sábado, 17 de novembro de 2007

Quem São os Golpistas e Ditadores?

O presidente Lula, em um dos poucos surtos de bom senso desde o início de seu primeiro governo, fez declarações de apoio ao presidente venezuelano, Hugo Chavez, relativas ao confronto entre Chavez e Juan Carlos na Cúpula Ibero-Americana.

Lula falou o óbvio e ululante, sequer comprometendo-se com qualquer posicionamento, apenas atacando a hipocrisia dos comentários que buscaram dar ao episódio uma conotação diferente da realidade.

É bom lembrar a realidade, antes de prosseguir com o assunto principal.

A realidade é que José Maria Aznar, ex-presidente da Espanha, foi um dos apoiadores do General Franco, ex-ditador fascista espanhol, que promoveu uma das mais terroristas e assassinas épocas de toda a história contemporânea da Europa.

A realidade é que Aznar, em seu governo promoveu o ódio religioso contra islâmicos, promoveu a xenofobia, enviou tropas ao Iraque contra a vontade da população, incitou a violência, promoveu um retrocesso nas questões relacionadas a homofobia e tantos outros elementos característicos do fascismo de seu ídolo Franco.

A realidade é que Aznar, durante seu governo, foi um dos principais apoiadores, ao lado de George Bush, do golpe contra Hugo Chavez na Venezuela, sendo o primeiro Chefe de Governo a reconhecer o golpista Carmona como presidente, dando-lhe os parabéns por derrubar Hugo Chavez.

Essa é a realidade desconfortável da qual o Rei, Juan Carlos, tentou livrar o seu pupilo fascista.

Hugo Chavez chamou de fascista um reconhecido líder fascista, esse foi o seu único ato naquela reunião, que não teria sido mais do que um lembrete da realidade, não fosse um resquício da idade das trevas, da Idade Medieval, um Rei, aristocrata que jamais soube o que é ser povo, ter tomado as dores e relembrado os tempos em que sua família tinha os índios latino-americanos como seus escravos e vítimas de seus massacres.

Hugo Chavez tem origem indígena, deve ser isso que aguçou o senso de autoridade do Rei sobre ele, afinal, sua família sempre foi acostumada a ordenar massacre de índios. Talvez a vontade de Juan Carlos fosse a de reinventar um Pizarro e acabar de vez com a raça indígena, começando por eliminar Hugo Chavez e Evo Moralez.

Isso não seria muita novidade, em se lembrando a realidade de avanço do fascismo e do neonazismo por que passa a Europa na atualidade. Mas ser aceito por Chefes de Estado e de Governo da América Latina, ou mesmo pela mídia desses países que já foram as colônias massacradas e exploradas, já é algo que beira ao absurdo.

Voltando às declarações de Lula relativas ao caso, ele apenas mostrou a hipocrisia das “análises” do caso e da repercussão que teve na mídia, bem como, que inoportuna foi a presença e as declarações de um Rei, onde deveriam estar os Chefes de Governo.

Tal chamamento que Lula fez à realidade, seria apenas um toque de bom senso em todo o caso, não fosse pelo espírito paranóico que os movimentos de direita têm insistido em construir em toda a América Latina.

“Ditador” gritava a elite econômica venezuelana, logo após sua vitória nas urnas. O mesmo fizeram com Morales na Bolívia. E não faltam os que apontem o “perigo vermelho” ante a provável vitória de Fernando Lugo no Paraguai, já no próximo ano. É a paranóia ditatorial-conservadora que ressurge das cinzas da década de 60 e 70, em todo o continente.

E nas paragens brasileiras não poderia ser diferente. Diante das palavras de Lula, de uma lucidez não habitual para o mesmo, surge o DEMO, ex-PFL, reduto da maioria absoluta das viúvas e órfãos da ditadura militar, bradando sobre um certo “sinal golpista” implícito nas palavras do presidente.

Paranóia e falácia pouca são bobagens, ao que parece.

Em nota oficial, o DEMO, do ex-ministro da ditadura Jorge Bornhausen, da família de coronéis Magalhães, dos Tuma e sua tradição policialesca, alerta para essa tal sinalização para o golpe, para a ruptura da democracia, para a instalação de uma ditadura, com a proposta de um terceiro mandato para Lula.

É curioso ver o DEMO, que apoiou de forma incondicional a emenda da reeleição para FHC, chamar emendas de reeleição de golpe e instalação de regimes ditatoriais. Isso me parece, em última análise, uma confissão e uma autocrítica. Estaria o DEMO querendo se redimir dos tempos da ditadura e de seu apoio à emenda da reeleição para FHC, ou seria mero casuísmo? Até o momento, parece mais ser a segunda hipótese.

Mas a nota do DEMO vai além do mero oportunismo e casuísmo político. A nota chega ao cúmulo da hipocrisia e da paranóia, além da demagogia de sempre.

Interessante observar que a nota se inicia condenando a postura do presidente Lula em “defender a continuidade de Hugo Chávez no poder com base em plebiscitos”.

Pois bem, não parece outra a postura do DEMO, que não seja a defesa aberta de um golpe de Estado em um país vizinho, violando completamente a soberania daquele país, incitando a violência, a ruptura com o Estado Democrático de Direito, a autodeterminação dos povos e afrontando, radicalmente, uma nação que mantém relações amistosas com o Brasil.

Mas tal nota, de conotação eminentemente fascista, não pára por aí. Aponta, de forma aberta, sua condenação à “sociedade do presidente da República e do governo com o ditador da Venezuela Hugo Chávez por considerar que esta aliança ameaça a democracia e o Estado de Direito”.

Seria necessário que o DEMO explicasse, de forma clara e objetiva, de que forma a defesa do Estado Democrático de Direito na Venezuela, ameaça o Estado de Direito. Afinal, todo o mundo sempre acreditou que a defesa de golpes de Estado é que são ameaças ao Estado de Direito.

A proposta do DEMO não deixa qualquer margem para dúvidas, pois tenta impelir o Brasil a promover um embargo diplomático e econômico à Venezuela como ponto de apoio a um golpe de Estado, rompendo com o Estado Democrático de Direito naquele país, afrontando sua soberania e a autodeterminação de seu povo.

Não fosse apenas esse despautério, tal postura do DEMO ainda está a afrontar nossa própria Constituição, que em seu artigo 4º, incisos III, IV e V, estabelece como balizadores das relações internacionais do Brasil o respeito à autodeterminação dos povos, o princípio da não-intervenção e da igualdade entre os Estados.

Apenas tal afronta do DEMO à nossa Decisão Política Fundamental, em respeito ao Estado Democrático de Direito, já justificaria severa punição à legenda, herdeira da ditadura militar no Brasil.

Mas a loucura ditatorial dessa gente saudosa do regime terrorista avança, condenado a postura brasileira de “avalizar” e, segundo eles, “tentar” legitimar o “governo ditatorial de Hugo Chávez”.

Não é preciso sequer analisar as informações e notícias sobre a Venezuela para ter consciência do despautério de tal afirmação.

Jamais poderia o Brasil tentar “legitimar” ou “avalizar” o governo da Venezuela. O governo da Venezuela é legitimado ou avalizado por seu povo, ou repudiado pelo mesmo. E no caso, foi legitimado e avalizado por 3 eleições e um plebiscito, algo a que jamais algum país dito “democrático” em qualquer parte do mundo se sujeitou.

Cumpre lembrar que, ao ser eleito, Chavez recebeu o direito de exercer um mandato de 5 anos. Mas com uma reforma constitucional, teve seu mandato reduzido para apenas dois, por sua própria iniciativa, tendo que submeter-se a novas eleições em seguida. E também por proposta do mesmo, foi incluído na constituição venezuelana um dispositivo que permite ao povo interromper o mandato de qualquer presidente, por meio de plebiscito, ao qual o governo Chavez foi submetido e venceu, com mais de 57% dos votos.

Que algum crítico aponte outro governo no mundo que cria mecanismos para que o povo interrompa os seus mandatos, ou aceitem a decisão soberana do povo venezuelano.

E daí segue a paranóia, que mais lembra alguém sob influência de drogas pesadas, o que não é de se duvidar que seja habitual nas hostes do DEMO. Vem a nota supor que as declarações de Lula seriam um “sinal verde a golpistas que estão urdindo emenda à Constituição para impedir a alternância de poder no Brasil”.

É necessário esclarecer que a tal emenda apontada pelo DEMO seria uma suposta emenda permitindo que Lula fosse novamente candidato.

Não vou sequer entrar no mérito de ser objetivo de Lula ou do PT uma emenda de tal tipo, pois ambos já se declararam contra. Mas é interessante lembrar que foi o DEMO, em seus tempos de PFL, que organizou toda a aprovação da emenda da reeleição para FHC. Em resumo, podemos dizer que para o DEMO, se um deles quer a reeleição é algo bom, se for de outra coalizão política, é golpe e ditadura. Essa é a coerência do DEMO, que, sem temer ser chulo, ouso dizer que, mesmo vindo do DEMO, não é coerência nem aqui, nem no inferno.

Segue o DEMO dizendo “reafirmar que o prazo do mandato do presidente Lula está definido na Constituição da República e que propostas espúrias para mexer neste prazo serão tratadas pelo Democratas como aquilo que realmente são: tentativas de golpe de Estado para extinguir a Democracia e o Estado de Direito com o objetivo de instalar uma ditadura no Brasil”.

Interessante essa análise nova de que o governo PSDB/DEMO foi uma ditadura de 8 anos, derrubando o mito de que vivemos sob o mais longo período democrático do Brasil.

Nos tempos de FHC o mandato também já estava definido, mas graças ao DEMO e o PSDB, permitiu-se, no meio do mandato, a reeleição, pelo critério do DEMO, dando um golpe de Estado e estabelecendo uma ditadura no Brasil.

Também sou contra tais tipos de golpes ditatoriais sob essa falsa democracia representativa. E, honestamente, fico feliz em ver o reconhecimento do DEMO acerca de sua postura golpista e ditatorial, em conjunto com o PSDB. É algo para o Brasil assimilar e jamais esquecer, a fim de evitar futuros retrocessos.

Mas retorna à sua incoerência absoluta o DEMO, ao dizer “antecipar que as bancadas democratas na Câmara e no Senado rejeitarão toda e qualquer manobra para enfraquecer o Congresso Nacional e conduzir o país à margem da Lei e do Estado de Direito”, no exato momento em que afronta a lei, afrontando de forma radical a própria Constituição Federal. Em conjunto com tal afirmação, só caberia aos dirigentes do DEMO um pedido de auto-prisão preventiva e de cassação do registro do próprio partido, para auferir um mínimo de coerência a tais palavras.

Chegando próximo ao fim de sua nota, o DEMO vem declarar que “vota contra o ingresso da Venezuela no Mercosul porque o Mercado Comum exige a credencial democrática dos países membros, requisito que o ditador Hugo Chávez subtraiu do seu País e do seu povo”, sem de dar ao luxo de apontar qual a ruptura democrática promovida por Chavez na Venezuela.

Talvez tenham deixado de apontar, em razão da vergonha em dizer que o problema é que, no conceito do DEMO de democracia, um mestiço, descendente de índio, não pode ser presidente, ou que não pode impedir maracutaias. Ou mesmo, que não é permitido a um índio latino-americano tentar acabar com a miséria de seu povo. Pois essas são as únicas rupturas promovidas na Venezuela.

Talvez, apesar de constrangedor, devesse o DEMO declarar o seu voto contra a Venezuela no Mercosul porque odeia uma nação com “cheiro de povo”, que não aceita apenas a política de benefício aos grandes conglomerados do mercado financeiro. Perderiam votos, por certo, mas ao menos ganhariam em dignidade. Mas parece que dignidade não é algo que interesse a tal grupo habituado ao coronelismo que lhe garantiu espaço e poder ao longo de tanto tempo no Brasil.

E encerra o festival de sandices dizendo “manifestar total solidariedade aos valentes venezuelanos que enfrentam o governo antidemocrático de Hugo Chávez na Venezuela”, mas, convenientemente, sem explicar que esses a quem manifestam solidariedade, foram os que governaram a Venezuela por mais de 100 anos e que ao perderem o poder tentaram, descaradamente, com o apoio internacional dos fascistas, um golpe de Estado, no qual foram derrotados pelo povo venezuelano que tomou as ruas em defesa da democracia.

A conclusão que fica de tal manifestação de apoteose do saudosismo ditatorial, fascista e autoritário, é que todos os conceitos de liberdade são sempre subvertidos e manipulados pelos “donos do poder”, que controlam as Américas nestes mais de 500 anos, sempre que seus interesses se vêm ameaçados.

E que para esses senhores, o povo é sempre um empecilho, um mau a ser combatido sempre que se rebela contra a opressão. Um bando de “escravos” que só merecem ser tratados na base da chibata e dos grilhões.

Façamos nós a nossa parte, ou eles nos levarão, a todos, dessa fez independente de cor da pele, novamente à senzalas e aos porões em que acontecem as torturas e os assassinatos.

Ou nós efetivamos a democracia como um poder do povo, ou eles estabelecem a democracia deles, em que nós somos apenas os dóceis e úteis servos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Imprensa Popular Colombiana é Censurada

Desde o dia 31 de outubro de 2007, os governos dos Estados Unidos e da Colômbia conseguiram tirar do ar a página da ANNCOL - Agência de Notícias Nova Colômbia, que já possuía sede na Bélgica como precaução, para garantir a segurança de seus membros contra ataques dos assassinos do Governo colombiano e dos para-militares de direita.

Tal ataque foi apenas mais um, dentre inúmeros outros já registrados contra a página da ANNCOL. Porém, é o mais longo período em que, agentes especializados em espionagem e sabotagens cibernéticas, conseguem manter a página da ANNCOL fora do ar.





Além da ANNCOL, em razão do total bloqueio de seus mecanismos de comunicação, suas representações em todo o mundo também estão sem condições de publicação de notícias e informações, o que gera grande preocupação, visto que era o principal meio de comunicação pelo mundo, acerca dos fatos e eventos envolvendo o conflito colombiano.

Há, nesse momento, grande preocupação quanto a segurança de correspondentes da ANNCOL em território colombiano, bem como, de possíveis atos de maior envergadura por parte de forças do governo, com apoio dos norte-americanos, contra populações civis de zonas rurais da Colômbia, em razão da ausência de canais de comunicação de grande alcance capazes de denunciar os possíveis abusos e eventuais crimes.

Além da ANNCOL, outro grande veículo de informação de origem popular, a rádio Café St
éreo também foi tirada do ar, sendo veiculada em sua antiga freqüência, atualmente, a rádio uruguaia El Mundo Real.

A substituição, promovida de forma arbitrária e ilegal, pelo governo Uribe com apoio estadunidense, ocorreu no último dia 02 de novembro, mas só veio a público nesse dia 14, em razão da ausência de veículos que fizessem a sua divulgação.

Durante o mesmo período em que a ANNCOL permaneceu fora do ar, também a página das FARC-EP sofreram inúmeros ataques, conseguindo restabelecer-se, ainda com algumas dificuldades, apenas nesse dia 14 de novembro.

Tais ataques, coincidem com o momento em que o presidente colombiano, Alvaro Uribe Velz, profere alguns dos mais severos ataques contra os insurgentes em seus discursos, conflitando com a imagem que tenta passar ao mundo de disposição ao diálogo e às negociações.

Trata-se de uma das mais diretas e abertas ações de censura e sabotagens contra os veículos de comunicação populares relacionados à Colômbia já vistos nos últimos anos, com ataques simultâneos e diretos aos três principais órgãos de comunicação, o que deve causar grande temor e reação nos próximos dias.

Nos próximos dias, esperamos ter maiores informações e a recuperação da capacidade de divulgação de fatos e eventos acerca do conflito colombiano. No momento, todas as preocupações concentram-se no restabelecimento do funcionamento da página da ANNCOL e de toda a sua rede de comunicação, como também em formas de recolocar no ar a rádio Café Stéreo.

Por ora, resta como única opção de informação interna do conflito colombiano a versão on-line da rádio
Café Stéreo, que ainda não sabemos quanto tempo permanecerá no ar até que um dos ataques seja bem sucedido.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Nacionalismo e Consciência de Classe

O episódio envolvendo Chavez, Zapatero e o Rei da Espanha, na Cúpula Ibero-Americana, faz-nos lembrar do caráter retrógrado e reacionário desse sentimento burguês do nacionalismo, que até defendemos atualmente em razão da desgraça de avanço da hegemonia reacionária nas sociedades modernas.

Historicamente, as classes dominantes se organizavam de acordo com seus interesses, tendo territórios delimitados como suas propriedades e com os viventes de seus territórios como sua classe oprimida particular. Era um tempo de monumental esforço para incutir nas mentes dos oprimidos algum vínculo com o território, para que os oprimidos fizessem a defesa do mesmo como se seu fosse.

Séculos se passaram e as classes dominantes, que se alternaram no comando da sociedade, foram criando mecanismos cada vez mais complexos e eficazes para subjugar os povos, oprimindo-os e explorando-os, ao mesmo tempo em que usa a classe oprimida e explorada para a defesa de seus interesses.

A organização dos Estados e Nações em grandes blocos territoriais sob governos representativos dos grandes grupos econômicos, possibilitou uma nova forma de luta pela ampliação de mercados, de mercados de exploração e de opressão de povos internos e estrangeiros. Se em tempos remotos, a construção de impérios demandava conflitos militares a partir de acordos entre chefes tribais e equivalentes, ou o uso de exércitos profissionais, as novas formas de organização da dominação se utilizam de outros elementos de manifestação subjetiva e de eficácia muito mais elevada.

Antes dos mecanismos atuais de dominação, muitos foram os conflitos construídos artificialmente com a finalidade de manter sob controle as massas populares: guerras étnicas, religiosas, conflitos por recursos naturais escassos, que sempre acabavam nas mãos de algum grande senhor de posses ao final.

Entretanto, tais mecanismos acabavam por causar mais transtornos do que o desejado pelas classes dominantes, até mesmo lhes causando instabilidades sistemáticas que acabavam por deixar seus domínios sob risco. Necessário foi, portanto, constituir-se um novo mecanismo capaz de regular-se de forma autônoma, permanente e sem muitos sobressaltos ou riscos ao domínio de classe.

A constituição das nações em repúblicas, não apenas em termos formais, mas em mecanismos de organização do Estado e da vida em sociedade, que na prática dominam até as monarquias restantes, também foram elementos fundamentais para a geração dessa nova necessidade e dessa nova prática.


Foi na Alemanha da década de 1930 que vimos de forma mais clara a manifestação nua e crua dessa tal prática nova, com o discurso nacionalista levando os nazistas ao poder, contra a suposta ameaça comunista e o suposto avanço dos judeus e ciganos sobre o “patrimônio” do povo alemão.

Tal realidade desnudou de forma categórica o caráter reacionário e conservador do discurso nacionalista, do nacionalismo puro e simples.

Não se trata aqui da valorização da cultura nacional ou de exaltação de caracteres de um povo ou de uma nação, mas do posicionamento político que se toma em relação aos cortes de distinção social.

Em última análise, pouco ou nada importa o local do nascimento, questões étnicas, formação cultural, etc. Em última análise, o que importa é a condição social do indivíduo e da classe a que pertence, ou seja, sua condição de explorado ou oprimido, ou sua condição de explorador ou opressor.

Desde os tempos das grandes navegações, Vêm sendo abolidas as fronteiras no que se refere a exploração do Homem pelo Homem. Escravos eram capturados na África para trabalharem nas Américas, povos de países europeus em situação de fome, como a Itália, eram levados para a América do Sul para servirem de mão de obra barata. Da mesma forma, hoje temos povos da Europa Oriental sendo tratados em regime de semi-escravidão ou trabalho precário na Europa Ocidental, latino americanos servindo para os trabalhos degradantes na América do Norte, Europa Ocidental e alguns países da Ásia, trabalhadores nacionais desses países importadores de mão de obra sendo jogados ao desemprego em razão da própria importação de mão de obra e da desregulamentação do mercado de trabalho.

Por outro lado, os grandes grupos econômicos já não possuem mais vínculos decisivos com limitações fronteiriças, tendo seu capital movimentado através do globo à procura da máxima lucratividade da exploração, em questão de segundos. Fábricas inteiras mudam-se do dia para a noite, em busca de trabalhadores mais baratos, que possam ser submetidos a condições mais terríveis do que os seus antecessores.

Portanto, não é a pátria o mais importante, pois a exploração, a opressão e o capital não possuem pátria. Possuem tão somente o seu interesse em perpetuar-se no comando, no domínio de classe frente aos povos de todo o mundo. As classes são, fundamentalmente, internacionais.

Mas vêm os representantes das classes dominantes, através de suas elites intelectuais, ideológicas, culturais, políticas e econômicas, através do processo de dominação ideológica e cultural, impor aos povos o senso de nacionalismo, de patriotismo, acima do senso de classe.

É por intermédio desse senso alienante, que as classes dominantes conseguem manter os oprimidos e explorados em constante estado de vigilância, não contra os seus verdadeiros algozes, mas contra os seus iguais, divididos apenas por idioma ou aparência, cultura ou territorialidade. E é assim que conseguem manter o seu poder de forma inquestionável, sempre desviando o foco dos inimigos verdadeiro da classe explorada, para um possível inimigo externo, terrível e ameaçador, ainda que somente à suposta “honra”, que nem mesmo pertence à classe trabalhadora.

E assim é que vimos a tosca situação na reunião de cúpula Ibero-Americana. Chavez, ao apontar corretamente os posicionamentos de classes na Espanha, identificando corretamente o fascismo de Aznar que por intermédio de mentiras e calúnias atacou de forma covarde a Zapateros, ser atacado pelo próprio Zapateros, que deveria possuir identidade de classe mais próxima à de Chavez e do povo oprimido e trabalhador. E tudo isso sob a mais absoluta aprovação do representante da velha aristocracia, o Rei Juan Carlos, que mostrando a verdadeira cara da classe dominante, com toda a sua descompostura, mandara Chavez calar-se.

Zapateros incorporou a mais perfeita pose do traidor de classe que se alia ao opressor em nome do “nacionalismo”, do “patriotismo”, contra sues irmãos oprimidos e explorados de outras nacionalidades. E não fossem as palavras de Ortega, apesar de Chavez não ter se calado frente ao Rei, estaria toda a classe dominante desse planeta gargalhando dos pobres trouxas, que ainda acreditam que as fronteiras colocam-se acima das classes.

Eles riem de nossas caras. E enquanto não nos compreendermos enquanto membros da nação humana, eles continuarão a rir, na certeza de que as picuinhas entre nós, geradas por eles, nos impedirão de tomarmos nossas vidas e nossos destinos em nossas mãos.

Terra, pátria da humanidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Vladimir Herzog - 32 Anos de Sua Morte - Ainda Presente Entre Nós

Há exatos 32 anos, morria, sob a tortura do regime militar, um dos maiores jornalistas que esse país já viu: Vlado Herzog, mais conhecido por Vladimir.

Vladimir Herzog, um Iugoslavo de nascimento, de família judia que fugira do nazismo que varreu a Europa sob os avanços do III Reich de Hitler, naturalizara-se brasileiro em sua nova pátria.

Graduado em filosofia pela USP, Vlado Inicia no ofício de jornalista no Jornal “O Estado de São Paulo.

Em 1964, após o golpe militar, Vlado acaba, mais uma vez, fugindo do terror de uma ditadura sangrenta, exilando-se na Inglaterra, onde veio a trabalhar na BBC, obtendo enorme experiência e aprimorando o seu currículo, o que viria a ter grande importância em seu futuro.

Em 1968, Vlado retorna ao Brasil, com sua esposa Clarice, ela alguns meses antes. Em seu retorno, Vlado se depara com uma situação ainda mais difícil do que aquela em que ele deixara o país, pois a poucas semanas havia sido decretado o famigerado AI-5.

Herzog era um jornalista extremamente ligado aos meios culturais, sobretudo o cinema, sempre imprimindo nessa sua militância, inclusive profissional, uma forte e marcante preocupação social, o que já chamava a atenção de muitos.

Tal opção ideológica fizera com que Herzog acabasse por tomar o único caminho possível a um Homem de “alma” comunista em uma mente profundamente intelectualizada: em 1971 ingressa nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro – PCB.

Sua opção pelo comunismo fora uma opção feita com a alma de um sonhador, com a alma de um sentimento humano acima de tudo, que o levava, apesar de não muito ligado à atuação política, a lutar em defesa dos mais fracos, a lutar contra a ditadura.

E foi seu ingresso nas fileiras do PCB o marco de uma nova vida sob uma dura e cruel perseguição.

Em 1975, Herzog é convidado a dirigir o departamento de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, onde acaba imprimindo um padrão de jornalismo considerado indesejável pelos militares.

Sob a direção de Herzog, o jornalismo da TV Cultura passa a ter um padrão de independência e de insubordinação em relação às mentiras contadas pelo regime fardado. Jornalistas passam a ter liberdade para o exercício de sua atividade e inicia-se um processo novo, de autonomia e liberdade de expressão.

Não demorou, evidente, para a censura mostrar suas garras e partir para o ataque sobre esse homem que desafiava as baionetas com sua pena.

Além de sua postura frente ao jornalismo da TC Cultura, Vlado se encontrava em um dos momentos de maior repressão dos militares contra o PCB.

Foi o tempo de assassinatos de dirigentes e militantes em todo o país, o tempo dos desaparecidos, o tempo de operações coordenadas com apoio estadunidense e de outras ditaduras do continente, tudo com o objetivo de desmantelar a maior organização política de enfrentamento ao regime no país, logo após a grande vitória do MDB nas urnas, onde os comunistas tinham sua atuação eleitoral.

E foi no bojo dessa forte repressão aos comunistas, aliado a postura de repressão ao padrão de jornalismo com preocupação social que Vlado imprimia em seu trabalho a frente do jornalismo da Cultura, que se deu a ação dos homens do regime.

Naquele 24 de outubro de 1975, os dois agentes do DOI-CODI dirigiram-se à TV Cultura com a missão de levar Herzog para “prestar depoimento”. Herzog até dispunha-se a ir, pois não costumava demonstrar medo ou intimidação em qualquer situação que fosse. Mas foram seus colegas e amigos, que ao longo daqueles meses sob o seu comando, aprenderam a admirá-lo e a respeita-lo por sua personalidade e seu caráter extremamente humano e determinado, que opuseram-se, temendo pelo pior.

Durante todo aquele dia 24, eram muitas as informações e os boa
tos que circulavam pelos bastidores da Cultura a respeito de possível ação das forças de repressão contra Vlado. E muito era o temor de todos quanto a segurança do chefe e companheiro.

O jornalista Paulo Markun, que já naqueles tempos trabalhava na Cultura, junto com Vlado, foi um dos jornalistas ligados a Herzog preso antes de Vlado e veio a contar do clima reinante naquele dia, do qual soube logo após ser solto.


E assim, colegas e amigos conseguiram, após muita negociação, que os agentes não levassem Herzog já naquele momento ao DOI-CODI, com a garantia de que Vlado se apresentasse espontaneamente na manhã seguinte para prestar seu depoimento.

Não eram poucos os que queriam que Vlado fugisse, que procuravam meios e planos para garantir-lhe a fuga. Mas aquele homem habituado às atitudes de coragem e a atuação pública não tinha em sua personalidade, o perfil do fugitivo. E Herzog permanecera ali, em seu trabalho, até o fim do dia, mantendo o compromisso de honrar sua palavra e comparecer para seu depoimento na manhã seguinte. E assim foi.

Na manhã do dia 25, Vlado despede-se de sua esposa, Clarice e de seus dois filhos, encaminhando-se ao DOI-CODI.

Vlado, nos porões do regime, sob as mãos de seus carrascos, foi espancado, asfixiado, submetido a choques elétricos à exaustão, até vir a perecer, tendo sua morte por asfixia, não se sabe se em decorrência da falta de controle sobre seu organismo provocada pelos choques, ou se em razão das técnicas de asfixia empregadas por seus torturadores.

Morreu Herzog, sem delatar nenhum de seus camaradas do PCB, também sem delatar nenhum de seus companheiros de jornalismo. Aquele foi o único momento em que se viu calar a voz do jornalista e militante inconformado com a ditadura fascista instalada no país, justamente quando a ditadura queria vê-lo falar.

Foram dez horas de tortura, dor, humilhação e sofrimento, muito acima do que um ser humano comum é capaz de suportar. Mas Herzog não era um ser humano comum. Herzog era um daqueles que Brecht classificava como “imprescindíveis”. E levou sua luta até o fim de sua belíssima vida.

E naquele 25 de outubro de 1975, mataram o pai zeloso, mataram o marido apaixonado, mataram o jornalista cheio de princípios, mataram o sonhador, mataram o homem. Mas não foram capazes de matar os sonhos e a história. E foi assim que Herzog escreveu sua última e derradeira matéria, a maior de todas, em primeira mão.

A morte de Herzog não foi uma morte qualquer, mais uma, dentre as tantas ocorridas nos porões da ditadura. E nem com toda a encenação feita, em que tentaram, ridiculamente, alegar que Vlado havia suicidado-se enforcando-se com um cinto, com as pernas dobradas quase sentado, foi capaz de calar as vozes que se ergueram contra a sua morte.

O assassinato de Vlado pelo regime provocou a maior onda de protestos em todo o Brasil e em todo o mundo, exigindo o respeito aos direitos humanos, a liberdade de expressão aos jornalistas e ao povo, exigindo democracia.

O seu próprio enterro já fora um verdadeiro ato de protesto. Judeu, Vlado deveria ser enterrado de forma própria, como suicida, em se acreditando na ridícula versão oficial sobre sua morte. Mas com todas as evidências e provas de que fora assassinado, Vlado foi enterrado dentro dos mais rigorosos preceitos judaicos, como uma vítima que morrera pelas mãos de seus carrascos.

E o culto ecumênico de 30 de outubro, na Catedral da Sé, em homenagem a Vlado, foi o verdadeiro início da forçada abertura política no Brasil.

Aproximadamente 8 mil pessoas, entre camaradas, familiares, amigos, colegas e companheiros, além de populares indignados com a brutalidade do regime, estavam presentes, dentro e fora da Catedral. Em volta, quase 500 policiais fortemente armados, tinham ordens de disparar para matar, diante da menor manifestação contra o regime. E aquele foi um grande protesto silencioso, com um golpe contra o regime ainda maior do que poderiam ser os gritos de um milhão de pessoas.

A partir desse ato silencioso, Herzog, apesar de morto, continuava escrevendo a matéria da história da derrota da ditadura em nosso país. E a pressão, interna e externa, contra a ditadura, crescia dia após dia, com a exigência de todos por uma apuração real da morte do jornalista e pelo respeito aos direitos humanos em nosso país.

E foi em 1976 que Herzog, com a ajuda de sua esposa, Clarice, escreve um dos mais fortes parágrafos de sua derradeira matéria. Nesse ano, Clarice ingressa com uma ação pedindo a responsabilização da União pela prisão, tortura e morte de Herzog. E em 1978, o juiz Marcio José de Moraes, nome que deve ser destacado por sua coragem, sentenciou, atribuindo a responsabilidade pela prisão, pela tortura e pelo assassinato à União.

Tal corajosa sentença estarreceu o regime e devolveu esperança ao povo, permitindo que toda aquela movimentação e indignação cuja manifestação começara com a morte de Vlado, viesse a reorganizar-se de forma decisiva em todo o país e mundo afora.

Não são poucos os “reescritores” da história que buscam atribuir a tantas outras manifestações em nosso país, a responsabilidade pela pressão irresistível ao regime, que ocasionara a abertura política. Mas ninguém, diante da realidade colocada sobre a mesa, nega que fora Herzog, sua luta, seus camaradas e seus companheiros, que escreveram, e continuam escrevendo, essa matéria em primeira mão, da nova história do Brasil.

Foi a partir dessa tragédia, pela própria tragédia, que o país entra em ebulição, apesar da apatia sistemática de muitos movimentos populares que haviam passado a focar sua atuação em questões meramente intestinas.

Audálio Dantas cita, em seu depoimento ao Museu da Pessoa, que “só sindicatos de jornalistas se solidarizaram com o dos jornalistas de São Paulo. Lula era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e manteve-se à margem dos protestos realizados em outubro de 1975.”, demonstrando de forma cabal que fora aquela movimentação a decisiva para a derradeira pressão contra a ditadura, não outras vindouras. E como cita artigo do Observatório da Imprensa, “Isso não é dito para fazer uma cobrança sem sentido, apenas para mostrar como o movimento operário e sindical estava recuado e como aqueles protestos, que não brotaram por geração espontânea, abriram caminho para grandes lutas que viriam depois. Inclusive as importantíssimas greves do ABC paulista dirigidas por Lula.”.

E assim Herzog continuou atuando, mesmo após sua morte, como jornalista, escrevendo a matéria da história do Brasil, em primeira mão, como um bom jornalista; como militante comunista, sendo a face da luta que tornou inevitável a abertura política; como sonhador, que deu contribuição inquestionável, para que hoje pudéssemos gozar da liberdade com que ele tanto sonhara.

E o último parágrafo de sua derradeira matéria, ainda resta por ser escrita, com a abertura dos arquivos da ditadura, com a revelação do paradeiro de inúmeros camaradas de Herzog, até hoje desaparecidos, com a revelação das atrocidades inúmeras, cometidas contra a espécie humana.

E hoje, Herzog, 37 anos de saudades, continua mais vivo do que nunca, escrevendo nossa história, revelando nosso passado, construindo nosso futuro.

Matam os homens, mas os sonhos e as lutas jamais poderão ser atingidos. E Herzog, com sua vida, sua luta, seus sonhos, sua morte, nos mostra o caminho.

Em nossos corações e mentes, eternamente como inspiração e exemplo. Em nosso futuro, sua pena estará a escrever suas novas velhas letras.

Sua luta continua viva, seus camaradas continuam em pé, seus sonhos permanecem entre nós.

Camarada Vlado, ontem, hoje e eternamente, presente!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Meu Aniversário

O tempo passa. E parece levar consigo as alegrias e as esperanças.

Neste exato momento eu queria coisas simples, como ter meu pai ao meu lado, ter meu filho vivendo comigo.

Meu presente ideal seria a imagem de meu pai segurando meu filho no colo, em meio às árvores plantadas por aquele que sempre foi meu grande ídolo, no quintal dessa casa que guarda um pouco de cada traço dele.

Ah, que presente lindo seria meu pai e meu filho, juntos, brincando.

O tempo passa e nos leva as alegrais e a vida.

Eu queria encontrar uma razão para isso tudo. Talvez meu pai pudesse me ajudar. Mas o tempo o levou.

Talvez meu filho pudesse me explicar, através da convivência diária. Mas ele não mora comigo.

O amor ainda pode ser o significado dessa vida. Mas eu descubro, dia após dia, que amar dói. Sobretudo pela ausência dos beijos e abraços do amor que tanto amo.

Eu quero um presente, por favor: meu pai, meu filho, meu amor e o presente melhor. É simples. Mas não terei, eu sei.

Quero comemorar, quero ser feliz. Até poderia pensar que sou feliz, pois minha vida aproxima-se, dia a dia, de seu fim, como todas as vidas. E isso, ao menos, aproxima-me de meu pai. Mas afasta-me de meu filho e meu amor.

Parece que a felicidade, realmente é utopia.

E assim me vou, seguindo em sonhos, sem esperança, querendo comemorar, mas sem ter o quê.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Filme “Tropa de Elite” Faz Sua Primeira Vítima Fatal

A febre do momento, aplaudida por muitos, criticada por outros, começa a confirmar a sua pecha de psicótico e apologista da tortura.

Defendido por muitos como a expressão da realidade, causando paixão em outros que começam a ver torturadores e assassinos do tipo “Capitão Nascimento” como heróis do combate à violência, a máscara de justiça que o filme tenta vestir com a aparência de merecimento das agressões por todas as vítimas começa a cair.

Evidente que um grupo que se arroga no direito de decidir de forma sumária sobre a vida ou morte de outros, utilizando como método principal de ação a tortura e a agressão gratuita, nada possui de heróico, pelo contrário, estão entre os mais frios e perversos bandidos.

Entretanto, o discurso terrorista e preconceituoso, beirando o fascismo mais descarado, aliado a uma “glamourização” de práticas psicóticas e cruéis, leva ao convencimento dos menos preparados em compreensão da realidade ou em sentimentos humanos, à defesa apaixonada da barbárie.

Mas agora o diretor do filme, José Padilha, que fez a opção por essa visão apologista do comportamento fascista e psicótico do filme, em conjunto com todos aqueles que fizeram a defesa de tal prática, começam a ver, de forma incontestável, de forma clara, direta e evidente, suas mãos manchadas pelo sangue das vítimas de tais atrocidades.

Já havia falado antes, nesse mesmo espaço, do poder de sedução psicótica do fascismo. E agora isso fica evidenciado e comprovado pela vida real.

Notícia estampada no dia de hoje nos jornais me deixou estarrecido, mas ao mesmo tempo com a sensação de normalidade, pois que notícia já esperada. Sob o título “Tropa de Covardes”, um dos jornais de maior circulação do estado do Paraná, a “Tribuna do Paraná”, estampava a notícia acerca da morte do jovem Bruno, filho do renomado colunista esportivo paranaense, Vinícius Coelho.

Abaixo, alguns dos envolvidos no crime:
Infelizmente, sou obrigado a dizer que “menos mau” que a vítima de tal atrocidade tenha sido um rapaz de classe média, de família conhecida e pai de prestígio na imprensa. Lamento profundamente a morte desse jovem, que comigo dividia a paixão eterna pelo maior clube de futebol do estado, o Coritiba, bem como pelo sofrimento de sua família e de seu pai, que tão bem tem contado de forma belíssima a história dessa nossa paixão. Mas sou obrigado a dizer que o fato de ser uma vítima com tal perfil pode ajudar no despertar da população quanto ao crime que está cometendo em ato de cumplicidade com o psicopata maior, senhor José Padilha. Pode ajudar, porque a repercussão que um caso desse tipo gera, é de reprovação absoluta da conduta adotada pelos bandidos, ao passo que se fosse mais um, dentre os muitos jovens pobres de periferia, ainda que absolutamente inocente fosse a vítima, seria automaticamente transformado em bandido para justificar a truculência e a barbárie tão aplaudida nos dias atuais.

Vigilantes, apenas para reprimir uma “pichação” em um muro de uma clínica, carregaram o jovem à força para a sede da empresa de vigilância, reproduziram as cenas de tortura do filme e depois o levaram para local ermo para a execução final, tudo seguindo o mais fiel roteiro de Padilha e a visão psicótica que tomou conta dos discursos da maioria da população por ele influenciada.

Que o caso sirva de lição a todos os que hoje aplaudem os “Capitão Nascimento” espalhados por todo o Brasil, que atuam nas favelas e morros, nas comunidades carentes e contra a população mais necessitada.

Tenho certeza de que muitos outros ainda serão vítimas desse tipo de prática tão incentivada pelos setores mais reacionários e psicóticos de nossa sociedade. Mas também tenho certeza de que, em havendo o devido repúdio da população a tais práticas, muitas vidas podem ser poupadas, muitas famílias podem ser livradas do sofrimento e nossas consciências poderão ter um pouco menos de culpa a carregar.

Seria necessário, para se fazer real justiça, que o senhor José Padilha, o mais descarado apologista da tortura, do extermínio e da barbárie que esse país já viu desde os anos de chumbo, respondesse conjuntamente pelo crime praticado contra esse jovem com toda a vida pela frente, que teve sua história abreviada pela mais reprovável crueldade humana. Portanto, sei que justiça não se fará.

Encerro aqui com dóis pedidos, o primeiro à parcela da sociedade que tem aplaudido e até desejado a ampliação das práticas fascistas e psicóticas, para que parem, olhem para o sangue desse jovem em suas mãos, reflitam e revejam suas posições, pois que a responsabilidade por todo esse estado de coisas, mais cedo ou mais tarde, lhes será cobrada, de uma forma ou de outra, talvez até, passando pela mesma situação que a família dessa vítima passa atualmente.

Meu segundo pedido é à essa figura por quem nutro profunda admiração, muito em razão da paixão que dividimos pelo nosso Clube do Alto de Tantas Glórias, o colunista Vinícus Coelho: por favor, não caia na tentação de cair no discurso vingativo e passional, psicótico em essência, da inflamada violência que exige a mais severa punição aos algozes de seu filho e a todos que são apontados como “responsáveis” pela violência e pela criminalidade. Por mais difícil que seja nesse momento, faça aquele esforço sobre humano que só os grandes de espírito são capazes, buscando a racionalidade mesmo no momento de desespero. Faça esse esforço e lembre-se que seu filho querido e amado, mais do que vítima dos que executaram de forma direta o crime que lhe ceifou a vida, foi vítima de toda uma parcela da sociedade, dos sentimentos psicóticos e dos discursos violentos que usam a suposta violência como desculpa para sua crueldade. Foi vítima da inspiração fascista e psicótica desse famigerado filme. Foi vítima da inflamada aprovação da sociedade por tais práticas da mais absoluta crueldade.

Sendo assim, caro Vinícius Coelho, lembre-se que o discurso, os desejos e a crueldade que foram os responsáveis maiores pelo antecipado fim da vida de seu filho, não podem ocupar sua boca e suas palavras. Se não foi possível salvar a vida de seu querido e amado filho, ajude a salvar a vida de tantos outros filhos que por aí estão, à mercê dos próximos agentes construídos por esse discurso fascista e psicótico, do ódio e da alienação gerada pelos “Padilhas” da vida.

Meus pêsames.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A Sedução Psicótica do Fascismo

Muito se tem falado e discutido sobre o filme Tropa de Elite. Argumentos condenando-o e defendendo-o, dos mais variados tipos e naturezas. Alguns dizem se tratar de um retrato fiel da dura realidade do combate ao crime, desempenhado por bravos heróis. Outros dizem se tratar da mais descarada e absurda apologia da tortura, das chacinas, do comportamento psicótico e da mesma postura fascista responsável pela morte de tantos comunistas, judeus e ciganos nos campos de concentração da II Guerra.

Defende-se o diretor, das inúmeras críticas recebidas, alegando tratar-se apenas de uma visão de alguém que está envolvido no confronto, ou seja, do Capitão Nascimento, mas que o filme não justifica nem incentiva aquela prática.

Dessa defesa do diretor do filme temos três conclusões possíveis: 1 – ele está errado, visto que todos que são expostos ao filme saem com inúmeros argumentos sem base, defendendo a tortura e o assassinato, mesmo de inocentes, como única forma de combate ao crime, exceto os que estudam o fenômeno da violência, convivem de perto com a violência policial, ou possuem um sentimento humano mais apurado; 2 – toda a humanidade está errada, apenas o diretor do filme está certo; 3 – o diretor do filme está mentindo descaradamente, em razão de não suportar defender sua postura nitidamente fascista e psicótica de forma aberta, sobretudo depois das intenções do filme restarem tão claras e evidentes.

Até o momento, parece que as duas primeiras opções são impossíveis, restando a mentira descarada como única possibilidade das palavras de defesa desse senhor Padilha. Sobretudo agora, com a “vinda à tona” de mais um elemento demonstrando de forma inequívoca o conteúdo do discurso proferido por tal filme.

Notícia do Jornal O Globo, veículo de informação que até o momento tem feito a defesa do filme, até por razões de posicionamento político de ambos, mostra o efeito que tal versão distorcida e “glamurizada” sobre a violência policial tem ocasionado em jovens e adolescentes submetidos a tal discurso.

Segundo matéria publicada no jornal O Globo, em sua versão “on-line”, no dia 10 de outubro, jovens e adolescentes estariam reproduzindo cenas de tortura e agressões, tão banais e comuns no filme, com seus colegas, não se sabe se de forma encenada, ou de forma mais real, com outros jovens e adolescentes sendo submetidos realmente à tortura, visto o nível de realismo das cenas. Os vídeos com tais seções de tortura são encontrados com facilidade no canal de vídeos do Grupo Google, o Youtube, que por uma questão de bom senso, está optando por tirar do ar tais vídeos.

Entretanto, tirar do ar tais vídeos não resolve o problema que nos é tão real, apenas o recoloca de forma oculta, mantendo o efeito nocivo de tal apologia à criminalidade institucionalizada, na consciência e nas práticas adotadas pela população com menor nível de formação humana, sociológica e filosófica.

Talvez seja necessário reconhecer que o filme cumpre, em grande medida, uma função social da maior importância, que é a revelação desse pensamento de origem fascista e psicótico impregnado na população que hoje faz a defesa de tais práticas para o combate da violência, supostamente crescente, a que somos submetidos.

Mas o comportamento psicótico gerado por tal obra não permite mais a defesa e o discurso que busca desvirtuar o real conteúdo do filme.

Evidente que muitos podem alegar que os filmes de conteúdo violento sempre seduziram o público, como os tão repetitivos “enlatados” hollywoodianos do padrão “Rambo”. Porém é inegável que nenhum dos tais filmes jamais provocou ta comportamento psicótico tão descarado em jovens tidos como normais. Também, nenhum outro filme provocara discurso tão raivoso e tamanha justificação da violência generalizada contra o “estereótipo” do criminoso, curiosamente o mesmo estereótipo do pobre urbano.

Resta, assim, evidenciado mais uma vez, o conteúdo altamente psicótico e fascista do filme, em sua pregação por uma “limpeza social” e de criminalização do combate à violência institucionalizada. E cegos, muitos dos que deveriam gritar mais alto contra a “glamourização” das atrocidades cometidas diariamente contra as populações carentes, ainda se calam ou defendem, no mínimo, uma suposta “inocência” do comportamento de qualificação como inimigo daqueles cuja classe social não domina o aparelho repressivo.

Realmente, os psicopatas, ainda mais quando a serviço de um discurso fascista, seduzem multidões. E talvez isso nos sirva para inocentar os alemães e italianos que deixaram-se seduzir por Hitler e Mussolini, provocando uma das maiores tragédias do século XX, visto que os brasileiros, em sua maioria, parecem estar a reproduzir a mesma lógica social que levou tais assassinos ao poder na Europa.