sábado, 8 de março de 2008

A pistolagem institucionalizada na Colômbia

O crime de pistolagem figura entre os mais repudiados por toda a humanidade nos tempos atuais. Os assassinatos encomendados, executados por pagas em dinheiro, estão entre as condutas mais desaprovadas, em todas as legislações do mundo, como também contam com o repudio de qualquer que se diga minimamente civilizado, até mesmo entre as culturas de povos originários.

A pistolagem institucionalizada teve seu lugar em territórios sem lei, sem um mínimo de civilidade, como no período de colonização dos EUA, ou em sua conhecidíssima corrida do ouro e colonização do meio-oeste. Era conhecida como a época das recompensas, em que os assassinatos eram plenamente aceitos, por meras retribuições pecuniárias, sejam estatais ou privadas.

Com o surgimento e universalização de conceitos de civilidade, como os direitos humanos, a consagração da vida, a condenação dos assassinatos, o repúdio aos justiçamentos, a pistolagem foi alçada ao nível de crime bárbaro, tanto da parte do executor do assassinato, mas principalmente de seu mandante, que além do crime contra a vida, da crueldade, tem o caracter da covardia extremada, de quem, além de criminoso, não tem a coragem de enfrentar sua vítima, fazendo uso de expedientes sorrateiros, que levam à uma espécie de precificação da vida, além de impor à vítima uma situação de impossibilitação absoluta de defesa, pois jamais terá como saber quem será seu algoz, sendo sempre vítima de emboscadas.

Não à toa, todas as legislações penais do mundo, inclusive a da terra das recompensas, condenam de forma mais rígida esse tipo de crime contra os seus cidadãos, tratando como agravante o fato de o crime ser cometido por motivo fútil, além de mais um agravante por ser um crime de emboscada e impossibilitando a defesa à vítima.

Mas nos Estados Terroristas, nos Estados fascistas, a civilidade, os direitos humanos, a vida, são coisas descartáveis, ao gosto dos criminosos que tomaram de assalto o poder.

Assim é a Colômbia dos dias de hoje: um Estado narco-fascista, paramilitarizado, onde o crime e o terrorismo imperam de forma absoluta, como uma política de Estado, já arraigada em suas instituições, apesar do forte repúdio de toda a sociedade.

“A vida humana não tem preço”, diz-se há muito, sobretudo nos tempos pós Revolução Francesa, em que os direitos fundamentais do Homem foram finalmente positivados. E diz-se da vida como algo acima de qualquer outro bem que se possa imaginar.

Quanto vale uma vida então?

Na Colômbia, nos tempos atuais, uma vida pode ser o preço da verdade, como também pode valer algum dinheiro qualquer, que varia de alguns milhares de dólares, até alguns milhões. Essa é a forma pela qual o narco-fascismo trata a vida.

Iván Rios, comandante das FARC, foi a mais recente vítima desse tipo de pistolagem, de crime institucionalizado.

5 milhões seria o preço de sua vida, o preço de uma vida humana.

Arquitetada desde Washington, a política terrorista de Estado da Colômbia é direta em sua execução: oferece dinheiro pelo assassinato daqueles que ousam lutar contra o Estado terrorista. E oferece muito dinheiro, como costumam fazer os mais psicóticos criminosos da história.

Teria sido por dinheiro que um dos discípulos de cristo entregou o símbolo maior da maior religião do mundo, aos seus algozes. E foi por dinheiro que um dos mais bravos lutadores do povo colombiano teve sua vida abreviada, por mais um judas, mais um traidor de seu povo.

O assassino, aplaudido pela psicopatia reinante no Estado colombiano, apresentou-se prontamente para receber sua paga pelo cometimento de um crime encomendado, no que foi prontamente apresentado como uma das crias mais bem acabadas do terrorismo e do crime institucionalizado.

Até que tentou, o governo colombiano, criar uma historinha daquelas que nem as crianças, na mais tenra idade, acreditam, a fim de apresentar o crime bárbaro como ato legítimo, de desespero, de correto. Mas a própria versão apresentada pelos incompetentes executores do terrorismo deixa clara a realidade dos fatos.

Em primeiro lugar, o covarde assassinato de Rios, por emboscada, foi apresentado como resultado de uma “bem sucedida operação militar”. Mas logo veio a verdade, de que um membro de seu grupo, que havia tido contato com os mandantes do crime, foi o real executor da ordem de homicídio.

O facínora, falando de forma pausada e decorada, apresentou, às câmeras de TV, sua versão para o crime. Disse que cometeu a atrocidade movido pelo desespero de estar “cercado”, “isolado”, sem condições sequer de alimentação.

A primeira pergunta que fica acerca de tal desculpa, é a razão de o mesmo ter sido o único que sentiu o peso de tal realidade, dita por ele como “insuportável”.

Mas são os requintes de perversidade do caso que mais chamam a atenção.

O traidor e bandido, não contente em assassinar, à emboscada, o comandante Ríos, pessoa a quem era muito próximo, decidiu cortar-lhe a mão direita, para levar de troféu.

Ora, não fosse o elemento de psicopatia, de perversidade extrema, esse fato já seria, por si, suficiente para demonstrar o caráter de extrema selvageria do ato.

Agora imagine-se e avalie-se a alegação feita: um homem, em ato de desespero, decide assassinar, à emboscada, pessoa que o tinha na máxima confiança, ceifando-lhe a vida de forma covarde, no que se segue o ato de amputar-lhe a mão, talvez por ato fruto de seu “desespero”, que o impelia a demorar-se mais na execução de seu crime, além de carregar consigo prova de que o cometera, para permitir-se ser apanhado por aqueles que pudessem querer a punição por tal crime.

Não é crível? Pudera, pois não há a mínima possibilidade de veracidade de tais alegações.

Voltemos à primeira versão surgida para o ocorrido, de ser uma operação de inteligência militar.

Operação de inteligência militar, sob coordenação e orientação dos EUA, como é o caso do Plano Colômbia, como publicamente conhecido, consiste, em básico ato de manual, na infiltração e corrupção de membros da organização que se pretende aniquilar. Isso não é novidade.

O executor do crime sob encomenda apresenta feliz da vida, a mão direita de sua vítima, como forma de comprovar que cometera o crime.

Por que razão algum criminoso se disporia a tão grande esforço para provar o cometimento de um crime? Como um criminoso, sem grande nível de instrução e conhecimento, saberia planejar tão frio ato criminoso em minúcias?

Podem alegar os defensores do Terrorismo de Estado na Colômbia, que o criminoso e traidor o fizera para comprovar que cometeu o assassinato e queria deixar a guerrilha. Mas se Uribe diz que garante a segurança daqueles que queiram se “desmobilizar”, seria esse argumento a confissão, a comprovação de que a história de garantias é a mais pura mentira?

Um homem que servia tão fielmente ao trabalho guerrilheiro, ao trabalho político, em meio ao que se chamou de uma “bem sucedida operação militar”, no que havia uma generosa oferta de recompensa.

Temos, por evidente, que não há outra possibilidade, senão a certeza de que o traidor e assassino foi diretamente contatado e contratado para a execução do crime, como um pistoleiro comum, que depois cumprira sua parte em um contrato de 5 milhões de dólares. Para os defensores do livre mercado, apenas uma “troca voluntária”.

Note-se que a forma de comprovação do “serviço feito” é de nível tal, que só exigido em tempos remotos, como na idade média, em que as guerras privadas movidas economicamente, gozavam de um “status” de “legitimidade”. A mão amputada, mais documentos, para se comprovar o sucesso da missão contratada.

No dia seguinte à manifestação que mobilizou milhões na Colômbia, mais milhões em todo o mundo, todos pedindo por paz, todos pedindo o fim do Terrorismo de Estado na Colômbia, o narco-fascismo de Uribe dá sua resposta, promovendo a guerra, promovendo o crime, promovendo a institucionalização da pistolagem.

Agora que o assassino traidor, covarde bandido, não acredite que o seu sucesso está completo, pois ainda há o povo colombiano, ainda há o Estado criminoso enlouquecido por lhe dar as costas e trair o compromisso assumido e contratado.

quarta-feira, 5 de março de 2008

É por isso que marchamos nesse 06 de março

ANNCOL - Brasil

São mais de 43 anos do conflito colombiano, que nasceu de uma tentativa de massacrar camponeses que apenas lutavam contra grilagens, execuções sumárias promovidas por latifundiários, por uma reforma agrária. São 43 anos em que o povo colombiano vem sendo sistematicamente massacrado por governos criminosos e narco-paramilitares que controlam esse Estado.

São mais de 43 anos em que a Colômbia viu mais de 1 milhão dos filhos dessa pátria sendo deslocados forçosamente. Mais de 300 mil filhos dessa pátria assassinados de forma brutal, tão somente porque ousaram levantar a voz contra a opressão.

Nesses mais de 43 anos, o povo colombiano mostrou toda a sua fibra e coragem. Seja por meio daqueles que se levantaram em armas para combater os que antes os assassinavam sem obstáculos, seja pela coragem daqueles que buscaram nos sindicatos e nos movimentos populares, sua forma de resistência, ainda que sob os constantes atentados e mortes que se tornaram rotineiras.

Apenas nessa década, apenas sob o regime de Álvaro Uribe, o narco-paramilitar chefe da Casa de Nariño, a Colômbia já contabiliza mais de 520 sindicalistas executados e mais de 120 jornalistas assassinados.

Apesar de todos os crimes praticados por aqueles que controlam o Estado colombiano, gerenciando os interesses do narcotráfico sob as ordens estadunidenses, o povo colombiano, há muito, clama por paz, pede por uma saída política para o conflito. E nesse caminho de paz, seguiram as FARC, incessantemente pedindo por negociações de paz e um intercâmbio humanitário de prisioneiros de guerra.

Foram 6 prisioneiros libertados pela guerrilha apenas neste início de ano, sem que qualquer gesto de colaboração com a paz surgisse por parte do narco-governo.

Mesmo na última semana, foram mais 4 prisioneiros de guerra libertados unilateralmente, sem que o regime narco-fascista assinalasse com qualquer possibilidade de um processo de paz, pelo contrário.

Às vozes que há muito clamam por paz, juntaram-se os libertados, que apontavam a necessidade de uma saída política para o conflito, pois compreenderam a realidade de seu país. No mesmo rumo, há muito, estão as vozes daqueles que continuam presos, aguardando a boa vontade de um governo psicótico, sedento por sangue.

As FARC libertaram prisioneiros e pediram uma negociação de paz. O governo narco-fascista de Uribe respondeu com a execução, a bombas, do negociador de paz da guerrilha, no mesmo ato em que declarou guerra a todo o continente latino-americano, bombardeando um país vizinho.

A execução de Raúl Reyes, em território do Equador, por meio de um bombardeio aéreo, é bastante significativa.

Uribhitler não aceita, sob qualquer hipótese, a paz na Colômbia, pois deseja a guerra, lucra com a guerra, tem ódio de seu povo e de todo o povo latino-americano. Uribe quer a guerra, não só na Colômbia, mas quer a guerra se espalhando pelo continente, sem vacilar em atacar os países vizinhos, sendo hoje a maior ameaça à segurança e à paz no continente. Uribe não aceita a libertação dos prisioneiros, pois os quer todos mortos, pelas armas do próprio exército que comanda, assim como fez com os 11 deputados do Valle del Cauca.

No entanto, o mais significativo deste episódio, é que o narco-fascista-paramilitar, Uribe Vélez, não poderia se contentar simplesmente em executar, de forma covarde a um dos dirigentes das FARC. Uribe precisava, para demonstrar de forma definitiva que não aceita a paz, assassinar exatamente o negociador de paz da guerrilha, para pôr fim a qualquer possibilidade de negociação, mesmo com outros países.

Diante dessa realidade, mais do que nunca, se faz necessária a mobilização e a pressão mundial contra a política terrorista, criminosa e assassina do governo colombiano.

É imperioso que todos os governos democráticos do mundo, a começar pelo Brasil, encerrem todas as suas relações com esse governo terrorista de Uribe Vélez, condenando sua política de execuções e sua declaração de guerra contra um país vizinho, que põe sob ameaça toda a região.

É preciso reconhecer que paz se tornou impossível sob o regime fascista que controla a Colômbia. E torna-se necessário impor o fim imediato e antecipado do governo assassino e narco-paramilitar de Uribe, para que o caminho da paz se abra na Colômbia, também permitindo a volta da convivência amistosa entre as nações soberanas da região.

Nós gritamos pela vida, eles comemoram a morte.

Nós pedimos por paz, eles fazem a guerra.

É por isso que marchamos.

É por isso que lutamos.

É por isso que a Colômbia e o mundo se mobilizam.

Pelo fim do Terrorismo de Estado!

Pelo fim do regime narco-paramilitar-fascista de Uribe!

Chega de massacres!

Chega de Guerra!

Pela paz!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O comandante do povo

Manuela Rodriguez/Rádio Café Stéreo


O revolucionário Raúl Reyes foi forjado na luta cotidiana de sua cidade natal, La Plata, departamento de Huila, primeiro como dirigente da Juventude Comunista, e logo no seio do Comitê Central do Partido Comunista Colombiano, de onde participou da campanha de criação da União Patriótica, como militante do Partido Comunista Colombiano.

Ao receber a notícia dos assassinatos de líderes comunistas e da União Patriótica, Raúl Reyes se transfere para as montanhas da Colômbia nos anos 1980, onde tem um ativo papel na luta dos camponeses, se destacou como negociador das FARC durante os diálogos de paz com o governo de Andrés Pastrana entre 1998 e 2002; durante esse processo, Reyes participou, junto com outros membros da guerrilha, de uma longa volta por vários países europeus. Era uma das figuras mais emblemáticas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC – EP) junto com Manuel Marulanda Vélez, Gillermo Cano, o mono Jojoy, Iván Marquez, etc. Era conhecido como o COMANDANTE DO POVO.

Ele mesmo foi o mais claro exemplo desta concepção revolucionária. Mediante e leitura disciplinada, o estudo e sua experiência guerrilheira, se fez um grande autodidata e conhecedor dos princípios do marxismo-leninismo, os quais utilizou de forma criativa para interpretar nossa complexa realidade e dotar as FARC-EP de uma certa orientação revolucionária, que serviria de guia para adiantar as transformações sociais que com urgência reclamam o país. Este conhecimento da realidade colombiana foi vertido durante anos em seus cursos de filosofia marxista e de economia política, mostrando ainda, suas qualidades de educador.

O Comandante Raúl Reyes era muito querido por sua humildade, sinceridade e sorriso franco, comparando-se por alguns sua popularidade à do chefe revolucionário Manuel Marulanda Vélez.

Mas na idéia de construir uma grande pátria com paz e justiça social, na mente imaginativa do comandante Raúl Reyes, sempre brotaram sonhos permanentes de luta. E assim como propicia o reencontro guerrilheiro com Simon Bolívar, com a vigência de seu pensamento antiimperialista, da unidade latino-americana e da unidade popular. Hoje o espírito destas idéias estão presentes no Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia.

Na morte do inesquecível comandante Raúl Reyes, seu pensamento político e exemplo revolucionário estão presentes nos processos de troca em nosso país e em todo o continente.

Agora: Quem é realmente nosso verdaeiro inimigo? ... O gringo que ocupou e segue ocupando nosso território, discrimina, explora, ata nossas mãos e coloniza nossas humilhações, ou o espanhol que acaba semeando suas sementes culturais em nossas terras.

VIVA O COMANDANTE RAÚL REYES

domingo, 2 de março de 2008

Uribe pode ter assassinado Ingrid Bettancourt.

Como todos sabem, as FARC, por questões de logística e segurança dos prisioneiros, procuram separá-los, não mantendo jamais um cativeiro único.

No que se refere à segurança, tal prática se intensificou depois que Uribe, com o assassinato dos 11 deputados do Valle del Cauca, deixou claro que pretende matar todos os prisioneiros para não ter mais qualquer empecilho para o desenvolvimento de sua política terrorista.

Ingrid era, sem dúvida, a prisioneira mais visada, tanto pela repercussão internacional sobre seu caso, como pelas pretensões de Uribe em obter um terceiro mandato, objetivo que poderia se tornar impraticável caso Ingrid fosse libertada e decidisse candidatar-se novamente.

Esse posicionamento de Uribe tornou-se mais claro com as sua recusas em aceitar que as FARC fizessem a libertação, mesmo unilateral, dos prisioneiros, no que tentaram, de todas as formas, impedir a operação Emmanuel, por meio de intensivas operações militares e a intensificação dos habituais bombardeios.

Em razão desses fatores, aliado ao interesse direto de Uribe em ver Ingrid morta, a prisioneira franco-colombiana, conforme relatam os próprios ex-prisioneiros, foi levada para um cativeiro distinto daqueles mais numerosos, em companhia, talvez, de mais um ou dois prisioneiros cuja vida interessa menos a Uribe.

Apesar do caráter itinerante de todos os acampamentos, característica tanto de acampamentos quanto do movimento de guerrilhas, alguns deles se destacam em segurança em razão da natureza de suas atividades não armadas.

Nesse sentido, podemos destacar dois pontos de maior segurança das FARC, que seriam a frente de Marulanda, no Bloco Ocidental, por ser o acampamento sede dos mais numerosos encontros de membros do Estado Maior da guerrilha. De outro lado, a Frente de Reyes, que se destinava às relações internacionais e, não raro, recebia autoridades nacionais, internacionais, veículos de comunicação, dentre outros.

Por certo, o local de maior freqüência de reuniões entre membros do secretariado, inclusive por razões de sobrevivência da organização, não se destinaria a albergar prisioneiros. Assim restaria como local seguro para Ingrid o acampamento de Reyes. Com quem notoriamente Ingrid teve contato por várias vezes.

Vários outros elementos apontam na mesma direção.

Ingrid, segundo contam ex-prisioneiros, estaria bastante debilitada. E a razão de seu frágil estado de saúde seria relacionado a uma profunda depressão, por acreditar que jamais seria libertada, visto as informações sobre a forma como Uribe trata as tentativas de negociação, que ela receberia diariamente.

Sabidamente, o responsável por tais tentativas de estabelecimento de um diálogo seria justamente Reyes. E Ingrid, para ter acesso diário às informações, seria necessário que estivesse no mesmo acampamento em que as informações circulavam diretamente.

Outro fator geográfico alimenta essa quase certeza de que Ingrid estaria no mesmo acampamento que Reyes, pois que por segurança, seria necessário que se estivesse com a mesma em região próxima à fronteira de país cuja orientação do governo não seja a de extermínio de lideranças políticas insurgentes, que favoreçam a saída política para o conflito.

Evidentemente, os países cujas fronteiras teriam tais características seriam Brasil, Venezuela e Equador.

Dentre esses três países, necessário observar que o único cuja fronteira oferece condições de circulação pelo lado colombiano é a do Equador.

Ao norte, com a Venezuela, a região e de controle dos paras, com forte influência das forças armadas e a presença massiva de traficantes, o que torna quase impossível uma circulação segura com prisioneiros pela região.

Já na fronteira com o Brasil, o transporte de drogas é intenso, fazendo com que as FARC tenham inúmeras limitações para evitar combates desnecessários.

Já o sul da Colômbia é área hegemônica das FARC, a única região em que se pode garantir uma maior segurança na circulação com uma prisioneira tão procurada, viva ou morta.

Assim, resta explicada a razão de tal ataque ao acampamento, sobretudo num momento em que Uribe sabia que enfrentaria forte reprovação internacional por seu ato.

Pelas declarações dos recém libertados, a libertação de Uribe era iminente. Portanto tornava-se necessário que Uribe agisse rapidamente exterminando Ingrid. E ao que tudo indica, o fez.

Nas próximas semanas, assim que as comunicações do lado popular tornarem a se ajustar, é quase certo que a notícia seja divulgada, no que Uribe tentará acusar as FARC de terem a matado como represália, o que seria ridículo, bem se sabe.

A essa hora, ao que tudo indica, parece que a possibilidade de paz pode ter morrido, junto com Reyes e Ingrid, cujos corpos foram levados por seus assasinos, segundo o terrorista J.M. Santos, “para evitar que tentassem recuperá-los”.

Raul Reyes, seu grito por justiça continua em nós


Nasceu em meio ao terrorismo. Morreu pelas mãos do terrorismo, sempre lutando por paz.

Foi uma vida dura, desde os tempos de trabalhador comum, nos tempos de sindicalista acostumado a ver seus companheiros assassinados por um Estado fascista, até a vida na selva como um dos homens mais procurados do mundo, apenas por lutar por justiça.

Reyes viu seu companheiro Jaime Pardo Leal, candidato presidencial, ser assassinado por esse mesmo Estado narco-terrorista. E isso foi na primeira tentativa unilateral de paz, quando as FARC deixaram as armas e buscaram atuar apenas politicamente. E Leal foi apenas um, dentre os mais de 5 mil, que foram assassinados. E o querido irmão Raúl Reyes escapou por pouco, por várias vezes, naquela ocasião.

Mataram seus amigos, seus irmãos, seus companheiros e camaradas. Mas não mataram em Reyes os sonhos de paz e justiça social.

Reyes foi o emissário da paz, em mais uma tentativa, no final da década de 1990. Viajou a Europa, buscou acordos, tentou a paz por todos os caminhos possíveis. Reyes assistiu, mais uma vez, o fracasso de seus sonhos de paz.

Nosso querido irmão agora era a voz que clamava por paz. Era a voz que dizia ao assassino dos seus, de forma tão desprendida, que a paz era necessária, que o diálogo não só era possível, como era a única alternativa.

Reyes, após ser a voz que tanto gritava por paz, após ser a voz que tanto anunciou a libertação de prisioneiros, os atos unilaterais em busca de paz, foi a voz que se buscou calar através das bombas e dos tiros, disparados covardemente do alto de aeronaves, típico daqueles que praticam seus crimes escondidos atrás de confortáveis escritórios de luxo.

Reyes foi vítima não só dos criminosos que sacrificam o povo colombiano há mais de 60 anos. O querido irmão Raúl Reyes também foi vítima de sua incessante luta pela paz.

Mas as bombas e tiros que lhe ceifaram tão covardemente a vida, não tiveram a capacidade de calar sua voz, que se faz e fará ouvir em todo o tempo e em todos os lugares em que a injustiça imperar.

Querido amigo e irmão Raúl Reyes, sua luta, seu exemplo, sua voz, continuarão sempre vivos, eternamente em nós.

Não desta tua vida em vão. A liberdade com que sonhaste será realidade. E sua voz ecoará ainda mais e mais, em cada dia, em cada hora, em que nossa luta continuar.

Camarada Raul Reyes! Presente!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fidel não renunciou a nada

Essa semana Fidel Castro, revolucionário cubano e presidente do Conselho de Ministros de Estado de Cuba, anunciou que não mais concorrerá, nem aceitará a indicação para uma recondução ao cargo.

Para quem acompanha a luta cubana para a consolidação de sua revolução, a notícia não traz nenhuma surpresa. Não significa nenhuma profunda mudança imediata na política e no processo revolucionário do país. Mas a grande imprensa do Brasil e do mundo não poderiam perder a oportunidade de fazer sua propaganda, com suas mentiras, tentar construir uma falsa realidade, talvez para legitimar futuras iniciativas golpistas e imperialistas contra aquele povo.

“Fidel renunciou”, anunciaram os grandes jornais, as grandes redes de televisão, as revistas semanais que ocupam o trabalho de “pensar” da classe média empobrecida intelectualmente. Mentira!

A realidade é que Fidel não renunciou a nada. Fidel não deixou o poder. Fidel não se afastou da revolução.

Fidel não renunciou, pois apenas anunciou que não aceitará ocupar novamente a função. Exceto se o caso for de um crônico e generalizado caso de analfabetismo funcional, não há que se dizer que alguém não se dispor a concorrer a um cargo signifique renúncia.

Fidel também não deixou o poder, pois que jamais teve o poder em suas mãos, o que bem sabe qualquer cubano e qualquer que tenha visitado a ilha não apenas em seus pontos turísticos mais famosos.

O poder em Cuba é um exercício de todos, um exercício que brota desde os CDR´s (Comitês de Defesa da Revolução), passa por assembléias populares que decidem todas as questões fundamentais do país, e tem o exercício cotidiano conduzido pela Assembléia Nacional, com a política executada por um conselho de ministros. Então Fidel jamais poderia ter deixado o poder que jamais teve, ou que teve em suas mãos apenas como um cidadão qualquer da ilha.

Fidel também não deixou nem se afastou da revolução. Isso é apenas a visão mesquinha daqueles que só conseguem interpretar o mundo a partir das ambições pessoais, do dinheiro e do poder. Não é essa a situação dos revolucionários.

Presidir um Conselho de Ministros, numa estrutura revolucionária, não é um privilégio, um cargo, uma demonstração de poder. É sim uma tarefa que é conferida a um revolucionário, que deverá cumpri-la da melhor forma, com perfeição condizente com a confiança conferida pela organização revolucionária e pelo povo.

Fidel apenas foi o homem que recebeu, daquela estrutura revolucionária, a árdua tarefa de dirigir o processo revolucionário. Árdua tarefa que o levou a ver-se desapropriando para fins de reforma agrária as terras de sua família, o que até hoje gera a revolta de uma sua filha que se refugiou em Miami exigindo reaver as propriedades que ela julga ter direito.

Se é o desejo desesperado dos grandes grupos econômicos que controlam a grande imprensa, divulgar tantas mentiras sobre a realidade da ilha, que ao menos façam o serviço com alguma qualidade. Ao invés de atirar para todos os lados sem qualquer preocupação com a realidade, que ao menos se preocupem com alguma verossimilhança em suas afirmações.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Os processos políticos contra os povos - A condenação de Ricardo Palmera Parte I

Com informações de ANNCOL - Brasil


Abrindo essa semana, a justiça estadunidense condenou o professor Ricardo Palmera, líder guerrilheiro das FARC conhecido por Simon Trinidad, a 60 anos de prisão em regime fechado. Apesar disso, a pena e a condenação não são os fatores centrais dessa história.

Simon Trinidad é um caso raro da justiça de países que se declaram democráticos no mundo contemporâneo. Trata-se de um caso em que as acusações aconteceram depois das condenações iniciais, que contaram com uma absurda persistência para se confirmar.

Ricardo Palmera foi preso no Equador sem qualquer acusação formal. Apenas foi preso, de forma ilegal, levado à Colômbia e depois extraditado para os EUA sem o devido processo legal para a extradição.

Se isso fosse pouco, cumpre ressaltar que contra Simon Trinidad, até sua prisão, não pesava qualquer acusação, sendo que seu nome sequer havia sido citado em qualquer parte dos processos em que, depois de sua prisão e extradição, passou a figurar como principal réu.

Trata-se, portanto, de uma aberração jurídica sem precedentes no direito contemporâneo em Estados formalmente democráticos.

A acusação real que pesou contra Trinidad após sua prisão e extradição foi a de envolvimento no seqüestro dos 3 oficiais estadunidenses pelas FARC na Colômbia. No entanto, para justificar sua extradição incluíram-se acusações de tráfico internacional de drogas, acusações que sequer tem indícios apontados nos autos de seu processo.

Basicamente podemos dizer que elementos básicos do processo penal, que nada mais são do que garantias mínimas de proteção contra arbitrariedades, foram solenemente ignorados no presente caso. Elementos como a materialidade do crime ou indício de autoria estão entre aqueles que sequer os acusadores colombianos ou os estadunidenses buscaram apontar no início ou no decorrer do processo.

Durante o julgamento, a acusação escancarou sua intenção de julgar não o Homem Ricardo Palmera, mas sim de julgar politicamente as FARC, aplicando a pena corporal de forma simbólica contra Trinidad.

Evidente que um processo montado sem a presença dos elementos mais básicos de uma acusação criminal impôs à justiça estadunidense imensas dificuldades para confirmar a condenação prévia contra Palmera.

Foram 4 julgamentos, tendo os três primeiros anulados em razão da não obtenção da condenação desejada. Três julgamentos políticos que foram incapazes de condenar Trinidad, que permanecia preso em condições proibidas por todos os tratados de direitos humanos, durante todo o processo.

A promotoria arrolou um sem número de testemunhas, todas pessoas que jamais tiveram qualquer contato com Trinidad.

Sobre envolvimento com tráfico de drogas nada se falou. Apenas se tentou vincular Trinidad aos prisioneiros em poder das FARC, no que Pinchao, o oficial que fugiu do cativeiro, seria a principal testemunha.

Mas Pinchao, apesar de todas as vantagens obtidas para testemunhar, apesar de todo o circo montado, não foi capaz de mentir o suficiente para justificar a condenação de Palmera.

Em seu depoimento Pichao acabou, mesmo a contragosto, esclarecendo que jamais tivera contato com Palmera, nem jamais ouvira sua voz. No entanto Pinchao insistiu em dizer que sabia que Simon Trinidad era um dos responsáveis pelo cárcere. Mas deu tal certeza ao mesmo tempo em que dava a certeza de que estivera preso com a ex-candidata presidencial, a franco-colombiana Ingrid Bettancourt, que teria dado aulas de francês ao oficial. No entanto, o marido de Bettancourt, Lecompte, esclareceu que Ingrid simplesmente não sabe falar francês, razão pela qual jamais poderia ter dado aulas do idioma.

E foi assim que se completou o fim da farsa montada, do teatro político que vitima Palmera, o que sequer seria realmente necessário caso houvesse alguma seriedade no processo. Note-se que ao afirmar que “sabia que Trinidad era responsável pelo seqüestro”, Pinchao não apontava nenhum elemento que justificasse tal convicção, pelo contrário, simplesmente apontava que nada sabia de Palmera, que jamais o ouvira ou vira.

E é de se ressaltar que essa trapalhada foi proveniente de um alto-oficial, tido como a principal testemunha contra Trinidad, dentre as inúmeras testemunhas arroladas pela acusação, que têm custado um salário mensal de 15 mil dólares por sua “colaboração”.

Tantas trapalhadas, tantos tropeços, tantas armações desmascaradas, acabaram frustrando a pretensão do governo colombiano e do governo estadunidense de julgar as FARC nas pessoas de Trinidad, nesse julgamento e de Sonia. E isso significa uma grande vitória da defesa de Palmera.

Não é segredo a grande campanha de mídia que tenta promover as FARC, nos Estados Unidos, como um grupo terrorista envolvido com o tráfico de drogas. E também não é novidade o forte apelo de acusações de terrorismo naquele país após os atentados do 11 de setembro. Ainda assim, com tamanha obviedade da falsidade das acusações contra Palmera, três vezes o julgamento terminou sem a condenação do guerrilheiro.

Esse tipo de processo, no entanto, parece não abalar tão profundamente um guerrilheiro que passou a integrar as FARC depois de ver seus maiores amigos assassinados pelo governo, sendo obrigado a enviar sua família para o exílio em razão de inúmeras ameaças de morte, quando ainda estava apenas na luta política.

Trinidad ainda resistiu às piores condições a que um prisioneiro pode ser submetido, como ele mesmo descreveu:

“Desde 8 de fevereiro do ano passado, há pouco mais de um mês de minha extradição, o Departamento de Estado determinou que mantivessem-me sob o sistema de “medidas administrativas especiais” (SAM), em inglês, e por isso é que me mantêm em uma área de segurança máxima desta prisão, encerrado na cela 24 horas por dia, sem direito a ligação, de enviar ou receber correspondência, sem visitas e só posso me reunir com os advogados norte-americanos. E nos últimos 6 meses estas condições têm endurecido ao ponto de no começo do ano me passarem à cela mais isolada, onde não vejo nada diferente dos policiais que me vigiam dia e noite; de dois meses para cá, quando vêm meus advogados, os policiais já não liberam minha mão direita das algemas e cadeias, pelo que me impedem de tomar notas ou para manipular os documentos que analisamos, ou que entrego, ou que recebo de meus advogados.(...)”

Além de tais condições, outros pontos que Trinidad não pôde contar em razão da censura, foram denunciados por seus advogados, que apontam que Trinidad está em uma cela iluminada, 24 horas por dia, por potentes luzes, numa conhecida técnica de tortura e desestabilização psicológica. Simplesmente sob métodos conhecidíssimos e condenados por todos os acordos de direitos humanos no mundo.

E assim, apesar de toda a pressão, de tantas ofertas para que Trinidad “colaborasse” com a “justiça”, delatando os “crimes” da guerrilha, Ricardo Palmera manteve a verdade em sua defesa, mesmo sabendo que a verdade o levaria à condenação farsesca, mas que lhe tiraria a liberdade, por 40 ou 60 anos. E assim se fez.

Trinidad foi condenado, mesmo sem qualquer fundamento na acusação, a 60 anos de prisão em regime fechado, com direito a 5 anos em regime aberto após esses 60 anos, totalizando uma pena de 65 anos, a um homem já com 57 anos de idade, o que torna a pena em prisão perpétua.

Mas as declarações do agora oficialmente preso político, Ricardo Palmera, dadas ao final de seu julgamento, não deixam dúvida quanto as sua convicções inabaladas, apesar da perseguição e de todo o sofrimento:

"Aquí se ha hecho un juicio político de cabo a rabo, aunque el gobierno haya tratado de evitarlo" (…)"Ese carácter político del juicio me complace porque confirma el carácter político de las Farc".

"No olvido que el terrorismo de estado que en Colombia es común motivó mi ingreso a las Farc", dijo. "Por principio, el terrorismo no tiene cabida en mi mente y mi corazón".

Enfim, Ricardo Palmera foi condenado no circo de um julgamento político, mas é absolvido pela história e pela consciência dos povos em luta pelo mundo e pelo seu povo na Colômbia. Palmera perde sua liberdade, mas mantêm intacta sua coerência, sua decência, seus ideais, sua certeza de que a luta de seu povo deve continuar até a vitória, ainda que sua liberdade e sua vida sejam o preço a pagar pela justiça.