudo pela ausência dos beijos e abraços do amor que tanto amo.

Eu quero um presente, por favor: meu pai, meu filho, meu amor e o presente melhor. É simples. Mas não terei, eu sei.

Quero comemorar, quero ser feliz. Até poderia pensar que sou feliz, pois minha vida aproxima-se, dia a dia, de seu fim, como todas as vidas. E isso, ao menos, aproxima-me de meu pai. Mas afasta-me de meu filho e meu amor.

Parece que a felicidade, realmente é utopia.

E assim me vou, seguindo em sonhos, sem esperança, querendo comemorar, mas sem ter o quê.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ernesto - Che: Do Homem ao Mito

" Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis" (Bertold Brecht)

Um jovem argentino, nascido em uma família de classe média alta, decide cursar medicina. Algo normal, sobretudo na primeira metade do século XX, em que você só era alguém se fosse engenheiro, advogado ou médico, em termos de formação e profissão.

Entretanto, assim como a poesia é capaz de expressar sentimentos que não possuem um tom meramente utilitarista das coisas, o ser humano é capaz de sentimentos sinceros que não possuem vínculo exclusivo com aquilo que eles podem obter de forma egoísta e direta de cada um de seus atos.

E um estudante, de vida confortável, resolve escolher tal vida não como um elemento de “status”, ou como garantia de uma vida confortável como a que possuía até então, mas como forma de dar a sua contribuição para a redução do sofrimento de outros.

Uma visão sonhadora e utópica é verdade. Mas o que seria da vida sem os sonhos e utopias?

Assim, tal estudante, em sua ingenuidade de um jovem bastante alienado acerca da realidade dura da maioria dos homens e mulheres, membro de uma classe média elitista de uma América Latina que busca comparar-se à Europa, não conhecia realmente o sofrimento alheio, mas apenas em livros imaginava algo que não parecia crível àqueles olhos habituados ao conforto.

O contato com a dura realidade, às vezes, pode ser altamente chocante para aqueles que sequer a imaginam.

E assim foi com o jovem Ernesto, o jovem que estava a estudar medicina com um objetivo primordialmente humanitário. A realidade realmente muda mentes e corações, quando o contato é tão real, tão próximo.

Assim, uma aventura de um jovem rebelde e sonhador, altera toda uma história de vida que se torna um exemplo de humanidade e luta por um mundo melhor.

Uma simples viagem de motocicleta, uma aventura, uma farra. Um contato com a miséria e o sofrimento dos povos dos rincões da América Latina. A realidade exposta em suas mais reais e duras cores. Fome, opressão, humilhação. O contato direto com tal realidade altera a visão de mundo de qualquer que tenha um mínimo senso de humanidade, que não tenha aversão à raça humana. E o jovem Ernesto não a tinha.

Da dura realidade nasce um novo Homem, despido, de forma drástica e radical, de sua pureza e ingenuidade, atirado à dura realidade com a força que impulsiona a revolta com que o coração reage à agressão ao mais íntimo do ser humano.

"Se você treme de indignação perante a uma injustiça cometida a qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, então somos companheiros.", diria Ernesto, anos mais tarde, já como Che Guevara, o mito vivo. Sem dúvida, esse sentimento nascera naqueles tempos de descoberta da crueldade e do sofrimento humano.

Esse período não é o mais decantado da vida de Che, mas é de extrema significação para a transformação do jovem asmático de classe média alta, Ernesto, no líder revolucionário Che.

Evidente, a construção de um novo Homem tem nos sentimentos mais puros e sinceros o pressuposto básico, mas que não se tem por suficiente em si, requerendo para tanto, a formação necessária, que só é obtida pelo estudo, ou pela vivência prática de uma nova realidade. Ernesto optou por ambas.

Seu contato com os revolucionários se dá na Venezuela, em meio aos preparativos para a transformação da realidade de todo um povo, para a recuperação da dignidade de um país todo.

Médico de formação, aplicado na tarefa de cuidar do ser humano, Che, já o novo Homem, não Ernesto, o antigo jovem de vida confortável, embarca em sua nova vida, em importante missão libertadora de todo um povo.

Os grandes nomes da história não se constroem apenas do esforço e dedicação, senão teríamos tantos grandes nomes da história, que nem mais se destacariam, pois que seriam a maioria dos homens e mulheres que já viveram e ainda vivem sobre a terra. Os grandes nomes da história se constituem de todo o conteúdo que trazem em si, dos momentos históricos em que atuam e da forma como reagem e atuam em tais momentos. E a história acabou por impor ao jovem Che um momento e uma tarefa única, na qual ele poderia triunfar, ou ser apenas mais um que tomba em defesa dos sonhos impossíveis.

Naquela heróica e ousada missão, restam vivos pouco mais de uma dúzia dos lutadores que viajaram no emblemático Granma, rumo à libertação do povo cubano. E Che, ainda jovem e inexperiente, era um deles. E a realidade impõe, dessa forma, os maiores desafios e tarefas ao inexperiente jovem que acabara de ingressar na luta real e concreta.

As rápidas transformações pelas quais um Homem pode passar, de forma imposta pela realidade que se apresenta, são capazes de fazê-lo endurecer ao extremo. O contato com o sofrimento humano é algo que transforma os sentimentos em razão e a razão em sentimentos, fazendo o mais cruel os seres, compreender os mais ocultos sentimentos de humanidade. E assim se constrói Che, aquele por todos conhecidos, cujas transformações que se lhe impuseram, podem ser resumidas em frase sua “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamas.”.

Controverso enquanto comandante militar, reconhecido até pelos inimigos pela obstinação e disciplina. Esse é o novo Homem surgido da luta, do bruto amadurecimento forçado.

A história lhe reservou melhor lugar do que a vida.

A dureza de uma vida de lutas não se interrompe para esse novo Homem, surgido da dura realidade da opressão humana, com a vitória revolucionária de libertação de um povo. Para ele, era necessária a libertação de todos os povos. E seus sentimentos de humanidade, mais uma vez, triunfaram sobre a mesquinhez da alma humana, tão apegada ao conforto e ao poder.

E Che, agora já não tão novo e inexperiente, mas o Homem calejado e formado pela luta concreta, forjado na busca por um mundo melhor, parte para sua jornada de transformação dos sonhos de igualdade, fraternidade e justiça, em realidade, para tantos povos do mundo quanto ele fosse capaz.

Essa história de lutas despertou esperanças em todo o mundo, admiração em tantos homens e mulheres quantos souberam de tal história. Mas também despertou a ira de todos aqueles que sempre se mantiveram por meio da opressão e exploração dos povos do mundo.

Che levou os sonhos e a esperança ao continente africano, trouxe sua luta novamente para o continente latino americano, tendo vitórias e derrotas, carregando consigo a certeza inabalável de que, cedo ou tarde, a justiça prevaleceria para todos aqueles povos massacrados.

Suas vitórias vieram do exemplo em que sua jornada se constituía para tantos que antes apenas sonhavam, hoje tinham a certeza, conheciam um novo rumo a seguir.

Suas derrotas, da brutal reação dos “donos do mundo” que empunhavam todas as armas possíveis contra os povos em luta.

Obstáculos, aos que sonham, não são barreiras intransponíveis, mas somente dificuldades a serem vencidas com a luta dos que possuem a certeza da vitória final. E Che, esse Homem de “novo tipo”, sabia sonhar como poucos. E sabia traduzir os sonhos em algo lógico e racional, tão palpável quanto a fome e a miséria contra as quais ele lutava.

E foi na Bolívia, num mês de outubro como agora, que aquele palco de luta teve sua última cena para o tão aclamado comandante, “El Che”.

Capturado, sem mais poder reagir, veio a ordem para que matassem os sonhos. E fuzilaram Ernesto Guevara de la Sierna. Anunciavam, os assassinos do Homem que se transformara em exemplo de luta e esperança, a morte de Che Guevara, distribuindo aos quatro cantos da Terra as mórbidas imagens do Homem destruído por disparos de armas de fogo. Falavam de sua vitória sobre o mito. Mas fracassaram de forma brutal.

Eliminaram o homem, Ernesto, o argentino que cursara medicina, que gostava de viver a vida e possuía uma rebeldia inata. Mas fracassaram diante de Che, pois não sabiam aqueles cruéis assassinos que os sonhos não morrem, que o exemplo não se elimina, que a esperança resiste.

E até hoje tentam mata-lo. Não mais com tiros ou bombas, mas com palavras e mentiras. E os raivosos ataques que seu nome recebe, as tenebrosas mentiras e lendas que se criam contra sua história, são o testemunho de sua vitória inconteste.

E até hoje, Che permanece vivo, na luta dos pobres, dos operários, dos camponeses, dos oprimidos, dos explorados, dos humilhados. Permanece vivo na memória e no exemplo que segue seu rumo em qualquer lugar em que alguém, ainda que perdido, recusa-se a render-se. Nos corações dos que, mesmo diante da dura realidade de egoísmo e mesquinhez, ousam sonhar com um mundo melhor. Na certeza dos que constroem, a cada dia, mesmo sem a certeza de ver o resultado final de sua obra, esse mundo melhor, com que sonhava Che, sempre com a certeza da vitória que está porvir.

Che vive, agora em lugar onde ninguém mais é capaz de atingi-lo ou vence-lo: nos corações e mentes, na disputa em que a ele só cabe a vitória.

Ainda e eternamente, imprescindível. Che Vive!


Convido todos a visitarem as justas homenagens a Che, nesses 40 anos de sua morte, que serão reunidas ao longo da semana em Che Vive!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Pesadelo e Desgraça

Sonho e realidade, pesadelos e angustias, confundem-se em meus dias sombrios com toques momentâneos de felicidades.

Nada mais pode piorar na rotina, ao menos é o que eu penso, apesar de ter pensado o mesmo antes das três últimas pioras na minha vida. E elas vieram, uma sobre a outra, em questão de dias.

Esperança é palavra bela, de rima fácil e alegre. Rima com dança, rima com aliança. Mas não rima com superação de tragédias, nem com solução de problemas.

Penso sempre no pior, pois assim, por pior que seja a realidade que me aguarda, poderei comemorar por ter evitado aquilo que eu esperava. No entanto, tenho aprendido, dia a dia, que preciso melhorar minha criatividade, pois as desgraças que me aguardam são sempre maiores do que minha imaginação pôde criar.

Nem o suicídio me é mais possível, pois que deixaria um rastro de problemas sem solução a quem eu menos quero deixar a minha carga de problemas insolúveis. Preciso avançar muito para tornar ao menos o suicídio uma saída viável.

- Ei, acorda! Tá na hora!
- Heim? Na hora de que?
- Não vai trabalhar hoje?
- Ah, estou indo.

Droga! Era apenas um sonho!

E como é bom sonhar...

Em nossos sonhos as coisas são sempre melhores do que a realidade.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Educada Tortura

As sombras na calçada me distraem a atenção das vitrines que nunca vi. Mas as vitrines não merecem mesmo estar nessa rua. Ela não comporta essas vitrines que inutilmente tentam disputar espaço com as folclóricas figuras que habitam esse passeio urbano e o imaginário da gente daqui.

Senhores e rapazes agridem meus mais profundos sentimentos com seu chopp na calçada às quatro horas da tarde. Seus desgraçados! Quando estiverem atarefados ao extremo e sem um tostão nos bolsos, eu, vingativamente, estarei com as burras cheias e ocuparei esse lugar de vocês, fazendo-os passar pelo mesmo.

Um rosto conhecido vem em minha direção.

- Daí rapaz, tudo bem? Como é que vai a vida?
- Muito trabalho e pouco dinheiro.

Já tem algum tempo que eu tenho dado a mesma resposta mal humorada. E o pior é que é sincera.

- Pois é, a vida não ta fácil pra ninguém, não é?

Pensei em responder-lhe o que me veio a mente. Algo como “da tua vida eu não sei, nem quero saber. O que eu sei é que eu estou ferrado, mal pago atarefadíssimo demais para ficar de conversa fiada com quem eu nem lembro quem é.” Mas não, em minha habitual polidez no tratamento com as pessoas, mas mantendo o meu mal humor dos últimos tempos, limito o uso das palavras nessas ocasiões.

- É realmente...

- Pois é, já não nos vemos há algum tempo. Precisamos marcar alguma coisa, reunir o povo dos velhos tempos.

De que “povo” este figura está falando? De que “velhos tempos”?

- Pois é. Só marcar e me avisar.

Essa foi a minha vingança. Vingança perfeita. Esse figura agora se ferrou. Eu não vou mais precisar ficar pensando em quem ele é ou deixa de ser. Agora é ele que precisa mostrar que me conhece e de onde.

- Então, mas o teu telefone continua o mesmo?

Ah, agora ele me deu a deixa para a perfeita conclusão de minha vingança.

- Qual o número que você tem aí?

Ele retira o telefone do bolso cuidadosamente. E eu já estou babando de ansiedade pela derradeira derrota de sua farsa de falsa intimidade comigo.

Ele mostra-me o visor do celular:

- É esse ainda?

Eu, agora babando por quão boquiaberto fiquei, não acredito no que vejo.

- Sim, é esse.
- Então ta, eu vou ver se marco alguma coisa logo com o pessoal e daí te ligo.

Meu Deus! Preciso dar um jeito de sair daqui logo antes que ele descubra minha dissimulação.

- Então está bem, estarei aguardando sua ligação. Agora preciso ir, estou atrasado.

E vou já me afastando e dando as costas àquele ilustre desconhecido para mim. Mas o desgraçado não pôde deixar de usar sua última arma contra mim.

- Ei, não estou te cobrando os parabéns, mas hoje é meu aniversário!

Ai, agora ele me pegou. Agora ele vai partir para o auge da tortura, esmagar cada um de meus ossos e comprimir meu crânio até ver meus olhos explodindo para fora da órbita. Eu não posso permitir isso. Mas o desgraçado continua:

- Então, eu vou fazer uma confraternização, reunir os amigos.
- Ah, então ta, depois eu te ligo para te dar os parabéns direito e você me passa o local.

Acho que me safei dessa vez.

- Ah, vai ser lá em casa mesmo!

Desgraçado, agora acabou comigo! Eu vou saindo, agora praticamente correndo desesperado, me afastando até onde não mais possa ver o rosto daquele cruel torturador, nem mais ouvir a sua voz sádica!

Agora estou a salvo, mas não pretendo me aproximar mais daquela rua que tanto amo, ao menos até descobrir quem era o desgraçado. Ah, quem poderia me ajudar e permitir que eu resolvesse o problema hoje mesmo, podendo evitar conseqüências futuras?

Desgraçado! Não bastou a tortura do momento. Tinha que deixar seqüelas. Não posso ficar sem resolver esse problema. E hoje ainda.

A caminho de onde eu estava mesmo? O que eu precisava fazer? Desgraçado! Acabou com meu dia!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Enfim

Enfim
Um brilho no olhar
Por um momento a lembrar
E sonhar com alegrias sem fim

Ainda não me pego a cantar
Nem é tanto o consolo assim
Mas prelúdio de um comemorar

Inebriado de lembranças
Embalando a esperança
Um viver e sonhar
Como um belo versejar

Como a chama reavivada
A alma aquecida
Irrompendo a invernada

Resta-me o corpo
A querer de ti um pouco
E me brota o desejo louco
De possuir-te de alma e corpo

Sobre ti transpirar
Teus contornos a acariciar
Sua pele seu calor

Por ti me brota o verso
Por ti planejo a prosa
Como a beleza de uma rosa
E em sonhos sigo imerso

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Por Quem as Mulheres se Vestem

- Oi amor, tudo bem?

- Oi, você demorou hoje, heim?

- Ah amor, é que eu estava me arrumando para ficar linda pra você.

- Ah, mas você já é naturalmente linda, não precisava se arrumar tanto.

- Ah, é que eu quero estar cada vez mais linda pra você.

- Mas eu já te disse que não precisa todo esse trabalho, toda essa maquiagem. Eu gosto de você ao natural.

- Mas eu quero ficar bonita! Mais bonita pra você!

- Mas eu estou dizendo que eu gosto mais de te ver ao natural, sem tanta maquiagem. Ou melhor, prefiro você até mesmo sem maquiagem nenhuma, num estilo mais casual até nas roupas.

- Ai amor, mas eu gosto de me produzir.

- Mas por quê? Você não disse que se arrumava pra mim?

- Ah, mas eu me arrumo pra me sentir bem também.

- Como assim se sentir bem? Você não vive falando da tortura que é essa imposição de um padrão de aparência, da moda, dos saltos altos, de maquiagens que fazem com que você sinta como se seu rosto estivesse engessado, além da irritação que a maior parte das maquiagens causam à sua pele?

- Ah, é, ãhm...

- O que foi? Fala!

- Bem, assim, tipo. Ah, sei lá. Eu quero me sentir bonita! É isso, eu quero me sentir bonita! Eu gosto de me sentir atraente!

- Mas eu não te faço sentir-se bonita o tempo todo? Não te faço sentir-se a maior das mulheres do mundo?

- É, assim, tipo, é, assim. Ah, é que eu quero sentir que todos me acham linda. Quero me sentir desejada, cobiçada.

- Como assim?

- Como assim o quê?

- Como assim “cobiçada”, “desejada”? Por quem?

- Como assim “por quem”?

- Eu é que pergunto! Se eu disse que te prefiro sem essa produção toda, então não é por mim!

- É, tipo, assim, é, ãhm, assim, quer dizer, é...

- Vai, fala logo, desembucha!

- Ai, não me pressiona!

- Não estou te pressionando. Ou melhor, estou sim! Quero que você explique isso agora!

- Ah, pare com isso, eu falei, tipo assim, tipo, só por falar. Foi uma coisa, assim, jeito de falar, sabe?

- Não, não sei não. Me explique então.

- É, tipo, é, ah, é, não sei! Você está me deixando confusa!

- Confusa com o que? Com o que você falou? Você quer se sentir desejada por quem?

- Ah, eu quero me sentir bonita, cobiçada, desejada por todo mundo!

- Então você está me dizendo que se arruma desse jeito que eu nem gosto apenas para aparecer para outros homens?

- Não, não é bem assim. Você está distorcendo as coisas.

- Distorcendo o quê?

- É, assim, está distorcendo o que eu disse.

- Então o que você disse? Você se arruma desse jeito pra quem?

- Ah, sei lá. Pra mim!

- Pra você como? Não era pra se sentir desejada?

- Ah, tipo, é.

- Desejada por quem?

- Ah, é, tipo, assim, ah, por todo mundo!

- Então é pros outros?

- Ah, tipo, assim, é, sei lá!

- Então é isso? “Sei lá!”? Isso é a confirmação então? Você está o tempo todo me fazendo de trouxa? Andando ao meu lado, se dizendo comigo e se arrumando para os outros?

- Não é bem assim também.

- E é como então?

- Ah, que seja então! Por quê? Isso é problema? Você vê algum problema em eu querer que os outros me achem linda?

- Ah, mas então você admite! Não se arruma pra mim, pelo contrário, me desagrada frontalmente, enquanto fica se arrumando para agradar outros homens e acha isso normal?

- Não é bem assim também.

- E é como então?

- Sei lá!

- Se você não sabe, eu sei bem! Cansei! Não vou ficar ao lado de uma mulher que despreza a mim, enquanto fica preocupada apenas em exibir-se para outros homens! Não tenho vocação pra corno! Está tudo acabado! Tchau!

- Ei, espera aí! Também não é assim!

- Não é assim o diabo! Acabou! A-ca-bou!

- Não faça isso comigo! (agora já em lágrimas)

- Não adianta vir de chantagem emocional! Você devia ter pensado melhor nisso antes de tomar suas atitudes, antes de adotar esse comportamento! Agora é tarde, está tudo acabado!

Ele sai em passos acelerados, firmes e decididos, batendo a porta com violência ao sair.

Ela se atira ao sofá, em prantos, desesperada. Ali permanece por cerca de meia hora, lamentando-se pela incompreensão do namorado, agora ex-namorado. Até que toca o telefone. Ela atende com a voz ainda embargada pelo choro.

- Alô?

- Alô. Quem?

- Quer falar com quem?

- Quero falar com a Marcinha.

- É ela. Quem está falando?

- Aqui é o Gil, primo do Pedro, lá da balada de último sábado. Te achei a maior gata e peguei teu telefone com meu primo.

- Ah é?

- É. E daí fiquei pensando, assim, tipo, o que você vai fazer hoje, essa noite? Já tem compromisso.

- Ah, assim, tipo, sei lá. Eu até tenho, mas dependendo, posso desmarcar.

- Opa! Então, tem uma baladinha nova que ta inaugurando hoje...

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Noite Perfeita

Corpos ardentes em frenéticas carícias mútuas. Sabores e odores, trocados e provados até o último resquício de sua existência. Beijos cheios de paixão e desejo. Êxtase anunciando-se no horizonte.

Uma palavra, um suspiro, um olhar.

Corpos entrelaçados num estranho balé sem melodia, em ritmo acelerado, compassado. Corpos que se fundem e se confundem, que se possuem e se deixam possuir, em verdadeira cena antropofágica das mais deliciosas e excitantes, injustamente censurada à admiração pública.

Momentos silenciosos, apesar dos suspiros, gritos e gemidos, pois até a mais leve respiração e o próprio bater dos corações é intensamente ouvido e sentido. É o máximo complemento entre poesia e sua rima lógica, pois que multiplicam-se as sensações dos corpos que alcançam, sem deixar o chão, as nuvens mais elevadas, com mil mãos, mil toques, mil beijos e desejos que estão por saciar-se.

Seios tornam-se extensão das mãos. Unhas cravam a carne como punhais que sequer são temidos. Invasão consentida do sagrado templo do desejado corpo feminino. Eu e ela, tornando-se apenas um, sem saber mais quem é quem, onde os toques são nossos, onde somos tocados.

Entrega total e absoluta, que explode em mil sensações e cores, violentos sabores, que dominam corpos trêmulos e esgotados, num transe, num êxtase.

Um último olhar, olhos nos olhos, um singelo sorriso, agradáveis palavras e um inocente abraço meu por suas costas, aguardando, juntos, o sono nos embalar aos sonhos que, quando muito, nos lembrarão do paraíso que acabamos de alcançar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Desabafo ao Meu Amor

Poder amar é algo que engrandece a vida, ilumina nossos dias, enriquece nossa alma.

Amar não requer licença. Não requer presença, nem sequer promessas. Amar é algo que apenas acontece, quando menos esperamos, que nos leva a quem sequer sonhamos.

Amar não permite escolhas. Apenas amamos, sem decidir a quem, sem decidir como, sem saber quando.

Ao te conhecer, jamais imaginei um dia amar-te. Jamais imaginei um dia por ti sofrer. Mas amar não é querer. Amar não é imaginar. E simplesmente aconteceu.

Não queria amar. Não podia amar. Não esperava sonhar. Não podia me entregar. Mas amei, sonhei, me entreguei. E agora, de mim, nada sei. Não posso, nem devo, cobrar-te nada. A lágrima derramada, o beijo negado, o amor não dado, o encontro perdido, a noite desejada, a esperança perdida, os sonhos rasgados, a palavra não dita, a poesia reescrita.

Você nada prometeu.

Mas é duro te ver, sem poder te tocar. Não que eu queira de ti a distância segura, a distância a apagar e lembrança. Não posso perder-te novamente. Não sobreviveria.

Tampouco posso dizer-me tranqüilo, pois que a mentira você veria em meus olhos, ao te ver passar, ao te ver chegar, ao te ver...

Eu te quero, te desejo, sonho contigo. Não é sua imagem, mas sua alma que a minha assombra. A tua sombra me basta a causar arrepios e suspiros, dos mais insanos e indomáveis sonhos de amor, amor que um dia, no passado, deixou de ter futuro.

Dizem-me: pessimista, derrotado.

Não sei. Talvez. Mas o que posso dizer? Se diante de ti me sinto menor, pois que diante do maior amor que pode existir, minha própria existência compreende sua absurda insignificância.

Teu olhar ilumina meus sonhos. E meus sonhos me fazem lembrar que minha vida é outra. Mostram-me que a vida não é um conto de fadas, que ao final, vilão vencido, vive-se feliz para sempre. Pois meus sonhos, em felicidade plena, absoluta, contrastam brutalmente com meus torturantes dias. Torturantes, pois sem você em meus braços.

Não, não quero simplesmente teus beijos, por mais que eles muito me confortem. Não, não quero simplesmente amar-te em carne, em corpo e suor, por mais que o sublime e intenso prazer muito me agrade. Quero-te por inteira, de corpo e alma, de dias e vidas.

Talvez me digas: “Idiota! Não sabe encarar a derrota e seu rumo tomar!”. Ou talvez me digas: “Covarde! Não sabe lutar, não sabe buscar, perseverar e conquistar!”.

Mas em verdade te digo: sou covarde. Covarde demais para a derrota encarar.

Por isso, do fundo de minha alma, te digo: a esperança perdi, o sonho reprimo. Mas se perguntares se desisti de ti, direi que jamais, pois um amor verdadeiro, desses que nos tiram o chão, não se esquece jamais. E não é possível desistir daquilo que nos persegue por toda a vida. Portanto, de ti não desisti.

Assim, apenas me resigno a meu canto, admirando o encanto, que me sobra de teu olhar.

E de sonhos me lembro, até o dia em que me deixes por ti lutar.

Amo-te! E isso resume tudo. Amo-me! E isso complica tudo.

Ainda serás minha! Não em sonho e poesia. Mas em vida, em meus dias.

sábado, 1 de setembro de 2007

Lágrimas de amor


Lágrimas de amor
Traição a razão
Loucura e terror
Funeral da paixão

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Esperança e Dor

.................... Em nossa triste vida
............. Esperança que morre
....... É a dor mais sentida

sábado, 18 de agosto de 2007

O Fim de Mim

“A esperança é a última que morre”
Então a sua morte, significa o fim de tudo
Se não mais há esperança, tudo está perdido
E perdido segue-se para lugar algum

“Meu caminho eu mesmo faço”, dizia eu
Doce ilusão que se acaba
Num momento único, realidade desnudada
Esperança arrancada a ferro e fogo

E agora, o que fazer?
Sobreviver dia após dia
Sem sentido, sem esperança, sem nada

A vida segue seu rumo
Envolta em sombras
Inundada de lágrimas
À deriva em densa escuridão

De alegrias me lembro, infelizmente
Pois se a lembrança perdesse
Ao menos da saudade livrar-me-ia

E agora, o que fazer?
Sobreviver dia após dia
Sem sentido, sem esperança, sem nada

De passo em passo eu vou
Sem objetivos
Sem sonhos
Sem ilusões

Despeço-me de tudo
Tudo quanto desejei
Tudo quanto esperei
Tudo em que acreditei

E agora, o que fazer?
Sobreviver dia após dia
Sem sentido, sem esperança, sem nada

Não se apiedem de mim
Eu mesmo não o faço
Pelo contrário: o ódio
Pela incompetência e incapacidade

“Imbecil, burro, idiota, incapaz”: digam-me
Nada além disso
Apenas um imbecil que se acreditou alguém
Acordei. E hoje, fracassado em tudo, me sei um nada

E agora, o que fazer?
Sobreviver dia após dia
Sem sentido, sem esperança, sem nada

domingo, 12 de agosto de 2007

Depressão

A alma humana é algo inacreditável.

Somos capazes de tudo quanto nos pretendemos incapazes. Inclusive, somos capazes de cavar o próprio buraco no qual nos enterramos.

A felicidade é algo inalcançável de verdade. As alegrias momentâneas que nos dão o sentimento, a sensação de sermos felizes, nos tornam ainda mais suscetíveis a ação daquilo que nos agride em nossos mais íntimos sentimentos, sendo garantidor da mais profunda tristeza e infelicidade.

A ilusão que se desfaz, como a tora que pretendemos como aríete desfeita em cinzas, é a desconstrução do sonho e a mais direta demonstração da realidade desnudada frente a nós.

A esperança é a traição à razão.

A certeza do sucesso é a mais pura enganação construída a partir do impossível, demonstrando nossa incapacidade de entender o mundo.

Apenas a infelicidade é certa.

E àqueles que ainda acreditam no mundo, na vida, o conselho: aproveitem enquanto a ilusão não termina, pois quando isso ocorrer, tudo quanto vivido até aqui parecerá sem sentido e a vida mesmo, será algo a que não se dá muito valor.

sábado, 21 de julho de 2007

Vida em Luta

Eu só queria poder sonhar
Eu só queria poder viver
Eu só queria poder chorar
Eu só queria poder sorrir

A realidade já não me comove
O mundo me parece cada vez mais estranho
Preciso de algo que me renove
Destrua essa desesperança já tão sem tamanho

Um dia já tive esperança
Esse dia a muito se apagou
Da esperança já nem mais lembrança
Hoje só revolta me restou

Da revolta, tiro minha força
Da indignação, minha emoção
Cada lágrima me reforça
De cada lágrima construo minha ação

Do futuro nada espero
Evito a decepção
Do presente nada quero
Evito a frustração

Apenas luto
Apenas faço
Apenas tento

Antes morrer lutando do que viver rendido!

Que o Amor se Acabe

As derrotas me fizeram crescer
Mas cresci demais
E não quero mais sofrer

O desespero num berro
As lágrimas contidas
Na desilusão perdidas
Por um amor que não viverei

Do amor me despeço
Não sem antes
Perder um pouco de mim

Se me disseres que vivi
O amor sonhado
Digo-te que o grito contido
É o grito não gritado

De ti carrego
A lembrança amor próximo
Que já me foi negado

A lembrança de seus beijos
Sem amor
Num pavor insano
Com o sabor do nunca

O nunca não me agrada
A dor que principia
A esperança rasgada
De um dia seu amor

Despeço-me da esperança
Querendo ver morrer o amor
Amor que não é meu
O sofrimento do adeus

O Fim da Poesia

O poeta está morrendo
Salvem o poeta
O amor se perdendo
Salvem o amor

Às escondidas
O amor que não se pratica
As horas perdidas
Desejos contidos

O tédio desesperador
Para essa dor não existe remédio
Exceto os beijos escancarados
Que me negas por pavor

Se o mundo contra nós
Contrariemos o mundo
O enfrentemos por nós
Ou que o amor caia em esquecimento profundo

Calar o coração
Amar em silêncio
Rendição à razão
É só nisso que penso

Não posso e não quero
Amar-te sem me amar
Não renego meu berro
Antes a derrota aceitar

O poeta está morrendo
Pois perdendo a inspiração
O poeta se perdendo
Pois amar não é razão

terça-feira, 17 de julho de 2007

Implorando Por Liberdade ao Amor

A voz que não diz “te amo”
Mas a voz que me traz o amor
A face do amor que eu amo
A ausência que me provoca o temor

Segredos são armas
Apontadas contra nós
Pondo-nos amarras

Não se cala a voz do amor
No máximo se a retarda
Não se elimina o calor
No máximo se o refresca

No seu toque o desejo
Perdendo-me em teu beijo
Euforia da visão do amor

Sem apressar o passo
Por você enfrento o mundo
Não perdendo o compasso
Seu nome ecoando em som mudo

“Te amo, te amo, te amo”
Grito em silêncio
Simplesmente me ame e grite

Liberte a voz que canta
Seu nome no escuro
Ainda que relutante
Preservar-te-ei, eu juro

Amo-te e desejo-te
Permita o amor
Deixe-me, ao seu lado, ser feliz