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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Liberdade para os prisioneiros do Império


Coordenação Continental Bolivariana – Seção Uruguai

Marcha 11 de maio, a partir do Paço Municipal até a Praça da Liberdade, pela liberdade dos 5 cubanos, Sonia e Simon Trinidad, todos prisioneiros do Império.

Se completam 10 anos do encarceramento de René Gonzalez, Ramón Labañino, Antonio Guerrero, Fernando González e Gerardo Hernandez. Estes 5 heróis cubanos foram injustamente condenados pelo governo estadunidense a penas que somam quatro prisões perpétuas mais 77 anos de prisão.

Em situação semelhante se encontram os dois guerrilheiros das FARC-EP, Sonia e Simon. A quem se tem negado o direito universal a defesa jurídica. Todas as testemunhas levadas de Bogotá para apresentar falsas declarações contra eles nas cortes do império são agentes do exército da Colômbia. Todos têm sido derrotados pelas idéias e convicções de Simon, a quem não têm permitido testemunhas favoráveis.

Os julgamentos que se seguem contra Simon e Sonia nos Estados Unidos são uma farsa do começo ao fim. Os dois foram arrancados de seu país burlando com armações da Procuradoria, do exército e do próprio Uribe, a proibição constitucional de extradição de nacionais por razões políticas. Todos vivem presos em masmorras, em condições subumanas, onde não lhe são permitidas sequer as visitas de suas esposas e/ou familiares.

No marco desta campanha de solidariedade a Cuba e com todos os reféns do império, nos mobilizamos desde a explanada da IMM até a Praça da Liberdade, neste 11 de maio às 19:00 hs.

Enlace original

sábado, 2 de maio de 2009

1º de maio: dia do trabalho ou do trabalhador?

Há algum tempo temos visto um crescimento sem precedentes de referências ao dia 1º de maio como “dia do trabalho”, tanto na imprensa, em agendas oficiais e até mesmo na marcação de calendários ao referir-se à razão do feriado.

Não raro, inclusive, vemos alguns apresentadores de televisão, jornais e rádio, comentaristas, políticos e palpiteiros em geral, fazendo piada sobre “o dia do trabalho” ser feriado. E também não raro, vemos esses mesmos fazendo piada sobre “o brasileiro não querer trabalhar nem mesmo no ‘dia do trabalho’.”.

De outro lado, vemos o cada vez mais despolitizado e esvaziado movimento sindical brasileiro deixar de lado as tradicionais manifestações dessa data, substituindo-as por festas com patrocinadores privados, ou fazendo precárias, esvaziadas e escassas manifestações, sempre em lugares escondidos, deixando de apontar ao grande público essa data como tendo algum outro significado.

Isso nos leva à pergunta título desse texto: é dia do trabalho, ou do trabalhador?

O momento histórico que marca a data de 1º de maio ocorre na cidade de Chicago, maior centro industrial dos Estados Unidos, no ano de 1886.

Naquele tempo os trabalhadores estadunidenses eram submetidos a um regime de trabalho sem qualquer tipo de garantia, com jornadas de 16 horas diárias. E foi essa a razão que levou milhares de trabalhadores às ruas naquele 1886, em grandes manifestações, organizadas no final de abril realizadas a partir de 1º de maio.

A principal reivindicação dos manifestantes era a redução da jornada de trabalho das 16, para 8 horas diárias, o que era visto com grande reprovação pelos empresários e pelo governo, que consideravam um absurdo querer retirar das fábricas metade de sua produtividade, tornando o custo das empresas impraticável.

Aquelas manifestações nas ruas de Chicago foram violentamente reprimidas pelo aparato oficial, tendo a polícia assassinado, oficialmente, 12 trabalhadores. Ao final do ciclo de manifestações, somou-se a esse trágico saldo centenas de feridos e, sobretudo, 5 trabalhadores, tidos como líderes daquele movimento, enforcados.

Estima-se, no entanto, que além dos 12 executados e 5 enforcados, dezenas de outros trabalhadores tenham sido mortos nos confrontos com a polícia. Mas suas mortes jamais foram reconhecidas oficialmente.

Essa série de assassinato de trabalhadores que lutavam pela redução da jornada de trabalho e melhoria de suas condições laborais levou, em 20 de junho de 1889, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, a declarar o dia 1º de maio como Dia Internacional de Luta Pela Jornada de 8 Horas, com manifestações sendo convocadas em todo o mundo.

Como fruto dessas mobilizações, já em 1890 o Senado estadunidense termina por aprovar a lei de redução da jornada de trabalho, instituindo a jornada de 8 horas diárias. No entanto, a história do 1º de maio ainda continuava pelo mundo.

Em 1891, na manifestação convocada pela Segunda Internacional Socialista, no 1º de maio na França, a reação policial é de extrema violência. Resultado da violência do Estado contra a manifestação foi a morte de pelo menos 10 manifestantes, o que acaba por reforçar a data como dia internacional de mobilização dos trabalhadores.

Nesse rumo, o 1º de maio como data de luta ganha força em todo o mundo, marcado por numerosas e grandes manifestações de luta por melhoria nas condições de trabalho, melhoria nos salários e redução da jornada de trabalho.

Esse histórico de mobilizações levou, apenas em 1919, o Senado francês a ratificar a jornada de trabalho de 8 horas. No mesmo ato, o Senado francês institui o 1º de maio desse ano como feriado.

Mas foi apenas em 1920, na recém nascida da revolução operária, União Soviética, que o 1º de maio é instituído como feriado nacional todos os anos.

Nesse tempo, e também até anos mais tarde, o 1º de maio foi marcado por diversas manifestações e milhares de trabalhadores assassinados em todo o mundo, inclusive no Brasil, a partir da primeira greve geral, em 1917.

Hoje, o 1º de maio é reconhecido em quase todos os países do mundo como feriado internacional, em homenagem ao Dia do Trabalhador, homenagem a todos aqueles que lutaram e morreram nas lutas pela redução da jornada de trabalho, melhoria das condições laborais e salários dignos. Tal reconhecimento é feito inclusive pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), em decisão ratificada por quase todos os países do globo.

Dois dos poucos países cujos governos não reconhecem o 1º de maio como dia do trabalhador são Estados Unidos e Austrália. O primeiro porque se recusa a reconhecer a arbitrariedade e a violência de seus atos em 1886, bem como a legitimidade daquele movimento. O segundo, porque tem a homenagem ao trabalhador em diferentes datas, variando em diversas regiões do país, por diversas razões locais.

Por essa razão, deixar de reconhecer o 1º de maio como Dia do Trabalhador, chamando-o de “Dia do Trabalho”, é como tornar a assassinar, desta vez a alma e a memória, de todos aqueles que lutaram e morreram, para que hoje os trabalhadores pudessem ter um pouco de dignidade e uma jornada de trabalho um pouco menos desumana.

1º de maio é Dia do Trabalhador. Quem disser o contrário está a cometer um verdadeiro crime contra a humanidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O conflito Israel – Palestina e o terrorismo no Oriente Médio

Há muito nós temos falado acerca da forma como se define o terrorismo e o enquadramento feito pela mídia em geral.


No caso do conflito Israel – Palestina a realidade não poderia ser outra.


Nessa semana, como fartamente divulgado pela imprensa, o grupo palestino que controla a Faixa de Gaza, o Hamas, encerrou o cessar – fogo celebrado com Israel, promovendo um ataque contra território Israelense. Saldo do ataque, segundo fontes do próprio governo israelense: 1 morto.


A “resposta” de Israel foi imediata, lançando uma ofensiva contra a Faixa de Gaza e mesmo preparando uma invasão. Saldo dessa operação israelense até o momento: 296 mortos, sendo 180 militantes do Hamas e 116 civis inocentes, entre mulheres e crianças.


Segundo a Ministra do Exterior de Israel, candidata à cadeira de Premiê, o número de palestinos mortos seria até baixo.


Não há sequer necessidade de comentar a situação, a desproporção do ataque de Israel e o caráter terrorista do mesmo. Nem mesmo precisamos lembrar que trata-se de uma operação genocida, uma verdadeira “limpeza étnica”.


Não bastasse uma operação de tamanha envergadura e que faz tantas vítimas, a própria política de Israel para a região não deixa alternativa de fuga para aqueles que desejam escapar da morte.


A saída dos palestinos para o Egito está fechada, inclusive em razão de acordos e mesmo em razão de o Egito não suportar mais o êxodo de refugiados palestinos em seu território. De tal forma, aqueles palestinos desesperados que ainda tentam passar por algum túnel clandestino, ou tentam passar por algum buraco no muro, são recebidos a bala, mortos ou presos e mandados de volta para seu território, para a morte.


Do outro lado, o cerco israelense à Faixa de Gaza é absoluto, não havendo qualquer possibilidade de um palestino deixar a região para fugir do conflito.


A tragédia social ainda se amplifica, pois os inúmeros feridos que conseguiram escapar da morte não encontram socorro adequado. Os hospitais já estão todos lotados. E mesmo aqueles que conseguem um leito se deparam com a completa falta de suprimentos médicos ou alimentação, resultado do longo bloqueio israelense imposto àquele povo há muito.


Como alternativa ao bloqueio, os palestinos ainda contavam com rotas de contrabando de suprimentos, que passavam por onze túneis clandestinos. Todos os onze, já no início da ofensiva, foram destruídos.


Simplesmente não há forma de aqueles palestinos escaparem da brincadeira de tiro ao alvo com mísseis e tanques, praticada por Israel. A eles só resta torcer e rezar, contar com a sorte.


E diante de tal realidade, o máximo de reação da comunidade internacional, representada pelo Conselho de Segurança da ONU, foi se manifestar em defesa de um novo cessar fogo e de novos diálogos de paz. Nenhuma censura à ofensiva militar israelense.


Apesar de toda essa situação, alguém poderia questionar: “mas foi o Hamas que acabou com o cessar fogo, realizando ataques contra Israel, que apenas reagiu”. Não é a realidade.


Durante toda a vigência do cessar fogo, Israel não deixou de realizar incursões militares e ataques contra supostos “alvos terroristas”. Nesse período a média de palestinos mortos por forças israelenses foi superior a dois por dia.


Além desse fator, a promessa de deixar chegar suprimentos à Faixa de Gaza, parte do acordo de cessar fogo, jamais foi cumprida, tendo sido mantido o embargo nos mesmos moldes de antes.


De tal forma, temos que o acordo de cessar fogo jamais foi válido para Israel, mas apenas para o Hamas.


Diante disso conclua-se: quem são os maiores terroristas, os fanáticos militantes do Hamas, ou o sionista Estado de Israel?

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Retomando as atividades

Desde junho de 2007, quando iniciamos a construção deste espaço, algumas mudanças de rumo foram marcantes.


O Pensamento Crítico foi criado com o objetivo de ser um espaço para a elaboração de idéias e análises críticas da realidade, divulgação de informações relevantes sobre a sociedade sob um olhar crítico.

Em alguns momentos tomamos caminho diverso, focando a produção em sentimentos, emoções e tantos outros temas, ainda que importantes, que estavam em outra ordem.


Após esse período de busca de uma identidade real e concreta deste espaço, foi cumprindo seu objetivo original que o Pensamento Crítico se consolidou.


Não é exagerada pretensão dizer que o Pensamento Crítico tornou-se, por algum tempo, algo muito maior do que o pretendido.


Em início, a idéia era construir um “armazém de idéias”, também como um espaço para disponibilizar para amigos e conhecidos um pouco de uma compreensão de mundo, não disponível nos meios de comunicação de massas.


Entretanto, após algum tempo e com um pouco de trabalho, chegamos a ter picos de mais de 400 leitores em um único dia, tendo uma média superior aos 100 leitores/dia. Foi algo surpreendente e gratificante.

Infelizmente, por diversas dificuldades que a vida nos traz, manter um espaço com uma produção diária, com tantos projetos em andamento, tentando dar-lhe alguma qualidade, nem sempre é possível. E nesses momentos o desânimo torna difícil até mesmo manter o possível.


Com isso muitos projetos que estavam em andamento ficaram inacabados, como o histórico das FARC, a análise sobre o julgamento de Simon Trinidad, o acompanhamento do desenvolvimento das transformações sociais na America Latina, dentre outros. Ficaram inacabados, mas não esquecidos.


Ao final deste ano de 2008, período extremamente positivo em termos pessoais, reaparece a necessidade de contribuir com as lutas e as necessárias análises sobre a realidade, ainda que modestas, necessárias neste vácuo de vozes populares que enfrentamos mundo afora.


Fruto deste sentimento de necessidade, informamos aos amigos, que fizemos durante todo esse tempo, que o Pensamento Crítico está retomando, gradualmente, seu regular funcionamento, onde tentaremos atualizá-lo diariamente, com temas importantes e análises críticas acerca da realidade.


O Pensamento Crítico está de volta e espera contar com a habitual colaboração e contribuição de todos os que nos acompanharam, como também de todos aqueles que esperamos conquistar daqui pra frente.


Muito obrigado a todos!


terça-feira, 8 de abril de 2008

O telhado de vidro do PSDB

Estamos vivendo a segunda grande crise de denúncias contra o governo Lula, contra o PT. No entanto, assim como o primeiro, esse parece que não provocará nem arranhões ao governo, com o agravante de que agora pode provocar problemas justamente à oposição, que na pessoa do Senador Álvaro Dias, também conhecido por outros nomes na noite paranaense, parece ser o responsável pelo vazamento dos dados sobre gastos com cartões corporativos do governo FHC.

Diante dessa realidade em que o governo Lula parece quase inabalável, surgem inúmeras teses apresentadas na imprensa, sobretudo na imprensa paranóica (sentido psicanalítico do termo – falsa representação da realidade).

São cientistas políticos falando sobre o carisma de Lula, são revistas falando em manipulação da informação e da mídia pelo dinheiro, são órgãos da mídia falando em compra de apoio com programas assistenciais, dentre tantos outros argumentos que jamais atacam o centro da questão.

Diante dessa realidade, cabe apontarmos certas contradições internas do discurso apresentado, que reflete o grande dilema do discurso oposicionista que não pode atacar o centro das políticas do governo Lula.

Ao observar o discurso de que o governo estaria “comprando” apoio popular com os programas sociais, notadamente o “Bolsa Família”, verificamos que os veículos de imprensa que fazem tal acusação são os mesmos que apontam como real “criador” de tal programa o ex-presidente Fernando Henrique, o governo do PSDB. Torna-se necessário, portanto, questionar a razão de agora, o mesmo programa que tais veículos apontam como manipulador, não o ser antes, nem mesmo tendo servido para garantir a eleição do candidato de FHC na eleição presidencial de 2002.

Quando vemos referências e acusações sobre uma suposta manipulação da mídia, torna-se curioso vê-las reproduzidas pela Folha de São Paulo, pela Globo, pelo Estado de São Paulo, enfim, por todos os maiores veículos de comunicação do país. Será que eles estão falando de si próprios? E se estão, como publicam tais acusações sobre si?

Se a verdade não é verossímil por esses caminhos, devemos procurá-la por outros.

Durante o governo FHC as acusações corriam por outros caminhos muito mais sólidos.

Eram as privatizações a preço irrisório, as doações de recursos públicos aos bancos, a política econômica a privilegiar apenas o capital especulativo, os privilégios aos grandes grupos econômicos em detrimento do povo, a política contra a reforma agrária, dentre tantos outros pontos.

Se observarmos de forma mais detida, verificamos que na essência, a realidade do período PSDB e do período PT não se diferenciam em muito, com apenas algumas particularidades de estilo e agraciamento em maior ou menor grau aos componentes diversos daquilo que podemos definir como elite econômica, ou grupos de exercício do poder real.

A política econômica, elemento central da política de um país, determinante de todos os demais elementos políticos, continua basicamente a mesma, apenas com a mudança de alguns atores e diferenças de estilo de condução.

O desmonte da máquina pública não parou, apenas foi freado diante da constatação óbvia de que o ritmo antes imposto, já estava por prejudicar mesmo os setores econômicos interessados em seu fim, o que provocava prejuízos com gargalos de infra-estrutura, falta de capacidade de substituição privada em setores nos quais o Estado deixava de atuar, até mesmo por falta de pessoal, dentre outros. E não podemos esquecer que ponto fundamental era a grande insatisfação popular ocasionada pela velocidade do desmonte do Estado, o que já gerava grande pressão popular por mudanças, elemento que causava terror aos exercentes deste poder real.

Observe-se que o caminho trilhado pelo governo Lula não é de recomposição dos serviços públicos, mas apenas uma recuperação parcial a garantir uma sustentabilidade mínima. Também os salários e as condições de trabalho do funcionalismo, mesmo naquilo essencial para o exercício das funções, continuam sendo deixados de lado, tendo as reivindicações sobre tais temas até mesmo demonizadas. Mesmo as recentes contratações de funcionários, se bem observarmos, não recompõe nem mesmo os profissionais que deixaram o serviço público nos últimos 10 anos.

Podemos dizer que na verdade, o papel que cumpre o atual governo, é apenas o de correção de rumos, de consertar e corrigir os erros cometidos por seu antecessor, mas sem mudar o rumo, em um milímetro sequer. Não à toa, dos tão falados cargos de livre nomeação do governo federal, quase um quarto continua ocupado pelos mesmos nomeados nos tempos do governo FHC, além de termos em todos os escalões, inclusive ministérios, presidência do Banco Central, aqueles que já exerceram tais funções sob Fernando Henrique, ou faziam parte de seu grupo.

Assim vemos que a disputa entre governo e PSDB é apenas a disputa pelo direito de ser o executor da mesma política, a disputa para decidir quem é o melhor executor de uma política que parece ditada por alguma entidade superior, orientadora de ambos, como um patrão presente e tradicionalista.

É isso que nos leva à discussão sobre autorias de dossiês, acusações sobre cartões corporativos, infindáveis acusações mútuas, que nada representam nas questões de fundo dos rumos do Brasil. E é por isso que não vemos a discussão sobre a validade das parcerias público-privadas, terceirizações, política de desenvolvimento, distribuição de renda, ou qualquer outra política que realmente possa impactar positivamente nas condições de vida da população brasileira.

O PT elabora um dossiê, o PSDB divulga o documento para se dizer vítima e desgastar os agentes do atual governo, um Senador histérico e fanático por holofotes se apresenta à cena, a gritaria reina ao mesmo tempo em que temos a certeza de que nada muda.

O povo brasileiro precisa, urgentemente, construir uma verdadeira oposição política à nossa situação, à nossa realidade atual. Ou isso, ou mais do mesmo, até não mais podermos recuperar nosso país e construirmos um Brasil dos brasileiros.

sábado, 29 de março de 2008

Curitiba 315 anos: o que comemorar?

Ontem, minha querida e amada Curitiba completou seus 315 anos.

Eu passei apressado pelo local da comemoração oficial, desviando da fila que aguardava por um pedaço de bolo, observando, apesar da pressa, os detalhes daquela cena.

A partir da cena do ato oficial de comemoração, fiquei pensando sobre o que comemorar nessa data.

Nas filas gigantescas, à espera de um pedaço de bolo, eu vi pessoas de razoável aparência, com vestimentas razoáveis, feições não muito sofridas. Mas ao redor da fila, vi mães maltrapilhas, estampando o cansaço e o sofrimento nas faces, enquanto seguravam seus filhos de colo nos braços, numa cena desoladora. Ao redor, crianças com roupas sujas e rasgadas, olhando para tudo com um ar de perplexidade. Traço comum e marcante naquelas mães e crianças, era o olhar faminto com que fitavam os pedaços de bolo nas mãos dos outros.

Não sei se por ato de alguma autoridade, ou se apenas por um sentimento de exclusão provocado pela presença de autoridades e “gente tão fina”, mas eles simplesmente não tomaram parte na festa, não tendo direito sequer a um pedaço daquele bolo. Talvez depois que os outros comeram tudo o que queriam, tenha sobrado algo para esses curitibanos de “segunda classe”.

Nas extremidades da praça, sede da primeira universidade do país, alguns carrinheiros, apoiados em seu instrumento de trabalho, olhavam para a cena como se a não compreendessem. E realmente, acredito, não a compreendiam.

Nas escadarias da universidade, cercada por equipamentos de iluminação e de som, além de tendas, um coral de crianças entoava algumas músicas que eu jamais tinha ouvido. E ao mesmo tempo, um locutor com um som muitas vezes mais potente que o das crianças, anunciava que eram alunos de escolas municipais, ao mesmo tempo em que anunciava os 315 “gloriosos” anos dessa cidade.

As crianças, apesar das músicas que eu jamais ouvira, até que cantavam bem. Mas ninguém estava a lhes dar a mínima atenção.

O que pude notar, é que para aqueles carrinheiros, para aquelas mães pobres, para aquelas crianças que nem sabiam que podiam comer o bolo, não havia o que comemorar. Aquelas crianças correndo, apesar da vontade de comer, apenas não procuravam seu pedaço de bolo, pelo hábito de não terem direito a nada, de saberem que pedir algo para comer era um ato reprovável.

E aquelas crianças que cantavam. Elas estavam ali apenas para simbolizar a participação do povo da periferia. E o fizeram muito bem, pois por mais que cantassem, ninguém lhes dava atenção, assim como fazem com o seu povo, que por mais que gritem, não são ouvidos efetivamente por ninguém.

O que estavam a comemorar? Será que comemoravam o fato de os moradores da Vila Audi terem conseguido preparar sua sopa de papelão por mais essa noite? Ou estavam a festejar o povo das moradias Barigüi que esperam por uma creche? Ou seria a falta de escola no Tatuquara?

Seria talvez a comemoração dos trabalhadores da empresa municipal de urbanização, por seus salários próximos ao mínimo, enquanto assistem alguns de seus chefes receberem até 16 mil mensais para gastarem seu horário de trabalho no salão de beleza? Ou seriam os 45 concursados da companhia de desenvolvimento, por seus mais de 200 chefes comissionados com altos salários?

Talvez fosse a comemoração daquele assessor do meu prefeito do PSDB comemorando o salário de sua sogra, funcionária fantasma da Assembléia Legislativa, cujos rendimentos somaram mais de 500 mil reais, que ele prometeu repor, com um dinheiro que poucos sabem, mas sairá dos cofres públicos também.

Será que naquela praça estava Dalton Trevisan, para tão melhor mal dizer aquela festa da hipocrisia?

Talvez fosse o prefeito a comemorar o fim do circuito de bares alternativos, dos ambientes culturais populares, do boteco de meia dose, ao tempo em que florescem os recantos da elite, da juventude alienada.

Não sei ao certo. Mas sei que, diante da visível miséria de meu povo, do massacre contra a cultura de minha cidade, da repressão às expressões populares, da falta de comida na mesa de meus irmãos, do superfaturamento de obras, das profundas desigualdades sociais e dos meus irmãos que ocupam ares irregulares apenas esperando quando a guarda municipal irá despejá-los com o uso das armas, pouco ou nada pude comemorar.

O que comemoravam eles então?

segunda-feira, 24 de março de 2008

As FARC política e as políticas das FARC – parte II

Como movimento de resistência, as FARC já traziam em sua origem o acúmulo de experiência da antiga resistência popular com participação liberal, que alcançou não apenas seu objetivo inicial de garantir a vida, mas também algumas conquistas, ainda que pontuais e transitórias, inimagináveis antes de tal movimentação.

Diante desse quadro, as FARC-EP, em sua formação extremamente plural, pôde analisar aspectos mais amplos para traçar objetivos não apenas táticos, mas estratégicos para a guerrilha, que agora não se via isolada em apenas uma região do país, num movimento defensivo. Essa nova organização, agora presente em todo o território nacional, contando com todo um leque de experiências da antiga resistência armada, que se somava às experiências de lutas de diversos movimentos sociais cujos líderes acabaram por se integrar à guerrilha, mais a experiência de atuação e organização política dos comunistas, agora podia vislumbrar a possibilidade de uma tomada popular do poder.

Tal realidade provocou extrema preocupação à elite dirigente do país, que viu-se, pela primeira vez na história, acuada pelas possibilidades de um amplo movimento popular que rompia com o monopólio da violência. E a guerrilha também provocou extrema preocupação aos Estados Unidos, que acabara de ver um movimento popular em armas tomar o poder em Cuba, ao lado de seu território.

A plena vigência da guerra fria, o recente êxito da revolução cubana, aliado ao extremo desespero das classes populares colombianas que agora se transformava, com a mesma intensidade, em esperança, acabou por jogar uma responsabilidade de grande monta sobre as FARC e seus dirigentes políticos, que se viram na posição central do conflito de classes e de interesses na Colômbia. Tal responsabilidade acabou por obrigar as FARC a buscar um intenso processo de elaboração política e formação de quadros, além da formação cultural e política intensa de todos os seus integrantes.

No entanto, a forte reação de extrema violência do Estado colombiano, dos paramilitares, dos traficantes que começavam a ganhar cada vez mais poder, agora somados à ação direta de tropas estadunidenses, levou as FARC a enfrentar novos desafios.

No aspecto militar, o desafio das FARC era o enfrentamento de um inimigo que a cada dia ganhava em força e ampliava a brutalidade de suas ações, não apenas contra a guerrilha, mas também contra as populações civis pobres, tidas como inimigos centrais desde sempre pela oligarquia colombiana. Além desse aspecto, a questão de domínio territorial mínimo se tornava um desafio, vez que se tornava imperativo para o desenvolvimento da luta uma ação de fincasse raízes políticas junto às populações nas áreas mais abrangestes possíveis, o que de certa forma restringia a tradicional forma de atuação extremamente móvel dos movimentos guerrilheiros.

Ao mesmo tempo, com a intensificação da ação terrorista do Estado e das forças para-estatais, a guerrilha via-se obrigada a lidar com um problema inusitado, que era a crescente procura de populares por integrar-se à guerrilha, após verem seus familiares e amigos assassinados pelo Estado, pelos traficantes, por forças estrangeiras, ou simplesmente serem desterrados pela “reforma agrárias às avessas”.

Nesse caso, o desafio era tanto o de garantir treinamento militar adequado aos novos integrantes, para não tornarem-se alvos fáceis para o inimigo, como também o de garantir a firmeza ideológica e moral do movimento, para não permitir desvirtuamentos ou problemas que afetassem negativamente o convívio entre os militantes, ou com as populações civis com as quais conviviam.

Nesse sentido, a guerrilha acaba por organizar-se numa estrutura militar hierarquizada, que no tocante ao cotidiano da luta armada acaba por adotar uma linha de rígida disciplina. No entanto, como uma organização eminentemente política e popular, acaba por construir uma estrutura política altamente participativa e democrática, na qual o auge acabou por ser as Conferências, realizadas de forma periódica e alcançando a participação de cada um dos membros da organização.

Ainda restava a ação política da organização fora das fronteiras das regiões de embates militares, que não deveria acontecer apenas pela atuação política do Partido Comunista. E assim as FARC passam a diversificar suas formas de atuação, inclusive mantendo dirigentes populares que buscava a guerrilha em suas lutas populares originais, ou mesmo buscando o intercâmbio com organizações populares e até deslocando muitos de seus militantes.

Com o desenvolvimento da luta, tanto no campo político quanto militar, torna-se cada vez mais necessário o desenvolvimento político da guerrilha, que agora já contava com quadros preparados, nos mais diversos níveis e nas mais diversas regiões do país. E assim a elaboração de políticas públicas da organização, além do desenvolvimento teórico e prático, em termos políticos, organizacionais e culturais, ganha cada vez mais destaque.

Nesse momento, a atuação da guerrilha ganha destaque, passando, apesar da forte atuação militar do estado, dos paras e dos EUA, a controlar grandes regiões do país, tendo sob seu controle, ainda que precário, inteiras cidades, onde torna-se necessário o desenvolvimento de políticas públicas.

Ao lado disso, as proporções numéricas da organização, a presença de famílias inteiras sob a organização da guerrilha, também leva à necessidade de uma infinidade de serviços, organização, questões que vão desde a educação e garantia de saúde, até os elementos mais básicos de sobrevivência, no que as FARC vão se tornando uma organização cada vez mais complexa.

Com as crescentes necessidades ao longo do tempo, além do papel quase que substitutivo do Estado em inteiras regiões, as FARC acabam por ver-se obrigadas a partir para a execução de tarefas anteriormente não previstas para o decorrer da luta, incluindo elementos que vão desde a cobrança de tributos, até a prestação de serviços básicos às populações.

Nesse período, o amadurecimento político constante da guerrilha e dos demais movimentos populares, além do próprio Partido Comunista, levam a luta a uma intensificação cada vez maior de seu papel político, que vai das lutas pontuais e conjunturais dos trabalhadores, inclusive em questões meramente econômicas, até lutas institucionais e mesmo a amplificação das relações internacionais.

No que se refere às relações internacionais, no entanto, a guerrilha passa a enfrentar seu maior desafio, visto a criminalização da organização pelos veículos de comunicação, através de um discurso unilateral do governo colombiano e dos EUA, que as vinculava aos cartéis de tráfico de drogas, que na verdade sempre combateram as FARC ao lado de soldados estadunidenses e colombianos. Entretanto, em diversos momentos, tal discurso perdeu força, com a vinda à tona de diversas vinculações dos chefes do tráfico de drogas com os governantes e com o Estado colombiano, o mesmo que combatia as FARC. Destaca-se, nesse aspecto, a forte ascendência e a alternância no poder dos dois maiores cartéis de drogas do país, o Cartel de Calli e o Cartel de Medellín.

Com o crescimento constante da guerrilha, as perspectivas de sucesso da luta tornam-se cada vez mais claras. No entanto, torna-se também clara a necessidade da vitória no campo político, visto não ser possível estabelecer uma vitória real, naquela conjuntura, apenas através das armas, ainda que sustentados por um amplo movimento popular com a participação direta e massiva das FARC. Ao mesmo tempo, a elite colombiana faz leituras diversas acerca da crescente disposição e pressão das FARC para garantir-se da transposição da luta armada para uma luta eminentemente política. Tais leituras vão desde uma análise de enfraquecimento da guerrilha, que já não ofereceria riscos reais no campo político, razão pela qual se deveria permitir sua institucionalização, até a análise de que seria mais fácil combatê-los, inclusive no campo militar, se eles estivessem atuando de forma aberta e institucionalizada.
(continua ...)

sábado, 22 de março de 2008

Um lacaio em busca de legitimação

Uribe segue a receita de confronto de Bush



Nada como um dia depois do outro: a reunião do Grupo do Rio, ocorrida na República Dominicana, em 07 de março, afastou o risco de guerra e evitou a ampliação de uma crise na América Latina, desencadeada pela violação das fronteiras do Equador por tropas colombianas em uma operação que resultou no massacre de um grupo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e a morte de seu interlocutor internacional, o comandante Raul Reyes. A Organização dos Estados Americanos já havia condenado, dois dias antes, a agressão ao Equador, considerada “um desrespeito às leis internacionais”. Solidificam-se, desta forma, os governos do Equador e da Venezuela, cujos processos de desenvolvimento com justiça social e ampla participação da população vem ocorrendo nestes dois países, assim como a Bolívia.

Uribe isolou-se: além da maior parte dos veículos de imprensa burguesa, o presidente colombiano só encontrou guarida na Casa Branca. Até mesmo o presidente do México, Felipe Calderón (eleito em um
processo evidentemente fraudulento, e que só conseguiu assumir a presidência por pressão do departamento de Estado dos EUA) condenou a ação colombiana.

Mas o que quer Uribe? A guerra. Sua resistência à abertura de diálogo com as FARC na Colômbia pode trazer como resultado a internacionalização do conflito. Uribe se tornou um fator de instabilidade na América Latina, ao manter a política de confronto. Para manter seu projeto de poder – submisso, diga-se com todas as letras a verdade, aos EUA – Uribe não pode recuar desta estratégia pois ele se legitimou politicamente como o homem que resolveria a guerra civil. E, sem guerra civil, não haveria como justificar a presença militar norte-americana na Colômbia, a manutenção da censura à imprensa, a exclusão social e o poder das oligarquias colombianas. Tampouco haveria condições políticas para Uribe pleitear um terceiro mandato, já mencionado, no Congresso, no bojo de um processo de discussão,
em curso, sobre a possibilidade de reformar-se a Constituição do país.

A iniciativa das FARC de liberar reféns unilateralmente vai contra este projeto, num claro e pacífico aceno ao diálogo institucional. Quem não quer esse diálogo? Quem fez de tudo para que a operação de soltura dos reféns terminasse em fracasso? Quem dificulta as condições para a libertação de Ingrid Bettancourt, que, uma vez solta, poderia se candidatar à presidência da Colômbia com índices elevados de popularidade? A resposta é simples e direta: Uribe, representante das oligarquias e dos interesses
dos EUA.

A agressão ao Equador e às FARC foi uma clara provocação contra o intercâmbio humanitário e contra a possibilidade de paz na região. Uribe agrediu, num só ato, as FARC, o Equador e a Venezuela. Agrediu toda a América Latina, todos os que lutam por paz e justiça social.

A resposta dos povos

Mas não se consegue enganar a muitos por muito tempo: no ultimo dia 06 de março, milhares de pessoas se manifestaram em homenagem às vítimas dos crimes de Estado que imperam na Colômbia e contra a invasão do Equador por tropas deste país. As ruas de Bogotá estavam repletas. Estes milhares de manifestantes disseram claramente que desejam a paz. Desejam a inversão de um quadro de extrema violência que se instalou na Colômbia.

Entre 1982 e 2005, milhões de pessoas foram deslocadas de suas casas e de suas cidades pelo exército colombiano e pelas milícias de direita que o apóiam. Há milhares de colombianos desaparecidos, entre os quais se incluem índios, sindicalistas, parlamentares de esquerda, membros da União Patriótica. Muitos foram torturados antes de morrer. Recentemente, foi assassinado, em território venezuelano, um dirigente
da Juventude Comunista da Colômbia, a JUCO.

Há que relembrar-se que, neste período, mais de 6 milhões de hectares foram tomados dos camponeses. Muitos grupos armados de direita mantiveram-se ativos mesmo depois de sua desmobilização oficial, em 2002 (chamam-se, agora, “águias negras”). Muitos representantes destes grupos estão em cargos públicos.

A população colombiana e internacional desconhecia estes fatos até recentemente, dada a forte censura à
imprensa exercida pelo governo sobre os meios de comunicação daquele país. Mas o tiro de Uribe saiu pela culatra: a mobilização popular e a movimentação dos governos progressistas da América Latina vão isolar cada vez mais o regime fascista colombiano, abrindo caminho para a paz, o diálogo e o desenvolvimento com justiça social na Colômbia.

sábado, 15 de março de 2008

As FARC política e as políticas das FARC – parte I

Nos últimos tempos, sobretudo em razão de trágicos acontecimentos, muito se tem falado a respeito do conflito colombiano e das FARC. Entretanto, interessante aspecto dessa abordagem é a mais completa ausência de uma análise histórica, ou mesmo de assimilação dos conceitos e percepções de origem popular sobre o tema. De tal forma, cumpre dar alguma contribuição, ainda que bastante rasa, tendo em vista a profundidade que o tema exige.

É comum, aos detratores da guerrilha colombiana, apontá-las como um grupo terrorista, criminoso, essencialmente militarista e completamente desvinculado do povo ou das lutas populares. E isso é um erro que só se sustenta em razão dessa completa falta de abordagem histórica da guerrilha.

Outra acusação comum é oriunda de setores ditos democráticos, de que as FARC, ou seriam criminosas e terroristas, ou de que se perderam em razão de sua limitação ao militarismo em essência, tendo que seu objetivo teria se transformado em apenas manter sua própria estrutura.

Poderíamos questionar tais teses a partir da análise das fontes de dados e informações que as sustentam. Podemos apontar que tais elementos são assim postos fora da Colômbia, ou nos grandes centros urbanos de predominância de uma classe média típica, que representa menos de 20% da população do país. E poderíamos apontar que as fontes de tais versões são plenamente identificáveis, basicamente em dois grandes veículos de informação, a Revista Semana, crítica aberta de todos os movimentos populares colombianos e do jornal El Tiempo, sob controle econômico de Francisco Santos, vice-presidente colombiano. Entretanto, deixaremos isso para um segundo plano, pois que a simples verificação da realidade histórica já nos basta à análise.

Sobre a essencialidade puramente militar da guerrilha, cabe lembrar sua origem, seu nascimento, na região de Marquetélia, há 44 anos atrás.

Desde 1946, sob o governo de Mariano Ospina Pérez, a Colômbia viveu sob um regime de puro terror, com os massacres cotidianos de trabalhadores e camponeses, de todos os militantes liberais e comunistas. Foi um tempo em que qualquer voz que denunciasse os crimes era calada definitivamente, como foi o caso de Jorge Eliecer Gaitán, o mais célebre combatente contra a política terrorista de então, brutalmente assassinado pelo regime.

Nesse período, dominado fundamentalmente pela ingerência de grupos econômicos privados estrangeiros nas áreas urbanas, enquanto dominavam os grupos de grandes latifundiários conservadores na área rural, foi marcante para toda a história posterior da Colômbia.

O domínio pleno, sem lei, de grandes latifundiários conservadores na zona rural, levou não apenas à violência habitual em situações de mesmo tipo, mas também à trágica experiência da “reforma agrária às avessas”, em que os pequenos proprietários e camponeses eram expulsos de suas terras à força, ou em caso de resistência eram assassinados com toda a família, tendo suas terras anexadas às grandes propriedades de então.

Foi nesse cenário que se formou uma aliança inusitada, fruto da necessidade urgente, do desespero popular, entre os comunistas e os liberais, para organizar a resistência popular, em defesa da vida desses camponeses e de suas pequenas propriedades de que necessitavam para a sobrevivência.

Tal aliança, evidentemente, teve grande força, conquistando inúmeras vitórias populares para a época, que hoje, no mundo dito democrático se diriam fundamentais. Mas as possibilidades de tal movimento estavam muito além dessas pequenas conquistas. Porém conquistas maiores não eram interessantes nem mesmo aos liberais.

Em 1953, com um golpe de Estado que levou Gustavo Rojas Pinilla ao poder, surge a promessa de pacificação do país, com a garantia de anistia, oportunamente aproveitada pelos líderes liberais de então. No entanto, grande parte dos liberais não aceitaram participar desse movimento, mesmo sem vislumbrar a manutenção da luta por meio das armas. Esse grupo se organiza na região de Marquetália e inicia um processo de desenvolvimento econômico agrário extremamente bem sucedido, com a participação, ainda que minoritária, também dos comunistas.

Em meados da década de 1960, essa experiência da região de Marquetália, que atingia um grau extremamente elevado de desenvolvimento agrário e econômico, em um modelo completamente diverso da tradicional propriedade, torna-se uma ameaça aos interesses dos conservadores e dos líderes liberais, que respondiam diretamente a grandes grupos financeiros, além dos interesses privados estadunidenses na região, garantidos por seu governo.

Nessa situação, volta a intensificar-se a violência paramilitar e militar contra os camponeses da região, só que agora já completamente abandonados pelos liberais, que deixaram os camponeses a eles ligados completamente abandonados.

Na rabeira da intensificação da violência, viu-se também a volta da política sistemática de “reforma agrária às avessas”, com o êxodo forçado de milhares de camponeses da região. Só que agora, como resultado da experiência de resistência anterior, os ataques aos camponeses deixam de ser tão fáceis.

Diante do completo abandono dos liberais à causa, são os comunistas que tomam a frente da resistência, tendo Marulanda, antigo líder camponês liberal, agora já nas fileiras do Partido Comunista, organizando, junto com outros 47 líderes camponeses, a resistência à violência estatal e paraestatal.

Tendo a resistência organizada, torna-se imperativo para os interesses dos conservadores, dos liberais e dos estadunidenses, o completo extermínio da mesma, no que em 1964 organizam uma missão de 16 mil soldados, bombardeios e todo tipo de forças paramilitares, com o único objetivo de exterminar os 48 líderes camponeses da região.

Nesse episódio de 1964, a resistência, ainda que sem uma vitória territorial clara, obtém uma significativa vitória ao frustrar, por absoluto, o objetivo do ataque, que era o extermínio da resistência. E o fizeram, dentre outras coisas, pelo levante em armas, na forma de guerrilha rural, que acabou por iniciar a vida e a história das FARC-EP, movimento que acabou por se espalhar por todo o território colombiano, sob sustentação dos comunistas, com a adesão de camponeses e trabalhadores de todo o país, vítimas do terrorismo de Estado e dos paramilitares, tendo adotado sua forma de organização e seu nome após a reunião de todas as frentes guerrilheiras, também na região de Marquetália.

Tal origem das FARC, sua forma de organização, de nascimento, aliada à sua composição popular, de pronto impedem qualquer possibilidade de entendê-la como organização essencialmente militar, pois é popular em sua raiz, em seu nascedouro, em sua formação real.

(continua...)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Marcha pela paz na Colômbia - Bogotá

La Jornada / Tradução Naila Freitas - Agência Carta Maior


CONTRA A VIOLÊNCIA DE ESTADO


Mais de 200 mil marcham contra Uribe na Colômbia




Jorge Enrique Botero - La Jornada


Em repudio às matanças perpetradas pelos paramilitares, milhares de colombianos protestaram contra o governo de Álvaro Uribe. Multidão chamou presidente de "lacaio imperialista". Jovens enfrentaram a polícia no fim do protesto. Pelo menos dez ficaram feridos.
BOGOTÁ - Como um rio furioso cujas águas tivessem estado represadas por anos, a maior multidão vista nos últimos tempos saiu às ruas de 21 cidades colombianas, no dia 6 de maço, para render tributo às vítimas dos paramilitares e de crimes de Estado.

Nesta capital, pelo menos 200 mil pessoas caminharam pela central Carrera Séptima rumo à Praça de Bolívar, que ficou cheia pelo menos três vezes ao longo de quase cinco horas, durante as quais os manifestantes lançaram duras críticas ao governo do presidente Álvaro Uribe.

As marchas que tinham sido qualificadas por altos funcionários governamentais como “de apoio à guerrilha”, foram uma verdadeira avalanche humana em que a maioria dos manifestantes acusou Uribe de ser aliado dos grupos paramilitares de extrema direita.

“Vamos à rua, derrubar o governo paramilitar”, gritavam centenas de estudantes da Universidade Nacional, enquanto milhares de trabalhadores de empresas estatais acusavam o mandatário colombiano de “fascista, lacaio imperialista”.

Organizadas pelo Movimento Nacional de Vítimas dos Crimes de Estado, as marchas tomaram um rumo inesperado quando os participantes se pronunciaram sobre os mais recentes acontecimentos políticos, incluída a crise diplomática com o Equador e a Venezuela. Inclusive, numerosos manifestantes marcharam ao grito de “Chávez sim, Uribe não”, no meio dos aplausos do grande público que se lotava cada lado da principal avenida da capital colombiana.

Jaime Caicedo, vereador de Bogotá pelo Pólo Democrático (esquerda) disse para La Jornada que a massiva mobilização era uma contundente resposta à idéia vendida pela mídia de que Uribe conta com o apoio majoritário dos colombianos. “Parece que os pesquisadores nunca perguntaram a opinião destas centenas de milhares de colombianos”, ironizou.

No cair da tarde, quando a manifestação na Praça de Bolívar já estava se dissolvendo, centenas de jovens tiveram um enfrentamento com a polícia, que literalmente tinha ocupado o centro da cidade. Os fatos derivaram para uma verdadeira batalha campal que deixou um saldo de pelo menos 10 feridos, vultosos danos em locais bancários e comerciais, e um número indeterminado de detidos.

Um dos organizadores da homenagem às vítimas, Iván Cepeda, filho do senador comunista Manuel Cepeda, assassinado em 1992, confessou para este correspondente que a magnitude da marcha superou suas expectativas e explicou que participaram, além de órfãos e viuvas, milhares de camponeses expulsos de suas terras pelas ações dos grupos paramilitares.

De acordo com cifras de organismos especializados, mais de quatro milhões de pessoas foram vítimas do êxodo forçado após centenas de massacres perpetrados pelos paramilitares. Atualmente, mais de 60 congressistas que apoiaram a eleição de Uribe estão presos ou são investigados por seus vínculos com os esquadrões da morte.

Cepeda acrescentou que também houve homenagens às vítimas dos paramilitares e dos crimes de estado em 150 cidades dos cinco continentes.

La Jornada entrevistou, também, um grupo de jovens associados ao movimento “Filhos e Filhas”. Alejandra Gaviria, cujo pai foi assassinado no início dos anos 80 na cidade de Medellín, disse que não permitirá que este crime seja esquecido. Explicou que até agora o assassinato de seu pai está impune. “Por isso, um dos nossos lemas é: nem perdão nem esquecimento, castigo para os assassinos”.

Também foram destaque nas marchas a grande quantidade de coloridas expressões culturais: pequenas representações da violência, música e dança.

domingo, 9 de março de 2008

“Seria o narcotráfico tão pouco rentável?” – as contradições da mídia sobre a Colômbia

Os últimos acontecimentos na Colômbia, o tratamento dado pela imprensa de massas e as acusações feitas por Uribe e seus porta-vozes na mídia, despertam a pergunta: “seria o narcotráfico tão pouco, ou nada rentável assim?”.

Não fosse o fato de Uribe, conhecido no Cartel de Medelin, do qual sempre foi membro, juntamente com sua família, ter feito fortuna com o tráfico, a resposta aparente para essa pergunta seria um “sim”.

As acusações da “Grande Mídia” e dos poderosos colombianos contra as FARC, são do envolvimento e comando da guerrilha sobre o negócio do narcotráfico internacional, negócio que fatura bilhões todos os anos.

Reconhecidamente, a Colômbia é o maior produtor mundial de cocaína, responsável pelo abastecimento do mercado estadunidense e europeu, visto que quase a totalidade da produção da Bolívia é legalizada e destinada ao abastecimento da indústria de bebidas (Coca-Cola e Pepsi), além da indústria farmacêutica mundial.

Estima-se, nos Estados Unidos, que o negócio das drogas, com destaque absoluto para a cocaína, esteja entre os 50 maiores negócios do mundo, em termo de movimentação financeira.

Todos esses fatores, por si só, levam a imaginar que, em se acreditando nas acusações que a “Grande Mídia”, Uribe e sua turma fazem às FARC, a guerrilha seja uma grande potência econômica, com os cofres forrados de dólares e seus líderes acumulando um patrimônio incalculável.

Como paradigma dessa análise, podemos tomar o caso de Abadia, mega-traficante colombiano preso no Brasil, cuja fortuna calculada ultrapassa o limite do imaginável, tendo o patrimônio formado por toda sorte de negócios e bens possíveis, além de sua fantástica capacidade que chegava ao ponto de construir submarinos próprios para o transporte de drogas.

Entretanto, na contramão de tais acusações contra as FARC, temos os fatos apresentados, a realidade que teima em aparecer, mesmo nos discursos oficiais daqueles que fazem as acusações.

Raúl Reyes, apontado como o número 2 das FARC, foi assassinado em um acampamento improvisado em meio à selva, sem quaisquer itens de conforto ou luxo. Tratava-se do segundo na linha de comando em uma organização cujos detratores apontam como proprietária do negócio multimilionário.

Onde estará a fortuna acumulada com o negócio das drogas? Por que o homem que comandava o negócio tão rentável estaria vivendo em condições precárias em meio à selva? Onde teria ido parar os tantos itens de riqueza que os acusadores sempre apontaram?

Pode algum defensor do regime narco-fascista reinante no país apontar que estaria Reyes em tal situação apenas em razão de sua necessidade de se esconder do governo. Entretanto, em nenhum caso conhecido na história, a necessidade de se esconder impediu que os criminosos usufruíssem da fortuna amealhada na prática criminosa, pelo contrário, lembre-se da ostentação de Pablo Escobar, ou mesmo do caso daquele que tomamos como paradigma, Abadia, que permaneceu levando sua vida de milionário na Colômbia até o momento em que sua popularidade entre os demais chefes criminosos caiu.

Mas o caso não se encerra aí.

As FARC ficaram famosas em todo o mundo justamente pelo fato de jamais esconderem os rostos, por falarem abertamente de seus métodos, de suas formas de luta e suas formas de manutenção. Sempre falaram abertamente sobre a cobrança de impostos sobre grandes fortunas, como também da sanção de reclusão aplicada aos sonegadores. A esse último, a imprensa aponta como sendo seqüestros. Assim sendo, qual problema teria as FARC em assumir a prática do narcotráfico caso o praticasse?

E o caso de Reyes acrescenta mais um elemento para a análise: as acusações contra Rafael Correa e Hugo Chávez de sustentarem a guerrilha com vultuosas contribuições.

Ora, se as FARC comandam um negócio que movimenta quantias quase superiores a metade do PIB desses países, que necessidade ou utilidade teria para as FARC contribuições desse tipo?

E note-se que a acusação feita contra os dois presidentes é aquela do caso que ficou conhecido como dos “computadores antimísseis colombianos”, por quão ridícula é a tese de que computadores tenham passado intactos a um ataque com bombas cluster.

Vamos acrescentar ao nosso caso, a acusação de que as FARC, no ano de 2002, teriam contribuído ilegalmente com 4 milhões de reais para a campanha presidencial de Lula. A acusação foi feita por inúmeros órgãos de imprensa do Brasil e estrangeiros, tentando vincular Lula às FARC, as FARC ao narcotráfico, assim podendo conquistar um distanciamento definitivo entre Lula e PT, em relação às FARC.

Pois bem, temos que, segundo as acusações que são feitas pelas mesmas pessoas sempre, as FARC são um grupo de traficantes que não conseguem se manter com o dinheiro do tráfico, que parece ser pouco lucrativo. Assim as FARC precisam de dinheiro vindo de outros países da América Latina, de forma ilegal, para garantir sua manutenção. Ao mesmo tempo, as FARC dispõe de 4 milhões para dar como contribuição para uma campanha eleitoral no exterior, mostrando que tem grande capacidade econômica. E tudo isso acontece enquanto seus dirigentes vivem em acampamentos improvisados, em meio à selva, sem qualquer condição de conforto ou bens próprios.

Se esses elementos não são suficientes, vamos acrescentar as declarações dos prisioneiros das FARC libertados recentemente.

Os prisioneiros fizeram duras críticas às condições em que foram mantidos durante o período de cárcere. Reclamaram, sobretudo, as condições de alojamento e de alimentação, além de cuidados básicos com a saúde.

No entanto, os próprios libertados apontaram que, apesar de suas reclamações, suas condições de alojamento, quando não estavam em deslocamento, eram quase iguais às dos guerrilheiros e dirigentes guerrilheiros, assim como sua alimentação era exatamente a mesma.

Podemos concluir disso, que o negócio do tráfico internacional de drogas é um dos menos rentáveis, com lucratividade inferior a qualquer plantação de batatas, ou coisa que o valha.

Podemos também concluir que os líderes das FARC são um incrível grupo de masoquistas, dedicados a se empenhar na atividade econômica menos rentável e mais reprimida que puderem encontrar. Ou então são masoquistas porque a atividade lhes rende muito, mas eles, por opção própria, preferem viver em condições precárias, talvez para garantir uma boa acumulação de dinheiro e propriedades para o pós morte, pois não usufruem dos recursos em vida.

Um último elemento que podemos acrescentar à nossa análise, é essa nova alegação dos narcos que comandam a política e o Estado colombiano, para tentarem convencer o mundo de que estão enfraquecendo as FARC.

No episódio do assassinato sob encomenda de Ríos, o discurso ensaiado do pistoleiro contratado por 5 milhões, foi de que cometera o crime, a emboscada e traição, por não suportar as condições em que estava, até mesmo com falta de alimentos.

Note-se: um “chefe do tráfico”, juntamente com os seus “capangas”, que “atuariam na prática do tráfico”, atividade que movimenta bilhões ao ano na Colômbia, não dispunham sequer de alimentação adequada e suficiente.

Acredito não precisar apontar mais qualquer argumento, pois a constatação da mentira é óbvia, ululante, exageradamente clara: as acusações que se fazem contra as FARC são falsas, pois são contradições insuperáveis dentro do discurso dos próprios acusadores. Não se precisou aqui recorrer a qualquer argumento trazido pelo campo que defende a guerrilha, mas apenas de seus detratores. Sequer precisaremos lembrar que Uribe foi funcionário dos mais fiéis de Escobar, chefe do cartel de Medelín, o qual, segundo seus assessores mais diretos e até sua noiva, tinha em Uribe um dos mais competentes e fiéis executores das atividades de sua quadrilha. Nem precisaremos lembrar que o primo de Escobar, seu braço direito nos tempos do Cartel, é hoje o Conselheiro Presidencial.

A realidade demonstra, de forma cabal, que além de falsas e mentirosas, as acusações contra as FARC são obra da mais absoluta incompetência, de quem não consegue ser minimamente coerente em suas armações.

As mentiras contadas pelo narco-fascismo, através da imprensa dominad pelo crime e pelos grandes grupos econômicos, não se sustenta diante de seus próprios argumentos. E o mais triste é ver que pessoas ditas de boa fé, ainda compram tais contos da carochinha como suas verdades absolutas.

sábado, 8 de março de 2008

A pistolagem institucionalizada na Colômbia

O crime de pistolagem figura entre os mais repudiados por toda a humanidade nos tempos atuais. Os assassinatos encomendados, executados por pagas em dinheiro, estão entre as condutas mais desaprovadas, em todas as legislações do mundo, como também contam com o repudio de qualquer que se diga minimamente civilizado, até mesmo entre as culturas de povos originários.

A pistolagem institucionalizada teve seu lugar em territórios sem lei, sem um mínimo de civilidade, como no período de colonização dos EUA, ou em sua conhecidíssima corrida do ouro e colonização do meio-oeste. Era conhecida como a época das recompensas, em que os assassinatos eram plenamente aceitos, por meras retribuições pecuniárias, sejam estatais ou privadas.

Com o surgimento e universalização de conceitos de civilidade, como os direitos humanos, a consagração da vida, a condenação dos assassinatos, o repúdio aos justiçamentos, a pistolagem foi alçada ao nível de crime bárbaro, tanto da parte do executor do assassinato, mas principalmente de seu mandante, que além do crime contra a vida, da crueldade, tem o caracter da covardia extremada, de quem, além de criminoso, não tem a coragem de enfrentar sua vítima, fazendo uso de expedientes sorrateiros, que levam à uma espécie de precificação da vida, além de impor à vítima uma situação de impossibilitação absoluta de defesa, pois jamais terá como saber quem será seu algoz, sendo sempre vítima de emboscadas.

Não à toa, todas as legislações penais do mundo, inclusive a da terra das recompensas, condenam de forma mais rígida esse tipo de crime contra os seus cidadãos, tratando como agravante o fato de o crime ser cometido por motivo fútil, além de mais um agravante por ser um crime de emboscada e impossibilitando a defesa à vítima.

Mas nos Estados Terroristas, nos Estados fascistas, a civilidade, os direitos humanos, a vida, são coisas descartáveis, ao gosto dos criminosos que tomaram de assalto o poder.

Assim é a Colômbia dos dias de hoje: um Estado narco-fascista, paramilitarizado, onde o crime e o terrorismo imperam de forma absoluta, como uma política de Estado, já arraigada em suas instituições, apesar do forte repúdio de toda a sociedade.

“A vida humana não tem preço”, diz-se há muito, sobretudo nos tempos pós Revolução Francesa, em que os direitos fundamentais do Homem foram finalmente positivados. E diz-se da vida como algo acima de qualquer outro bem que se possa imaginar.

Quanto vale uma vida então?

Na Colômbia, nos tempos atuais, uma vida pode ser o preço da verdade, como também pode valer algum dinheiro qualquer, que varia de alguns milhares de dólares, até alguns milhões. Essa é a forma pela qual o narco-fascismo trata a vida.

Iván Rios, comandante das FARC, foi a mais recente vítima desse tipo de pistolagem, de crime institucionalizado.

5 milhões seria o preço de sua vida, o preço de uma vida humana.

Arquitetada desde Washington, a política terrorista de Estado da Colômbia é direta em sua execução: oferece dinheiro pelo assassinato daqueles que ousam lutar contra o Estado terrorista. E oferece muito dinheiro, como costumam fazer os mais psicóticos criminosos da história.

Teria sido por dinheiro que um dos discípulos de cristo entregou o símbolo maior da maior religião do mundo, aos seus algozes. E foi por dinheiro que um dos mais bravos lutadores do povo colombiano teve sua vida abreviada, por mais um judas, mais um traidor de seu povo.

O assassino, aplaudido pela psicopatia reinante no Estado colombiano, apresentou-se prontamente para receber sua paga pelo cometimento de um crime encomendado, no que foi prontamente apresentado como uma das crias mais bem acabadas do terrorismo e do crime institucionalizado.

Até que tentou, o governo colombiano, criar uma historinha daquelas que nem as crianças, na mais tenra idade, acreditam, a fim de apresentar o crime bárbaro como ato legítimo, de desespero, de correto. Mas a própria versão apresentada pelos incompetentes executores do terrorismo deixa clara a realidade dos fatos.

Em primeiro lugar, o covarde assassinato de Rios, por emboscada, foi apresentado como resultado de uma “bem sucedida operação militar”. Mas logo veio a verdade, de que um membro de seu grupo, que havia tido contato com os mandantes do crime, foi o real executor da ordem de homicídio.

O facínora, falando de forma pausada e decorada, apresentou, às câmeras de TV, sua versão para o crime. Disse que cometeu a atrocidade movido pelo desespero de estar “cercado”, “isolado”, sem condições sequer de alimentação.

A primeira pergunta que fica acerca de tal desculpa, é a razão de o mesmo ter sido o único que sentiu o peso de tal realidade, dita por ele como “insuportável”.

Mas são os requintes de perversidade do caso que mais chamam a atenção.

O traidor e bandido, não contente em assassinar, à emboscada, o comandante Ríos, pessoa a quem era muito próximo, decidiu cortar-lhe a mão direita, para levar de troféu.

Ora, não fosse o elemento de psicopatia, de perversidade extrema, esse fato já seria, por si, suficiente para demonstrar o caráter de extrema selvageria do ato.

Agora imagine-se e avalie-se a alegação feita: um homem, em ato de desespero, decide assassinar, à emboscada, pessoa que o tinha na máxima confiança, ceifando-lhe a vida de forma covarde, no que se segue o ato de amputar-lhe a mão, talvez por ato fruto de seu “desespero”, que o impelia a demorar-se mais na execução de seu crime, além de carregar consigo prova de que o cometera, para permitir-se ser apanhado por aqueles que pudessem querer a punição por tal crime.

Não é crível? Pudera, pois não há a mínima possibilidade de veracidade de tais alegações.

Voltemos à primeira versão surgida para o ocorrido, de ser uma operação de inteligência militar.

Operação de inteligência militar, sob coordenação e orientação dos EUA, como é o caso do Plano Colômbia, como publicamente conhecido, consiste, em básico ato de manual, na infiltração e corrupção de membros da organização que se pretende aniquilar. Isso não é novidade.

O executor do crime sob encomenda apresenta feliz da vida, a mão direita de sua vítima, como forma de comprovar que cometera o crime.

Por que razão algum criminoso se disporia a tão grande esforço para provar o cometimento de um crime? Como um criminoso, sem grande nível de instrução e conhecimento, saberia planejar tão frio ato criminoso em minúcias?

Podem alegar os defensores do Terrorismo de Estado na Colômbia, que o criminoso e traidor o fizera para comprovar que cometeu o assassinato e queria deixar a guerrilha. Mas se Uribe diz que garante a segurança daqueles que queiram se “desmobilizar”, seria esse argumento a confissão, a comprovação de que a história de garantias é a mais pura mentira?

Um homem que servia tão fielmente ao trabalho guerrilheiro, ao trabalho político, em meio ao que se chamou de uma “bem sucedida operação militar”, no que havia uma generosa oferta de recompensa.

Temos, por evidente, que não há outra possibilidade, senão a certeza de que o traidor e assassino foi diretamente contatado e contratado para a execução do crime, como um pistoleiro comum, que depois cumprira sua parte em um contrato de 5 milhões de dólares. Para os defensores do livre mercado, apenas uma “troca voluntária”.

Note-se que a forma de comprovação do “serviço feito” é de nível tal, que só exigido em tempos remotos, como na idade média, em que as guerras privadas movidas economicamente, gozavam de um “status” de “legitimidade”. A mão amputada, mais documentos, para se comprovar o sucesso da missão contratada.

No dia seguinte à manifestação que mobilizou milhões na Colômbia, mais milhões em todo o mundo, todos pedindo por paz, todos pedindo o fim do Terrorismo de Estado na Colômbia, o narco-fascismo de Uribe dá sua resposta, promovendo a guerra, promovendo o crime, promovendo a institucionalização da pistolagem.

Agora que o assassino traidor, covarde bandido, não acredite que o seu sucesso está completo, pois ainda há o povo colombiano, ainda há o Estado criminoso enlouquecido por lhe dar as costas e trair o compromisso assumido e contratado.

quarta-feira, 5 de março de 2008

É por isso que marchamos nesse 06 de março

ANNCOL - Brasil

São mais de 43 anos do conflito colombiano, que nasceu de uma tentativa de massacrar camponeses que apenas lutavam contra grilagens, execuções sumárias promovidas por latifundiários, por uma reforma agrária. São 43 anos em que o povo colombiano vem sendo sistematicamente massacrado por governos criminosos e narco-paramilitares que controlam esse Estado.

São mais de 43 anos em que a Colômbia viu mais de 1 milhão dos filhos dessa pátria sendo deslocados forçosamente. Mais de 300 mil filhos dessa pátria assassinados de forma brutal, tão somente porque ousaram levantar a voz contra a opressão.

Nesses mais de 43 anos, o povo colombiano mostrou toda a sua fibra e coragem. Seja por meio daqueles que se levantaram em armas para combater os que antes os assassinavam sem obstáculos, seja pela coragem daqueles que buscaram nos sindicatos e nos movimentos populares, sua forma de resistência, ainda que sob os constantes atentados e mortes que se tornaram rotineiras.

Apenas nessa década, apenas sob o regime de Álvaro Uribe, o narco-paramilitar chefe da Casa de Nariño, a Colômbia já contabiliza mais de 520 sindicalistas executados e mais de 120 jornalistas assassinados.

Apesar de todos os crimes praticados por aqueles que controlam o Estado colombiano, gerenciando os interesses do narcotráfico sob as ordens estadunidenses, o povo colombiano, há muito, clama por paz, pede por uma saída política para o conflito. E nesse caminho de paz, seguiram as FARC, incessantemente pedindo por negociações de paz e um intercâmbio humanitário de prisioneiros de guerra.

Foram 6 prisioneiros libertados pela guerrilha apenas neste início de ano, sem que qualquer gesto de colaboração com a paz surgisse por parte do narco-governo.

Mesmo na última semana, foram mais 4 prisioneiros de guerra libertados unilateralmente, sem que o regime narco-fascista assinalasse com qualquer possibilidade de um processo de paz, pelo contrário.

Às vozes que há muito clamam por paz, juntaram-se os libertados, que apontavam a necessidade de uma saída política para o conflito, pois compreenderam a realidade de seu país. No mesmo rumo, há muito, estão as vozes daqueles que continuam presos, aguardando a boa vontade de um governo psicótico, sedento por sangue.

As FARC libertaram prisioneiros e pediram uma negociação de paz. O governo narco-fascista de Uribe respondeu com a execução, a bombas, do negociador de paz da guerrilha, no mesmo ato em que declarou guerra a todo o continente latino-americano, bombardeando um país vizinho.

A execução de Raúl Reyes, em território do Equador, por meio de um bombardeio aéreo, é bastante significativa.

Uribhitler não aceita, sob qualquer hipótese, a paz na Colômbia, pois deseja a guerra, lucra com a guerra, tem ódio de seu povo e de todo o povo latino-americano. Uribe quer a guerra, não só na Colômbia, mas quer a guerra se espalhando pelo continente, sem vacilar em atacar os países vizinhos, sendo hoje a maior ameaça à segurança e à paz no continente. Uribe não aceita a libertação dos prisioneiros, pois os quer todos mortos, pelas armas do próprio exército que comanda, assim como fez com os 11 deputados do Valle del Cauca.

No entanto, o mais significativo deste episódio, é que o narco-fascista-paramilitar, Uribe Vélez, não poderia se contentar simplesmente em executar, de forma covarde a um dos dirigentes das FARC. Uribe precisava, para demonstrar de forma definitiva que não aceita a paz, assassinar exatamente o negociador de paz da guerrilha, para pôr fim a qualquer possibilidade de negociação, mesmo com outros países.

Diante dessa realidade, mais do que nunca, se faz necessária a mobilização e a pressão mundial contra a política terrorista, criminosa e assassina do governo colombiano.

É imperioso que todos os governos democráticos do mundo, a começar pelo Brasil, encerrem todas as suas relações com esse governo terrorista de Uribe Vélez, condenando sua política de execuções e sua declaração de guerra contra um país vizinho, que põe sob ameaça toda a região.

É preciso reconhecer que paz se tornou impossível sob o regime fascista que controla a Colômbia. E torna-se necessário impor o fim imediato e antecipado do governo assassino e narco-paramilitar de Uribe, para que o caminho da paz se abra na Colômbia, também permitindo a volta da convivência amistosa entre as nações soberanas da região.

Nós gritamos pela vida, eles comemoram a morte.

Nós pedimos por paz, eles fazem a guerra.

É por isso que marchamos.

É por isso que lutamos.

É por isso que a Colômbia e o mundo se mobilizam.

Pelo fim do Terrorismo de Estado!

Pelo fim do regime narco-paramilitar-fascista de Uribe!

Chega de massacres!

Chega de Guerra!

Pela paz!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O comandante do povo

Manuela Rodriguez/Rádio Café Stéreo


O revolucionário Raúl Reyes foi forjado na luta cotidiana de sua cidade natal, La Plata, departamento de Huila, primeiro como dirigente da Juventude Comunista, e logo no seio do Comitê Central do Partido Comunista Colombiano, de onde participou da campanha de criação da União Patriótica, como militante do Partido Comunista Colombiano.

Ao receber a notícia dos assassinatos de líderes comunistas e da União Patriótica, Raúl Reyes se transfere para as montanhas da Colômbia nos anos 1980, onde tem um ativo papel na luta dos camponeses, se destacou como negociador das FARC durante os diálogos de paz com o governo de Andrés Pastrana entre 1998 e 2002; durante esse processo, Reyes participou, junto com outros membros da guerrilha, de uma longa volta por vários países europeus. Era uma das figuras mais emblemáticas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC – EP) junto com Manuel Marulanda Vélez, Gillermo Cano, o mono Jojoy, Iván Marquez, etc. Era conhecido como o COMANDANTE DO POVO.

Ele mesmo foi o mais claro exemplo desta concepção revolucionária. Mediante e leitura disciplinada, o estudo e sua experiência guerrilheira, se fez um grande autodidata e conhecedor dos princípios do marxismo-leninismo, os quais utilizou de forma criativa para interpretar nossa complexa realidade e dotar as FARC-EP de uma certa orientação revolucionária, que serviria de guia para adiantar as transformações sociais que com urgência reclamam o país. Este conhecimento da realidade colombiana foi vertido durante anos em seus cursos de filosofia marxista e de economia política, mostrando ainda, suas qualidades de educador.

O Comandante Raúl Reyes era muito querido por sua humildade, sinceridade e sorriso franco, comparando-se por alguns sua popularidade à do chefe revolucionário Manuel Marulanda Vélez.

Mas na idéia de construir uma grande pátria com paz e justiça social, na mente imaginativa do comandante Raúl Reyes, sempre brotaram sonhos permanentes de luta. E assim como propicia o reencontro guerrilheiro com Simon Bolívar, com a vigência de seu pensamento antiimperialista, da unidade latino-americana e da unidade popular. Hoje o espírito destas idéias estão presentes no Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia.

Na morte do inesquecível comandante Raúl Reyes, seu pensamento político e exemplo revolucionário estão presentes nos processos de troca em nosso país e em todo o continente.

Agora: Quem é realmente nosso verdaeiro inimigo? ... O gringo que ocupou e segue ocupando nosso território, discrimina, explora, ata nossas mãos e coloniza nossas humilhações, ou o espanhol que acaba semeando suas sementes culturais em nossas terras.

VIVA O COMANDANTE RAÚL REYES

domingo, 2 de março de 2008

Raul Reyes, seu grito por justiça continua em nós


Nasceu em meio ao terrorismo. Morreu pelas mãos do terrorismo, sempre lutando por paz.

Foi uma vida dura, desde os tempos de trabalhador comum, nos tempos de sindicalista acostumado a ver seus companheiros assassinados por um Estado fascista, até a vida na selva como um dos homens mais procurados do mundo, apenas por lutar por justiça.

Reyes viu seu companheiro Jaime Pardo Leal, candidato presidencial, ser assassinado por esse mesmo Estado narco-terrorista. E isso foi na primeira tentativa unilateral de paz, quando as FARC deixaram as armas e buscaram atuar apenas politicamente. E Leal foi apenas um, dentre os mais de 5 mil, que foram assassinados. E o querido irmão Raúl Reyes escapou por pouco, por várias vezes, naquela ocasião.

Mataram seus amigos, seus irmãos, seus companheiros e camaradas. Mas não mataram em Reyes os sonhos de paz e justiça social.

Reyes foi o emissário da paz, em mais uma tentativa, no final da década de 1990. Viajou a Europa, buscou acordos, tentou a paz por todos os caminhos possíveis. Reyes assistiu, mais uma vez, o fracasso de seus sonhos de paz.

Nosso querido irmão agora era a voz que clamava por paz. Era a voz que dizia ao assassino dos seus, de forma tão desprendida, que a paz era necessária, que o diálogo não só era possível, como era a única alternativa.

Reyes, após ser a voz que tanto gritava por paz, após ser a voz que tanto anunciou a libertação de prisioneiros, os atos unilaterais em busca de paz, foi a voz que se buscou calar através das bombas e dos tiros, disparados covardemente do alto de aeronaves, típico daqueles que praticam seus crimes escondidos atrás de confortáveis escritórios de luxo.

Reyes foi vítima não só dos criminosos que sacrificam o povo colombiano há mais de 60 anos. O querido irmão Raúl Reyes também foi vítima de sua incessante luta pela paz.

Mas as bombas e tiros que lhe ceifaram tão covardemente a vida, não tiveram a capacidade de calar sua voz, que se faz e fará ouvir em todo o tempo e em todos os lugares em que a injustiça imperar.

Querido amigo e irmão Raúl Reyes, sua luta, seu exemplo, sua voz, continuarão sempre vivos, eternamente em nós.

Não desta tua vida em vão. A liberdade com que sonhaste será realidade. E sua voz ecoará ainda mais e mais, em cada dia, em cada hora, em que nossa luta continuar.

Camarada Raul Reyes! Presente!

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Os processos políticos contra os povos - A condenação de Ricardo Palmera Parte I

Com informações de ANNCOL - Brasil


Abrindo essa semana, a justiça estadunidense condenou o professor Ricardo Palmera, líder guerrilheiro das FARC conhecido por Simon Trinidad, a 60 anos de prisão em regime fechado. Apesar disso, a pena e a condenação não são os fatores centrais dessa história.

Simon Trinidad é um caso raro da justiça de países que se declaram democráticos no mundo contemporâneo. Trata-se de um caso em que as acusações aconteceram depois das condenações iniciais, que contaram com uma absurda persistência para se confirmar.

Ricardo Palmera foi preso no Equador sem qualquer acusação formal. Apenas foi preso, de forma ilegal, levado à Colômbia e depois extraditado para os EUA sem o devido processo legal para a extradição.

Se isso fosse pouco, cumpre ressaltar que contra Simon Trinidad, até sua prisão, não pesava qualquer acusação, sendo que seu nome sequer havia sido citado em qualquer parte dos processos em que, depois de sua prisão e extradição, passou a figurar como principal réu.

Trata-se, portanto, de uma aberração jurídica sem precedentes no direito contemporâneo em Estados formalmente democráticos.

A acusação real que pesou contra Trinidad após sua prisão e extradição foi a de envolvimento no seqüestro dos 3 oficiais estadunidenses pelas FARC na Colômbia. No entanto, para justificar sua extradição incluíram-se acusações de tráfico internacional de drogas, acusações que sequer tem indícios apontados nos autos de seu processo.

Basicamente podemos dizer que elementos básicos do processo penal, que nada mais são do que garantias mínimas de proteção contra arbitrariedades, foram solenemente ignorados no presente caso. Elementos como a materialidade do crime ou indício de autoria estão entre aqueles que sequer os acusadores colombianos ou os estadunidenses buscaram apontar no início ou no decorrer do processo.

Durante o julgamento, a acusação escancarou sua intenção de julgar não o Homem Ricardo Palmera, mas sim de julgar politicamente as FARC, aplicando a pena corporal de forma simbólica contra Trinidad.

Evidente que um processo montado sem a presença dos elementos mais básicos de uma acusação criminal impôs à justiça estadunidense imensas dificuldades para confirmar a condenação prévia contra Palmera.

Foram 4 julgamentos, tendo os três primeiros anulados em razão da não obtenção da condenação desejada. Três julgamentos políticos que foram incapazes de condenar Trinidad, que permanecia preso em condições proibidas por todos os tratados de direitos humanos, durante todo o processo.

A promotoria arrolou um sem número de testemunhas, todas pessoas que jamais tiveram qualquer contato com Trinidad.

Sobre envolvimento com tráfico de drogas nada se falou. Apenas se tentou vincular Trinidad aos prisioneiros em poder das FARC, no que Pinchao, o oficial que fugiu do cativeiro, seria a principal testemunha.

Mas Pinchao, apesar de todas as vantagens obtidas para testemunhar, apesar de todo o circo montado, não foi capaz de mentir o suficiente para justificar a condenação de Palmera.

Em seu depoimento Pichao acabou, mesmo a contragosto, esclarecendo que jamais tivera contato com Palmera, nem jamais ouvira sua voz. No entanto Pinchao insistiu em dizer que sabia que Simon Trinidad era um dos responsáveis pelo cárcere. Mas deu tal certeza ao mesmo tempo em que dava a certeza de que estivera preso com a ex-candidata presidencial, a franco-colombiana Ingrid Bettancourt, que teria dado aulas de francês ao oficial. No entanto, o marido de Bettancourt, Lecompte, esclareceu que Ingrid simplesmente não sabe falar francês, razão pela qual jamais poderia ter dado aulas do idioma.

E foi assim que se completou o fim da farsa montada, do teatro político que vitima Palmera, o que sequer seria realmente necessário caso houvesse alguma seriedade no processo. Note-se que ao afirmar que “sabia que Trinidad era responsável pelo seqüestro”, Pinchao não apontava nenhum elemento que justificasse tal convicção, pelo contrário, simplesmente apontava que nada sabia de Palmera, que jamais o ouvira ou vira.

E é de se ressaltar que essa trapalhada foi proveniente de um alto-oficial, tido como a principal testemunha contra Trinidad, dentre as inúmeras testemunhas arroladas pela acusação, que têm custado um salário mensal de 15 mil dólares por sua “colaboração”.

Tantas trapalhadas, tantos tropeços, tantas armações desmascaradas, acabaram frustrando a pretensão do governo colombiano e do governo estadunidense de julgar as FARC nas pessoas de Trinidad, nesse julgamento e de Sonia. E isso significa uma grande vitória da defesa de Palmera.

Não é segredo a grande campanha de mídia que tenta promover as FARC, nos Estados Unidos, como um grupo terrorista envolvido com o tráfico de drogas. E também não é novidade o forte apelo de acusações de terrorismo naquele país após os atentados do 11 de setembro. Ainda assim, com tamanha obviedade da falsidade das acusações contra Palmera, três vezes o julgamento terminou sem a condenação do guerrilheiro.

Esse tipo de processo, no entanto, parece não abalar tão profundamente um guerrilheiro que passou a integrar as FARC depois de ver seus maiores amigos assassinados pelo governo, sendo obrigado a enviar sua família para o exílio em razão de inúmeras ameaças de morte, quando ainda estava apenas na luta política.

Trinidad ainda resistiu às piores condições a que um prisioneiro pode ser submetido, como ele mesmo descreveu:

“Desde 8 de fevereiro do ano passado, há pouco mais de um mês de minha extradição, o Departamento de Estado determinou que mantivessem-me sob o sistema de “medidas administrativas especiais” (SAM), em inglês, e por isso é que me mantêm em uma área de segurança máxima desta prisão, encerrado na cela 24 horas por dia, sem direito a ligação, de enviar ou receber correspondência, sem visitas e só posso me reunir com os advogados norte-americanos. E nos últimos 6 meses estas condições têm endurecido ao ponto de no começo do ano me passarem à cela mais isolada, onde não vejo nada diferente dos policiais que me vigiam dia e noite; de dois meses para cá, quando vêm meus advogados, os policiais já não liberam minha mão direita das algemas e cadeias, pelo que me impedem de tomar notas ou para manipular os documentos que analisamos, ou que entrego, ou que recebo de meus advogados.(...)”

Além de tais condições, outros pontos que Trinidad não pôde contar em razão da censura, foram denunciados por seus advogados, que apontam que Trinidad está em uma cela iluminada, 24 horas por dia, por potentes luzes, numa conhecida técnica de tortura e desestabilização psicológica. Simplesmente sob métodos conhecidíssimos e condenados por todos os acordos de direitos humanos no mundo.

E assim, apesar de toda a pressão, de tantas ofertas para que Trinidad “colaborasse” com a “justiça”, delatando os “crimes” da guerrilha, Ricardo Palmera manteve a verdade em sua defesa, mesmo sabendo que a verdade o levaria à condenação farsesca, mas que lhe tiraria a liberdade, por 40 ou 60 anos. E assim se fez.

Trinidad foi condenado, mesmo sem qualquer fundamento na acusação, a 60 anos de prisão em regime fechado, com direito a 5 anos em regime aberto após esses 60 anos, totalizando uma pena de 65 anos, a um homem já com 57 anos de idade, o que torna a pena em prisão perpétua.

Mas as declarações do agora oficialmente preso político, Ricardo Palmera, dadas ao final de seu julgamento, não deixam dúvida quanto as sua convicções inabaladas, apesar da perseguição e de todo o sofrimento:

"Aquí se ha hecho un juicio político de cabo a rabo, aunque el gobierno haya tratado de evitarlo" (…)"Ese carácter político del juicio me complace porque confirma el carácter político de las Farc".

"No olvido que el terrorismo de estado que en Colombia es común motivó mi ingreso a las Farc", dijo. "Por principio, el terrorismo no tiene cabida en mi mente y mi corazón".

Enfim, Ricardo Palmera foi condenado no circo de um julgamento político, mas é absolvido pela história e pela consciência dos povos em luta pelo mundo e pelo seu povo na Colômbia. Palmera perde sua liberdade, mas mantêm intacta sua coerência, sua decência, seus ideais, sua certeza de que a luta de seu povo deve continuar até a vitória, ainda que sua liberdade e sua vida sejam o preço a pagar pela justiça.