segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O conflito Israel – Palestina e o terrorismo no Oriente Médio

Há muito nós temos falado acerca da forma como se define o terrorismo e o enquadramento feito pela mídia em geral.


No caso do conflito Israel – Palestina a realidade não poderia ser outra.


Nessa semana, como fartamente divulgado pela imprensa, o grupo palestino que controla a Faixa de Gaza, o Hamas, encerrou o cessar – fogo celebrado com Israel, promovendo um ataque contra território Israelense. Saldo do ataque, segundo fontes do próprio governo israelense: 1 morto.


A “resposta” de Israel foi imediata, lançando uma ofensiva contra a Faixa de Gaza e mesmo preparando uma invasão. Saldo dessa operação israelense até o momento: 296 mortos, sendo 180 militantes do Hamas e 116 civis inocentes, entre mulheres e crianças.


Segundo a Ministra do Exterior de Israel, candidata à cadeira de Premiê, o número de palestinos mortos seria até baixo.


Não há sequer necessidade de comentar a situação, a desproporção do ataque de Israel e o caráter terrorista do mesmo. Nem mesmo precisamos lembrar que trata-se de uma operação genocida, uma verdadeira “limpeza étnica”.


Não bastasse uma operação de tamanha envergadura e que faz tantas vítimas, a própria política de Israel para a região não deixa alternativa de fuga para aqueles que desejam escapar da morte.


A saída dos palestinos para o Egito está fechada, inclusive em razão de acordos e mesmo em razão de o Egito não suportar mais o êxodo de refugiados palestinos em seu território. De tal forma, aqueles palestinos desesperados que ainda tentam passar por algum túnel clandestino, ou tentam passar por algum buraco no muro, são recebidos a bala, mortos ou presos e mandados de volta para seu território, para a morte.


Do outro lado, o cerco israelense à Faixa de Gaza é absoluto, não havendo qualquer possibilidade de um palestino deixar a região para fugir do conflito.


A tragédia social ainda se amplifica, pois os inúmeros feridos que conseguiram escapar da morte não encontram socorro adequado. Os hospitais já estão todos lotados. E mesmo aqueles que conseguem um leito se deparam com a completa falta de suprimentos médicos ou alimentação, resultado do longo bloqueio israelense imposto àquele povo há muito.


Como alternativa ao bloqueio, os palestinos ainda contavam com rotas de contrabando de suprimentos, que passavam por onze túneis clandestinos. Todos os onze, já no início da ofensiva, foram destruídos.


Simplesmente não há forma de aqueles palestinos escaparem da brincadeira de tiro ao alvo com mísseis e tanques, praticada por Israel. A eles só resta torcer e rezar, contar com a sorte.


E diante de tal realidade, o máximo de reação da comunidade internacional, representada pelo Conselho de Segurança da ONU, foi se manifestar em defesa de um novo cessar fogo e de novos diálogos de paz. Nenhuma censura à ofensiva militar israelense.


Apesar de toda essa situação, alguém poderia questionar: “mas foi o Hamas que acabou com o cessar fogo, realizando ataques contra Israel, que apenas reagiu”. Não é a realidade.


Durante toda a vigência do cessar fogo, Israel não deixou de realizar incursões militares e ataques contra supostos “alvos terroristas”. Nesse período a média de palestinos mortos por forças israelenses foi superior a dois por dia.


Além desse fator, a promessa de deixar chegar suprimentos à Faixa de Gaza, parte do acordo de cessar fogo, jamais foi cumprida, tendo sido mantido o embargo nos mesmos moldes de antes.


De tal forma, temos que o acordo de cessar fogo jamais foi válido para Israel, mas apenas para o Hamas.


Diante disso conclua-se: quem são os maiores terroristas, os fanáticos militantes do Hamas, ou o sionista Estado de Israel?

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Retomando as atividades

Desde junho de 2007, quando iniciamos a construção deste espaço, algumas mudanças de rumo foram marcantes.


O Pensamento Crítico foi criado com o objetivo de ser um espaço para a elaboração de idéias e análises críticas da realidade, divulgação de informações relevantes sobre a sociedade sob um olhar crítico.

Em alguns momentos tomamos caminho diverso, focando a produção em sentimentos, emoções e tantos outros temas, ainda que importantes, que estavam em outra ordem.


Após esse período de busca de uma identidade real e concreta deste espaço, foi cumprindo seu objetivo original que o Pensamento Crítico se consolidou.


Não é exagerada pretensão dizer que o Pensamento Crítico tornou-se, por algum tempo, algo muito maior do que o pretendido.


Em início, a idéia era construir um “armazém de idéias”, também como um espaço para disponibilizar para amigos e conhecidos um pouco de uma compreensão de mundo, não disponível nos meios de comunicação de massas.


Entretanto, após algum tempo e com um pouco de trabalho, chegamos a ter picos de mais de 400 leitores em um único dia, tendo uma média superior aos 100 leitores/dia. Foi algo surpreendente e gratificante.

Infelizmente, por diversas dificuldades que a vida nos traz, manter um espaço com uma produção diária, com tantos projetos em andamento, tentando dar-lhe alguma qualidade, nem sempre é possível. E nesses momentos o desânimo torna difícil até mesmo manter o possível.


Com isso muitos projetos que estavam em andamento ficaram inacabados, como o histórico das FARC, a análise sobre o julgamento de Simon Trinidad, o acompanhamento do desenvolvimento das transformações sociais na America Latina, dentre outros. Ficaram inacabados, mas não esquecidos.


Ao final deste ano de 2008, período extremamente positivo em termos pessoais, reaparece a necessidade de contribuir com as lutas e as necessárias análises sobre a realidade, ainda que modestas, necessárias neste vácuo de vozes populares que enfrentamos mundo afora.


Fruto deste sentimento de necessidade, informamos aos amigos, que fizemos durante todo esse tempo, que o Pensamento Crítico está retomando, gradualmente, seu regular funcionamento, onde tentaremos atualizá-lo diariamente, com temas importantes e análises críticas acerca da realidade.


O Pensamento Crítico está de volta e espera contar com a habitual colaboração e contribuição de todos os que nos acompanharam, como também de todos aqueles que esperamos conquistar daqui pra frente.


Muito obrigado a todos!


A pequena vendedora de fósforos

Caros amigos


Neste dia de natal, onde certos sentimentos afloram, mas onde muito mais se mostra o espírito consumista, uma história que acabei de conhecer foi capaz de mexer realmente com meus sentimentos.


Deixo-os aqui com esse maravilhoso conto, de triste história, com espírito tão real e realista.


Reflitam:


Hans Christian Andersen


Fazia tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.


Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.


Sentou-se no chão e enrolou-se ao canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.


Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.


«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»


Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!


— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.


Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços, e soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.


Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.



quarta-feira, 11 de junho de 2008

Dia dos Namorados

Atravessando as principais ruas da cidade, percebi o clima do dia dos namorados.


Não, não vi casais apaixonados aos beijos e abraços, lindas jovens carregando seus buquês de flores, velhos casais relembrando os velhos tempos daquela paixão arrebatadora, sorridentes rapazes ruborizados fazendo eloqüentes declarações de amor.


Não vi nada disso.


Vi algumas filas em lojas de celulares e lojas de bijuterias. Vi algumas jovens olhando vitrines tentando adivinhar aquilo que receberiam de presente mais tarde. Vi alguns jovens contando seu salário dos próximos doze meses para planejar o pagamento das prestações do novo aparelhinho de comunicação da moda.


Já posso imaginar as filas gigantescas e a espera de mais de uma hora nos restaurantes "populares-chiques" de minha cidade essa noite. As broncas dadas ao garçom pelo namorado valentão nos antros da alta roda. A irritação dos operários das bandejas com o extenuante trabalho extra que pouco ou nada lhe rende a mais.


Já vejo a fila de carros em frente aos motéis, onde alguns fazem a volta rapidamente para não serem vistos. Vejo também os jovens de classe média sem dinheiro para comprar um carro, fazendo-se de desinteressados nas imediações da região dos motéis centrais, esperando por um casal que lhes dê a vaga com a qual eles tanto sonham.


Estou a me lembrar dos solitários que presenteiam a si mesmos nesse dia.


Observo tudo isso e não posso deixar de notar que ainda não vi aquele amor romântico, poético, desinteressado, que nada pede em troca, exceto o próprio amor.


Mais do que nunca, tenho a certeza, privatizamos e transformamos em propriedade e consumo até mesmo o amor.


Feliz dia dos namorados ao grande mercado.

terça-feira, 15 de abril de 2008

CARTA DE PRAIA GRANDE


Nota Política do Comitê Central do PCB, por ocasião da Conferência Nacional de Organização do PCB, realizada em Praia Grande, de 21 a 23 de março de 2008

Aos trabalhadores brasileiros

O capitalismo, a cada dia, mostra com mais clareza a sua real face: os capitais circulam livremente pelo mundo, apoiados por políticas neoliberais, gerando riquezas que se concentram cada vez mais em menos mãos e impondo, em toda parte, a precarização do trabalho, a redução do poder aquisitivo dos salários, e a perda de garantias sociais e de direitos trabalhistas.

O capitalismo vive mais uma crise, gerada, principalmente, pela queda da economia americana, que pode alastrar-se por todo o mundo. As respostas do capital à crise são conhecidas: mais exploração dos trabalhadores, mais desemprego, mais destruição do meio ambiente. Para os Estados Unidos e seus aliados, a guerra e as agressões armadas a países soberanos são também uma solução para as crises. Com a guerra, estes países podem vender armas e saquear as riquezas naturais dos povos.

Mas crescem, também, as respostas da classe trabalhadora a este quadro, em várias partes do mundo. A América Latina vive um momento histórico: nossos povos já não aceitam as políticas neoliberais. Estas políticas vêm sendo derrotadas por ações de mobilização de massas, por processos eleitorais e, em alguns casos, pela insurgência e pela violência revolucionária; Equador, Venezuela, Bolívia e Nicarágua têm governos que romperam com o neoliberalismo e com as pretensões hegemônicas dos Estados Unidos; na Venezuela e na Bolívia, em particular, os trabalhadores se organizam, participam das decisões políticas e constróem um caminho para o socialismo. É fato relevante que as recentes vitórias eleitorais de frentes antiliberais e de esquerda, na América Latina, que levaram a mudanças sociais efetivas, foram aquelas em que o processo eleitoral foi gerado e respaldado pelo movimento de massas.

A inadmissível invasão ao Equador pelo governo fascista da Colômbia, apoiado pelos EUA, foi um triste exemplo do desespero do governo norteamericano e das oligarquias locais frente aos avanços sociais que vêm se acumulando nestes países. Os EUA e as oligarquias colombianas precisam da guerra para manter seu domínio. No entanto, as pretensões hegemonistas estadunidenses encontram cada vez menos apoio em toda a região, como prova a derrota dos EUA e da Colômbia na recente reunião da Organização dos Estados Americanos - OEA -, que condenou a agressão ao Equador por 33 votos a 2.

O PCB dá sua solidariedade militante ao processo revolucionário e às lutas antiimperialistas na Venezuela, na Bolívia, no Equador e em outros países. Apoiamos os esforços do Presidente Chávez, no sentido de considerar as FARC como força beligerante e evitar uma guerra entre países irmãos. Repudiamos o governo fascista e narcotraficante da Colômbia, lacaio dos Estados Unidos, que apóia a intenção de Bush de transformar a Colômbia em uma grande base militar para desempenhar, na América Latina, o mesmo papel que Israel desempenha no Oriente Médio.

Prestamos nossa homenagem ao Comandante Fidel Castro e à revolução cubana, que segue firme na consolidação do socialismo. O PCB se empenha para que a luta dos povos contra o imperialismo leve à superação do capitalismo, na conquista de uma sociedade sem explorados nem exploradores: uma sociedade socialista, na perspectiva do comunismo.

No Brasil, o capitalismo se reorganizou e se integrou, de forma subalterna, à economia mundial. As empresas brasileiras se internacionalizaram, são controladas, em sua maioria, por capitais estrangeiros, e se expandem para o exterior, como transnacionais. No caso dos países da América Latina, as ações das empresas brasileiras revelam a intenção da burguesia brasileira de exercer hegemonia política na região, num papel sub-imperialista. Esta reorganização do capitalismo, apoiada pelas políticas neoliberais voltadas para a facilitação da circulação dos capitais, proporciona um certo grau de crescimento econômico gerado pela abertura dos mercados. Este crescimento, entretanto, é de natureza desigual, que concentra a renda e oferece empregos mais e mais precarizados.

O governo Lula é um governo voltado para os interesses do capital. Lula dá continuidade às reformas neoliberais, diminuindo direitos trabalhistas - com a reforma fatiada desta legislação - e previdenciários ao mesmo tempo em que favorece os banqueiros e o grande capital. Nunca houve tanto lucro para os bancos, para as empresas comerciais e industriais. Nos últimos anos, a reforma agrária recuou, tendo sido fortalecido o modelo agroindustrial exportador.

Voltada para a manutenção das condições de exploração do trabalho pelo capital, a política econômica sequer consegue baixar as taxas de juros para acelerar o crescimento e expõe o Brasil à crise que se avizinha. A contrapartida oferecida aos trabalhadores resume-se a bolsas de subsistência e a alguns poucos programas sociais de pequeno alcance.

Mas os trabalhadores brasileiros também vêm se mobilizando, vêm resistindo e barrando tentativas do governo de retirar seus direitos. O PCB participa da organização da INTERSINDICAL como um instrumento de intervenção dos trabalhadores contra os desmandos do capital. Propomos a realização de um grande Encontro Nacional da Classe Trabalhadora - o ENCLAT - para unir todos os segmentos da classe trabalhadora e todas as organizações que os representam, no rumo da construção de uma central sindical unitária para elevar o patamar da luta de classes no Brasil.

O PCB faz oposição independente e de esquerda ao governo Lula. Propomos a Unidade dos Comunistas e uma frente política formada por organizações políticas e sociais populares que seja uma alternativa de esquerda ao governo e ao capital.

O PCB defende a unidade da classe operária, dos trabalhadores da cidade e do campo, da juventude e da intelectualidade, na construção de um bloco histórico que mude os rumos do Brasil, em direção ao socialismo. Para os comunistas, só uma sociedade socialista pode garantir uma vida digna para o nosso povo.

Toda a solidariedade aos governos progressistas da América Latina Nenhum direito a menos para os trabalhadores. Avançar nas conquistas Todo apoio à causa Palestina
Fora Estados Unidos do Iraque e do Afeganistão
Pela Unidade dos Comunistas
Viva o Socialismo
Viva o Comunismo
Nosso tributo ao Comandante Raúl Reyes

Viva o 25 de março, Viva os 86 anos do PCB
Viva O PCB

O caso Isabella e o jogo de cena das "novelas jornalísticas"

Dessa vez estou correndo sério perigo. Perigo duplo, diga-se de passagem.

Recebi a presente entrevista por e-mail, que supostamente seria do Terra Magazine.

Por seu conteúdo extremamente relevante, não resisti e sou obrigado a publicar. Aí residem os riscos a que estou sujeito.

Se realmente for uma entrevista do Terra Magazine, corro o risco de responder pela reprodução não autorizada do material. Se não for, corro o risco de responder por atribuir-lhes a autoria de algo com o que talvez não concordem.

De qualquer forma, publico. Se pode servir para algo, deixo registrado os meus parabéns à publicação, caso realmente seja sua entrevista, pela qualidade e significância do tema abordado. Caso não seja, fique feliz por alguém poder imaginar que são capazes de algo de tão elevada qualidade.

Segue o artigo:

Claudio Leal

A morte de Isabella Nardoni, 5 anos, deu início a uma novela midiática à procura de desfecho. Em 29 de março, a menina morreu após uma queda da janela do apartamento do pai, Alexandre, na Zona Norte de São Paulo. A polícia investiga a autoria do crime e tem como principais suspeitos o pai e a madrasta de Isabella, Anna Carolina.

Há indícios de que ela tenha sido assassinada. Esse é o enredo central. O resto, segundo o antropólogo Roberto Albergaria, é a construção de uma novela "trágica" e "doentia".
Doutor em Antropologia pela Universidade de Paris VII e professor da Universidade Federal da Bahia, Albergaria critica os exageros da cobertura midiática e aponta uma abordagem "classista" e "racialista" do crime. "Porque é uma menina de classe média, bonitinha, e aí vem a estética", afirma.

- Há um lado doentio, e quem alimenta essa doença, que se tornou uma epidemia como a dengue, é a própria mídia. Porque há um viés "comunicacionista" ao se alimentar de forma mórbida uma história trágica. E transformar essa história trágica numa novela, no mesmo estilo das novelas das grandes televisões: mexicana.

Reviravoltas, vídeos da menina, sangue nas camisas, testemunhas surpreendentes (o garçom do bar em que a tia de Isabella estava no dia da morte), os parentes, os vizinhos (personagens fatais na obra de Nelson Rodrigues), compõem o painel da novela. Para Albergaria, o crime virou "metade da pauta da mídia durante semanas e semanas".

- O caso da menina veio a calhar para a mídia porque junta todas essas determinações: o classismo, o racialismo, o infantilismo... E, sobretudo, o "comunicacionismo", uma das coisas mais doentias que existe hoje. É você explorar algumas misérias, seletivamente, como forma de emocionar as multidões.

O antropólogo enxerga outra distorção: ajudada pelo mistério, a novela em que se transformou o caso Isabella vale mais do que os fatos, e tira do debate público temas mais relevantes.

- A mídia é o grande filtro. O espaço ocupado por essa menina é o espaço retirado de coisas muito mais importantes para a vida coletiva. Mas isso é um fato emocionante. A emoção vale mais do que a razão. A novela, o enredo, vale mais do que o fato - analisa Albergaria.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Terra Magazine - Como o senhor analisa a cobertura do caso Isabella na mídia? Os vizinhos, a tia, a roupa, o sangue, os vídeos... Há um lado doentio nesse interesse minimalista?
Roberto Albergaria - Há, sim. Há um lado doentio, e quem alimenta essa doença, que se tornou uma epidemia como a dengue, é a própria mídia. Porque há um viés "comunicacionista" ao se alimentar de forma mórbida uma história trágica. E transformar essa história trágica numa novela, no mesmo estilo das novelas das grandes televisões: mexicana. É você transformar um fato, evidentemente grave, em metade da pauta da mídia durante semanas e semanas. Até que apareça outro. Não é uma questão puramente brasileira. É como aconteceu na Europa com o caso Madeleine. Por que essa menina foi escolhida como a bola da vez, a coitadinha da vez? Primeiro, porque já havia o modelo europeu. O caso Madeleine é alimentado por jornais sensacionalistas ingleses. Houve até recompensas. Segundo, ela é, digamos assim, "a vítima ideal". Porque há um viés classista.

Por que classista?
Porque é uma menina de classe média, bonitinha, e aí vem a estética. Se ela fosse muito feia, se ela fosse um pequeno "canhão", não daria. As revistas semanais escolheram as fotos mais fotogênicas pra ressaltar isso.

E não é um caso, aparentemente, para um Sherlock Holmes...
É isso. Não existe mais muita diferença entre o jornalismo e a ficção, entre a novela e o jornal das 20h. O tratamento dado a um fato verdadeiro é o mesmo dado a um fato novelesco. Vão fazer render esta novela com todos os ingredientes possíveis. Aí entra o que eu chamei de viés classista. Ela é uma menina de classe média, branquinha. Na maioria dos Estados brasileiros, sobretudo aqui na Bahia, onde você tem uma maioria negro-mestiça, uma menina branca vale mais do que uma menina negra. Do ponto de vista dos Estados nordestinos, há esse lado racialista. A mídia dá um centímetro para as meninas negras que morrem.

Há muitas mortes de crianças na epidemia de dengue no Rio.
São geralmente crianças pobres. A mídia pega um caso de pobre e dois de ricos. Mas, no Rio de Janeiro, não há o elemento do mistério. Há a política. O que as pessoas querem é o filtro do mistério, da novela, da descoberta... Pra você entender esse caso, há um concurso de causas e circunstâncias. É um infanticídio. Na sociedade ocidental, o infanticídio é um pecado, uma falta muito forte. A possibilidade de ela ter sido morta por um dos pais é também um elemento de grande emoção para o público telespectador caseiro. Hoje se dá muito valor às crianças. Antigamente elas não eram importantes.

Quando é que nasce a valorização da infância?
Nasce no século XVIII, com o mundo burguês. A criança se tornou o menino-rei, o núcleo simbólico da família nuclear burguesa. Antes, nas famílias aristocráticas, nas famílias pobres, você tinha unidades familiares com vários filhos. A perda de um filho era a perda de um único filho, não fazia tanta falta quanto iria fazer no mundo burguês, que tem no filho o futuro daquela unidade familiar. Além disso, eram poucos os filhos. Agora, há o filho único. Então, há esse viés infantilista, ou juvenicista, que tem a ver com a própria cultura contemporânea. O caso da menina veio a calhar para a mídia porque junta todas essas determinações: o classismo, o racialismo, o infantilismo - e o medo, o assombro, a tragédia do infanticídio. E, sobretudo, o "comunicacionismo", uma das coisas mais doentias que existe hoje. É você explorar algumas misérias, seletivamente, como forma de emocionar as multidões.

Qual é o grau de envolvimento dos jornalistas com essas tragédias?
O jornalismo passa a se envolver, no Brasil ainda pouco. Os jornais sensacionalistas ingleses chegaram a oferecer recompensas milionárias no caso Madeleine. É como se o jornalismo fosse parte dessa novela, parte integrante das investigações, das denúncias. Sobretudo na definição do que é importante para o telespectador, o ouvinte ou o leitor, ter como elemento de reflexão. A mídia é o grande filtro. O espaço ocupado por essa menina é o espaço retirado de coisas muito mais importantes para a vida coletiva. Mas isso é um fato emocionante. A emoção vale mais do que a razão. A novela, o enredo, vale mais do que o fato.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O telhado de vidro do PSDB

Estamos vivendo a segunda grande crise de denúncias contra o governo Lula, contra o PT. No entanto, assim como o primeiro, esse parece que não provocará nem arranhões ao governo, com o agravante de que agora pode provocar problemas justamente à oposição, que na pessoa do Senador Álvaro Dias, também conhecido por outros nomes na noite paranaense, parece ser o responsável pelo vazamento dos dados sobre gastos com cartões corporativos do governo FHC.

Diante dessa realidade em que o governo Lula parece quase inabalável, surgem inúmeras teses apresentadas na imprensa, sobretudo na imprensa paranóica (sentido psicanalítico do termo – falsa representação da realidade).

São cientistas políticos falando sobre o carisma de Lula, são revistas falando em manipulação da informação e da mídia pelo dinheiro, são órgãos da mídia falando em compra de apoio com programas assistenciais, dentre tantos outros argumentos que jamais atacam o centro da questão.

Diante dessa realidade, cabe apontarmos certas contradições internas do discurso apresentado, que reflete o grande dilema do discurso oposicionista que não pode atacar o centro das políticas do governo Lula.

Ao observar o discurso de que o governo estaria “comprando” apoio popular com os programas sociais, notadamente o “Bolsa Família”, verificamos que os veículos de imprensa que fazem tal acusação são os mesmos que apontam como real “criador” de tal programa o ex-presidente Fernando Henrique, o governo do PSDB. Torna-se necessário, portanto, questionar a razão de agora, o mesmo programa que tais veículos apontam como manipulador, não o ser antes, nem mesmo tendo servido para garantir a eleição do candidato de FHC na eleição presidencial de 2002.

Quando vemos referências e acusações sobre uma suposta manipulação da mídia, torna-se curioso vê-las reproduzidas pela Folha de São Paulo, pela Globo, pelo Estado de São Paulo, enfim, por todos os maiores veículos de comunicação do país. Será que eles estão falando de si próprios? E se estão, como publicam tais acusações sobre si?

Se a verdade não é verossímil por esses caminhos, devemos procurá-la por outros.

Durante o governo FHC as acusações corriam por outros caminhos muito mais sólidos.

Eram as privatizações a preço irrisório, as doações de recursos públicos aos bancos, a política econômica a privilegiar apenas o capital especulativo, os privilégios aos grandes grupos econômicos em detrimento do povo, a política contra a reforma agrária, dentre tantos outros pontos.

Se observarmos de forma mais detida, verificamos que na essência, a realidade do período PSDB e do período PT não se diferenciam em muito, com apenas algumas particularidades de estilo e agraciamento em maior ou menor grau aos componentes diversos daquilo que podemos definir como elite econômica, ou grupos de exercício do poder real.

A política econômica, elemento central da política de um país, determinante de todos os demais elementos políticos, continua basicamente a mesma, apenas com a mudança de alguns atores e diferenças de estilo de condução.

O desmonte da máquina pública não parou, apenas foi freado diante da constatação óbvia de que o ritmo antes imposto, já estava por prejudicar mesmo os setores econômicos interessados em seu fim, o que provocava prejuízos com gargalos de infra-estrutura, falta de capacidade de substituição privada em setores nos quais o Estado deixava de atuar, até mesmo por falta de pessoal, dentre outros. E não podemos esquecer que ponto fundamental era a grande insatisfação popular ocasionada pela velocidade do desmonte do Estado, o que já gerava grande pressão popular por mudanças, elemento que causava terror aos exercentes deste poder real.

Observe-se que o caminho trilhado pelo governo Lula não é de recomposição dos serviços públicos, mas apenas uma recuperação parcial a garantir uma sustentabilidade mínima. Também os salários e as condições de trabalho do funcionalismo, mesmo naquilo essencial para o exercício das funções, continuam sendo deixados de lado, tendo as reivindicações sobre tais temas até mesmo demonizadas. Mesmo as recentes contratações de funcionários, se bem observarmos, não recompõe nem mesmo os profissionais que deixaram o serviço público nos últimos 10 anos.

Podemos dizer que na verdade, o papel que cumpre o atual governo, é apenas o de correção de rumos, de consertar e corrigir os erros cometidos por seu antecessor, mas sem mudar o rumo, em um milímetro sequer. Não à toa, dos tão falados cargos de livre nomeação do governo federal, quase um quarto continua ocupado pelos mesmos nomeados nos tempos do governo FHC, além de termos em todos os escalões, inclusive ministérios, presidência do Banco Central, aqueles que já exerceram tais funções sob Fernando Henrique, ou faziam parte de seu grupo.

Assim vemos que a disputa entre governo e PSDB é apenas a disputa pelo direito de ser o executor da mesma política, a disputa para decidir quem é o melhor executor de uma política que parece ditada por alguma entidade superior, orientadora de ambos, como um patrão presente e tradicionalista.

É isso que nos leva à discussão sobre autorias de dossiês, acusações sobre cartões corporativos, infindáveis acusações mútuas, que nada representam nas questões de fundo dos rumos do Brasil. E é por isso que não vemos a discussão sobre a validade das parcerias público-privadas, terceirizações, política de desenvolvimento, distribuição de renda, ou qualquer outra política que realmente possa impactar positivamente nas condições de vida da população brasileira.

O PT elabora um dossiê, o PSDB divulga o documento para se dizer vítima e desgastar os agentes do atual governo, um Senador histérico e fanático por holofotes se apresenta à cena, a gritaria reina ao mesmo tempo em que temos a certeza de que nada muda.

O povo brasileiro precisa, urgentemente, construir uma verdadeira oposição política à nossa situação, à nossa realidade atual. Ou isso, ou mais do mesmo, até não mais podermos recuperar nosso país e construirmos um Brasil dos brasileiros.

sábado, 29 de março de 2008

Curitiba 315 anos: o que comemorar?

Ontem, minha querida e amada Curitiba completou seus 315 anos.

Eu passei apressado pelo local da comemoração oficial, desviando da fila que aguardava por um pedaço de bolo, observando, apesar da pressa, os detalhes daquela cena.

A partir da cena do ato oficial de comemoração, fiquei pensando sobre o que comemorar nessa data.

Nas filas gigantescas, à espera de um pedaço de bolo, eu vi pessoas de razoável aparência, com vestimentas razoáveis, feições não muito sofridas. Mas ao redor da fila, vi mães maltrapilhas, estampando o cansaço e o sofrimento nas faces, enquanto seguravam seus filhos de colo nos braços, numa cena desoladora. Ao redor, crianças com roupas sujas e rasgadas, olhando para tudo com um ar de perplexidade. Traço comum e marcante naquelas mães e crianças, era o olhar faminto com que fitavam os pedaços de bolo nas mãos dos outros.

Não sei se por ato de alguma autoridade, ou se apenas por um sentimento de exclusão provocado pela presença de autoridades e “gente tão fina”, mas eles simplesmente não tomaram parte na festa, não tendo direito sequer a um pedaço daquele bolo. Talvez depois que os outros comeram tudo o que queriam, tenha sobrado algo para esses curitibanos de “segunda classe”.

Nas extremidades da praça, sede da primeira universidade do país, alguns carrinheiros, apoiados em seu instrumento de trabalho, olhavam para a cena como se a não compreendessem. E realmente, acredito, não a compreendiam.

Nas escadarias da universidade, cercada por equipamentos de iluminação e de som, além de tendas, um coral de crianças entoava algumas músicas que eu jamais tinha ouvido. E ao mesmo tempo, um locutor com um som muitas vezes mais potente que o das crianças, anunciava que eram alunos de escolas municipais, ao mesmo tempo em que anunciava os 315 “gloriosos” anos dessa cidade.

As crianças, apesar das músicas que eu jamais ouvira, até que cantavam bem. Mas ninguém estava a lhes dar a mínima atenção.

O que pude notar, é que para aqueles carrinheiros, para aquelas mães pobres, para aquelas crianças que nem sabiam que podiam comer o bolo, não havia o que comemorar. Aquelas crianças correndo, apesar da vontade de comer, apenas não procuravam seu pedaço de bolo, pelo hábito de não terem direito a nada, de saberem que pedir algo para comer era um ato reprovável.

E aquelas crianças que cantavam. Elas estavam ali apenas para simbolizar a participação do povo da periferia. E o fizeram muito bem, pois por mais que cantassem, ninguém lhes dava atenção, assim como fazem com o seu povo, que por mais que gritem, não são ouvidos efetivamente por ninguém.

O que estavam a comemorar? Será que comemoravam o fato de os moradores da Vila Audi terem conseguido preparar sua sopa de papelão por mais essa noite? Ou estavam a festejar o povo das moradias Barigüi que esperam por uma creche? Ou seria a falta de escola no Tatuquara?

Seria talvez a comemoração dos trabalhadores da empresa municipal de urbanização, por seus salários próximos ao mínimo, enquanto assistem alguns de seus chefes receberem até 16 mil mensais para gastarem seu horário de trabalho no salão de beleza? Ou seriam os 45 concursados da companhia de desenvolvimento, por seus mais de 200 chefes comissionados com altos salários?

Talvez fosse a comemoração daquele assessor do meu prefeito do PSDB comemorando o salário de sua sogra, funcionária fantasma da Assembléia Legislativa, cujos rendimentos somaram mais de 500 mil reais, que ele prometeu repor, com um dinheiro que poucos sabem, mas sairá dos cofres públicos também.

Será que naquela praça estava Dalton Trevisan, para tão melhor mal dizer aquela festa da hipocrisia?

Talvez fosse o prefeito a comemorar o fim do circuito de bares alternativos, dos ambientes culturais populares, do boteco de meia dose, ao tempo em que florescem os recantos da elite, da juventude alienada.

Não sei ao certo. Mas sei que, diante da visível miséria de meu povo, do massacre contra a cultura de minha cidade, da repressão às expressões populares, da falta de comida na mesa de meus irmãos, do superfaturamento de obras, das profundas desigualdades sociais e dos meus irmãos que ocupam ares irregulares apenas esperando quando a guarda municipal irá despejá-los com o uso das armas, pouco ou nada pude comemorar.

O que comemoravam eles então?

terça-feira, 25 de março de 2008

PCB: 86 anos de história na luta pelos trabalhadores

O PCB, o nosso Partidão, comemora no dia 25 de março 86 anos de luta revolucionária pelo socialismo. O poeta Ferreira Gullar escreveu uma vez que quem quiser contar a história dos brasileiros e de seus heróis tem que falar do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ou estará mentindo. Fundado em 1922, o PCB comemora, no próximo dia 25 de março, 86 anos de existência, atuando como organização clandestina ou legal. Conhecido há décadas como “Partidão”, o PCB é o partido mais antigo em atuação no país, e um dos mais antigos do mundo.

Qual a razão dessa longevidade político-institucional? Como explicar a duração e a resistência dos comunistas ao longo do século XX e XXI, depois de tantas perseguições, inclusive com o assassinato de sua cúpula dirigente, nos anos da ditadura militar, e do fim da União Soviética e do socialismo real? Uma parte da explicação talvez esteja no fato de os comunistas do PCB constituírem um tipo de político que olha a prática e a teoria da política como uma dimensão do ideal de igualdade que, em sua visão, deve reger as relações entre os seres humanos.

Há uma espécie de fé ou de crença nessa dimensão, mas se trata de uma fé, por assim dizer, científica. Em uma época na qual muitos partidos são siglas de aluguel, os políticos são, em geral, vistos como interessados no poder para amealhar riqueza e fama, e a opinião pública, em sua maioria, rebaixa a atividade política em função do predomínio do mau político, os pecebistas sobrevivem acreditando na política como elemento de elevação do homem como ser coletivo.

Trata-se de uma visão generosa em uma época de forte relativismo na moral e na política. Para além da visão científica e dialética que informa sua teoria do capital, do trabalho e da política, os comunistas do PCB buscam praticar o que pensam – o que é significativo, dado que o espírito republicano requer a educação da cidadania pela ética do fazer e pensar a política.

Esta visão parece ser uma marca institucional do PCB ao longo dessas oito décadas e meia. Mas não é fruto do acaso. Há muita reflexão teórica que, conjugada com a prática em face dos desafios políticos, sociais e econômicos de cada época, renova aquele pensar e fazer a política como uma dimensão do coletivo.
Não queremos dizer que os comunistas do PCB são melhores. Houve erros de avaliação política, análises distorcidas e ingênuas do quadro social brasileiro, e as concepções idealistas sobre o caráter da revolução brasileira nos anos 60, no qual as teses do partido postulavam um papel de alinhamento da burguesia nacional na luta dos trabalhadores.
A longevidade do PCB pode ser explicada justamente em aprender com os erros próprios e alheios, como ensina a dialética marxista que baliza sua reflexão. O partido não abdicou de sua visão socialista e revolucionária da sociedade e da política nem quando um grupo conservador, nos anos 90, tentou extingui-lo e se apropriar da sigla, além da foice e martelo simbolizando a aliança entre o trabalhador do campo e da cidade.

Depois de 86 anos, o PCB, que teve entre os seus fundadores o pernambucano Cristiano Cordeiro, não tem hoje expressão eleitoral no Brasil. Mas não será por isso que se transformará em um coadjuvante das lutas políticas e sociais do povo brasileiro. Jamais morre um partido que acredita na política e no ser humano como meio e fim para a conquista de uma sociedade justa, baseada na democracia substantiva.

segunda-feira, 24 de março de 2008

As FARC política e as políticas das FARC – parte II

Como movimento de resistência, as FARC já traziam em sua origem o acúmulo de experiência da antiga resistência popular com participação liberal, que alcançou não apenas seu objetivo inicial de garantir a vida, mas também algumas conquistas, ainda que pontuais e transitórias, inimagináveis antes de tal movimentação.

Diante desse quadro, as FARC-EP, em sua formação extremamente plural, pôde analisar aspectos mais amplos para traçar objetivos não apenas táticos, mas estratégicos para a guerrilha, que agora não se via isolada em apenas uma região do país, num movimento defensivo. Essa nova organização, agora presente em todo o território nacional, contando com todo um leque de experiências da antiga resistência armada, que se somava às experiências de lutas de diversos movimentos sociais cujos líderes acabaram por se integrar à guerrilha, mais a experiência de atuação e organização política dos comunistas, agora podia vislumbrar a possibilidade de uma tomada popular do poder.

Tal realidade provocou extrema preocupação à elite dirigente do país, que viu-se, pela primeira vez na história, acuada pelas possibilidades de um amplo movimento popular que rompia com o monopólio da violência. E a guerrilha também provocou extrema preocupação aos Estados Unidos, que acabara de ver um movimento popular em armas tomar o poder em Cuba, ao lado de seu território.

A plena vigência da guerra fria, o recente êxito da revolução cubana, aliado ao extremo desespero das classes populares colombianas que agora se transformava, com a mesma intensidade, em esperança, acabou por jogar uma responsabilidade de grande monta sobre as FARC e seus dirigentes políticos, que se viram na posição central do conflito de classes e de interesses na Colômbia. Tal responsabilidade acabou por obrigar as FARC a buscar um intenso processo de elaboração política e formação de quadros, além da formação cultural e política intensa de todos os seus integrantes.

No entanto, a forte reação de extrema violência do Estado colombiano, dos paramilitares, dos traficantes que começavam a ganhar cada vez mais poder, agora somados à ação direta de tropas estadunidenses, levou as FARC a enfrentar novos desafios.

No aspecto militar, o desafio das FARC era o enfrentamento de um inimigo que a cada dia ganhava em força e ampliava a brutalidade de suas ações, não apenas contra a guerrilha, mas também contra as populações civis pobres, tidas como inimigos centrais desde sempre pela oligarquia colombiana. Além desse aspecto, a questão de domínio territorial mínimo se tornava um desafio, vez que se tornava imperativo para o desenvolvimento da luta uma ação de fincasse raízes políticas junto às populações nas áreas mais abrangestes possíveis, o que de certa forma restringia a tradicional forma de atuação extremamente móvel dos movimentos guerrilheiros.

Ao mesmo tempo, com a intensificação da ação terrorista do Estado e das forças para-estatais, a guerrilha via-se obrigada a lidar com um problema inusitado, que era a crescente procura de populares por integrar-se à guerrilha, após verem seus familiares e amigos assassinados pelo Estado, pelos traficantes, por forças estrangeiras, ou simplesmente serem desterrados pela “reforma agrárias às avessas”.

Nesse caso, o desafio era tanto o de garantir treinamento militar adequado aos novos integrantes, para não tornarem-se alvos fáceis para o inimigo, como também o de garantir a firmeza ideológica e moral do movimento, para não permitir desvirtuamentos ou problemas que afetassem negativamente o convívio entre os militantes, ou com as populações civis com as quais conviviam.

Nesse sentido, a guerrilha acaba por organizar-se numa estrutura militar hierarquizada, que no tocante ao cotidiano da luta armada acaba por adotar uma linha de rígida disciplina. No entanto, como uma organização eminentemente política e popular, acaba por construir uma estrutura política altamente participativa e democrática, na qual o auge acabou por ser as Conferências, realizadas de forma periódica e alcançando a participação de cada um dos membros da organização.

Ainda restava a ação política da organização fora das fronteiras das regiões de embates militares, que não deveria acontecer apenas pela atuação política do Partido Comunista. E assim as FARC passam a diversificar suas formas de atuação, inclusive mantendo dirigentes populares que buscava a guerrilha em suas lutas populares originais, ou mesmo buscando o intercâmbio com organizações populares e até deslocando muitos de seus militantes.

Com o desenvolvimento da luta, tanto no campo político quanto militar, torna-se cada vez mais necessário o desenvolvimento político da guerrilha, que agora já contava com quadros preparados, nos mais diversos níveis e nas mais diversas regiões do país. E assim a elaboração de políticas públicas da organização, além do desenvolvimento teórico e prático, em termos políticos, organizacionais e culturais, ganha cada vez mais destaque.

Nesse momento, a atuação da guerrilha ganha destaque, passando, apesar da forte atuação militar do estado, dos paras e dos EUA, a controlar grandes regiões do país, tendo sob seu controle, ainda que precário, inteiras cidades, onde torna-se necessário o desenvolvimento de políticas públicas.

Ao lado disso, as proporções numéricas da organização, a presença de famílias inteiras sob a organização da guerrilha, também leva à necessidade de uma infinidade de serviços, organização, questões que vão desde a educação e garantia de saúde, até os elementos mais básicos de sobrevivência, no que as FARC vão se tornando uma organização cada vez mais complexa.

Com as crescentes necessidades ao longo do tempo, além do papel quase que substitutivo do Estado em inteiras regiões, as FARC acabam por ver-se obrigadas a partir para a execução de tarefas anteriormente não previstas para o decorrer da luta, incluindo elementos que vão desde a cobrança de tributos, até a prestação de serviços básicos às populações.

Nesse período, o amadurecimento político constante da guerrilha e dos demais movimentos populares, além do próprio Partido Comunista, levam a luta a uma intensificação cada vez maior de seu papel político, que vai das lutas pontuais e conjunturais dos trabalhadores, inclusive em questões meramente econômicas, até lutas institucionais e mesmo a amplificação das relações internacionais.

No que se refere às relações internacionais, no entanto, a guerrilha passa a enfrentar seu maior desafio, visto a criminalização da organização pelos veículos de comunicação, através de um discurso unilateral do governo colombiano e dos EUA, que as vinculava aos cartéis de tráfico de drogas, que na verdade sempre combateram as FARC ao lado de soldados estadunidenses e colombianos. Entretanto, em diversos momentos, tal discurso perdeu força, com a vinda à tona de diversas vinculações dos chefes do tráfico de drogas com os governantes e com o Estado colombiano, o mesmo que combatia as FARC. Destaca-se, nesse aspecto, a forte ascendência e a alternância no poder dos dois maiores cartéis de drogas do país, o Cartel de Calli e o Cartel de Medellín.

Com o crescimento constante da guerrilha, as perspectivas de sucesso da luta tornam-se cada vez mais claras. No entanto, torna-se também clara a necessidade da vitória no campo político, visto não ser possível estabelecer uma vitória real, naquela conjuntura, apenas através das armas, ainda que sustentados por um amplo movimento popular com a participação direta e massiva das FARC. Ao mesmo tempo, a elite colombiana faz leituras diversas acerca da crescente disposição e pressão das FARC para garantir-se da transposição da luta armada para uma luta eminentemente política. Tais leituras vão desde uma análise de enfraquecimento da guerrilha, que já não ofereceria riscos reais no campo político, razão pela qual se deveria permitir sua institucionalização, até a análise de que seria mais fácil combatê-los, inclusive no campo militar, se eles estivessem atuando de forma aberta e institucionalizada.
(continua ...)

domingo, 23 de março de 2008

Um novo Paraguai está nascendo


Falta menos de um mês para o nascimento de um novo Paraguai, um novo país em que a democracia prevaleça, em que a voz popular possa ecoar e ser ouvida.

Há mais de 60 anos, o mesmo grupo político vem dirigindo o país. E não estamos aqui a falar em “mesmo grupo político” apenas no sentido de grupo de defesa dos mesmos interesses, como ocorre em quase toda a América Latina, mas de “mesmo grupo político” em sentido literal, numa espécie de apropriação absoluta do poder político de forma privada. Estamos falando do controle absoluto do Partido Colorado, tradicional representante dos setores mais conservadores do Paraguai. E é essa a realidade que atormenta aquele povo.

Não é preciso falar muito sobre o Paraguai para demonstrar a profunda tragédia social em que aquele país está mergulhado desde tempos imemoráveis. Não é necessário, portanto, dizer o quão nefasta é essa hegemonia política absoluta dessa oligarquia política colorada no Estado paraguaio.

É bem verdade que a tragédia social paraguaia tem raízes bem mais remotas, que nós brasileiros deveríamos melhor lembrar e conhecer, visto sermos dos maiores responsáveis. Estamos aqui falando do “Massacre do Paraguai”, erroneamente chamado em nossas terras de “Guerra do Paraguai”.

Apenas como rápida lembrança cabe apontar que tal massacre foi encabeçado pelo Brasil, sob as ordens da coroa britânica, contando com o apoio das armas de Argentina e Uruguai. Foi das maiores atrocidades da história até então, praticada por nossas forças armadas, no século retrasado, contra o país com economia e organização sócio-política mais avançada do continente.

Dessa chamada guerra, declarada sem razão pelo Brasil e aliados, sob ordens britânicas, sobra-nos a glorificação do banditismo facínora de Duque de Caxias, responsável pela política de extermínio de todos os paraguaios do sexo masculino, independente da idade, mesmo os recém nascidos ou nascituros, com o objetivo de dizimar aquela nação, impedindo-os de se perpetuar. E o responsável pelos massacres de homens, idosos, crianças, bebês e mulheres grávidas, como estratégia de extermínio, é ainda hoje o patrono de nossas forças armadas e dá nome a ruas, avenidas e tantas outras homenagens inimagináveis a qualquer um com um mínimo de bom senso.

Por outro lado, daquele criminoso episódio, restou aos paraguaios, donos do país mais desenvolvido do continente à época, o seu país arrasado, destruído, reduzido a escombros e sem sequer população suficiente para reconstruí-lo ou garantir a sobrevivência e reprodução daquele povo. Responsabilidade nossa, dos brasileiros.

A terra arrasada é sempre um lugar fértil para a proliferação do banditismo social, da corrupção, da opressão e das imensas desigualdades sociais. É comum nessas situações, o surgimento de pequenos grupos de indivíduos com visão individualista ao extremo, que inclusive buscam o apoio do agressor para ganhar em poder sobre o povo, destacando-se como dominante internamente e perpetuando a opressão, o massacre de seu povo. Essa história já vimos em tantos países ao longo da história, que nem mesmo é possível lembrar quantos.

E assim se deu com a história do Paraguai, que após a mais atroz agressão sofrida, viu-se dominado por uma reduzidíssima elite econômica e política, altamente opressora e ditatorial, extremamente subserviente a interesses estrangeiros.

Desde aquele momento, essa elite econômica e política foi aprimorando seus mecanismos de dominação e opressão, chegando ao modelo ditatorial sob organização partidária colorada, que dá as cartas no país de forma absoluta, abusando de expedientes violentos e criminosos. Não à toa, o Paraguai viu-se nos últimos tempos com presidentes assassinados, presos, depostos, envolvidos com crimes comuns, tráfico, roubo, assassinatos, dentre inúmeros outros crimes.

Foi sob tais práticas criminosas que o país vizinho viu um sem número de seus populares obrigados ao exílio, que para muitos já dura mais de 20 ou 30 anos, sem mais qualquer perspectiva de retorno. E foi sob esse regime que vimos o Paraguai submetendo-se de forma desavergonhada aos interesses estrangeiros, notadamente dos Estados Unidos e, subsidiariamente, do Brasil, que também atua de forma imperialista naquele país.

Trata-se, hoje, de um país que permite a instalação de uma base militar estadunidense, justamente em um dos pontos estratégicos para controle sobre o Aqüífero Guarani, maior fonte de água doce subterrânea do planeta. É o país que se deixou dominar pelo Brasil na construção da maior usina hidrelétrica do mundo, Itaipu, em que se viu destituído de sua soberania, obrigado a ceder o controle de suas águas e sua produção energética ao Brasil, para o qual é obrigado a vender, exclusivamente, sua energia por menos da metade dos preços de mercado ou os praticados no Brasil.

Nem só do controle por Estados estrangeiros padece o Paraguai, mas também pelo controle econômico estrangeiro privado, notadamente na questão agrária.

É o Paraguai um dos países de maior concentração agrária do planeta, com reflexos profundos na desigualdade social e mesmo no desenvolvimento econômico do país. Não fosse esse um grave problema por si só, some-se o fato de que o controle das grandes porções de terras agricultáveis do país sequer está em mãos dessa pequena elite econômica e política do país, sendo controlada, em verdade, pela mesma elite agrária brasileira, ou alguns de seus sócios.

Tal situação de absoluto controle privado brasileiro sobre as regiões agrárias do Paraguai leva aquele país à absurda situação de sequer ver internamente os recursos oriundos das culturas ali exercidas, não tendo sequer essa produção negociada em moeda paraguaia ou via sistema financeiro daquele país.

Temos então que as terras que lá produzem, com grandes extensões territoriais, acabam tendo sua produção comercializada através do Brasil ou exterior, com a movimentação financeira respectiva ocorrendo no sistema bancário brasileiro, sem que os recursos cheguem sequer a transitar pelo Paraguai, não rendendo divisas para o país, nem mesmo arrecadação concreta para os cofres públicos, em resumo, não gerando qualquer riqueza para o país. A esse país vizinho sobra tão somente o subemprego de bóias frias ou trabalhadores rurais não regulares, além dos camponeses desterrados, pelos mesmos métodos de pistolagem e grilagem que produziram as grandes concentrações agrárias no Brasil. Nem mesmo os poucos empregos qualificados no setor podem ser ocupados pelos paraguaios, que vêm tais vagas ocupadas exclusivamente por brasileiros ou outros estrangeiros, numa clara prática imperialista e de ocupação de uma parte de nossa elite econômica naquele país.

Somente esses elementos já explicariam a situação de absoluto caos social daquele país, sua miséria profunda e o extremo atraso sócio-econômico. Mas muitos outros elementos podemos acrescentar à lista, inclusive aqueles expedientes tradicionalíssimos para a manutenção e expansão do controle político sobre um povo, tais como a extrema deficiência educacional com altas taxas de analfabetismo, a fome endêmica que submete populações inteiras à necessidade de amparo social paternalista, o coronelismo, violência institucional, dentre tantos outros males que afetam gravemente aquela população.

Durante todos esses anos, sobretudo nos últimos 60 anos, mesmo no período mais intenso de lutas populares, entre as décadas de 1960 e 1980, coincidente com as lutas contra ditaduras em todo o continente, o povo paraguaio jamais esteve tão próximo de ver-se construindo um processo de libertação, como está agora.

A esperança do povo paraguaio surge com a entrada na vida política de um Bispo católico, ou seja, um representante de uma das instituições que, ao longo da história, mais ajudaram a legitimar o regime opressivo e repressivo naquele país.

Fernando Lugo é mais um paraguaio que nasceu de forma comum, em meio a uma realidade comum em seu tempo, ou mesmo nos tempos atuais, que não viram grandes evoluções sociais naquelas terras.

Um garoto pobre, nascido em uma família pobre e de forte tradição católica, do humilde município de San Pedro del Paraná, que muito cedo ingressa na vida religiosa, no Seminário dos Missionários do Verbo Divino.

Tendo atuado no Equador, como missionário, logo após seu aprofundamento de estudos voltou ao Paraguai, como Bispo na região mais pobre do país, onde voltou a ter contato com a realidade que lhe era tão familiar, da pobreza, da miséria, da exploração e da opressão.

Para um homem que não se deixa levar pelos encantos da riqueza, ou pela sedução do individualismo, tal experiência de vida, desde a infância pobre, até sua atuação em comunidades carentes, só poderia resultar no florescimento de uma consciência política de caracteres populares, movidos pelo amor ao próximo, o que levou Lugo a optar, mesmo a contragosto de Roma, pela Teologia da Libertação.

Se tal opção, em países como o Brasil já leva a uma atuação social intensa, no Paraguai, sob uma crise social muito mais profunda, com uma classe política altamente corrompida e um Estado altamente repressor, as necessidades de atuação política e social de Lugo tornaram-se muito mais amplificadas. E foi essa a realidade que permitiu o ressurgimento da esperança daquele povo.

Em 2006, Lugo veio a ser um dos principais líderes dos movimentos populares contra as políticas entreguistas, neoliberais e corruptas de Nicanor Duarte, transformando-se em uma das mais importantes vozes dos povos oprimidos daquele país. E foi pelo clamor popular que o caminho de Lugo passou a ser guiado, até que em 2007 deixou seu cargo de Bispo da igreja católica para dedicar-se à candidatura presidencial, submetendo-se à exigência que vinha do povo, das ruas.

Diante de sua candidatura presidencial, lançada pelo povo, a reação da oligarquia paraguaia foi imediata, tendo os setores conservadores e liberais buscando todos os recursos para impedi-la, até mesmo lançando mão do não reconhecimento do caráter laico do Estado paraguaio, afirmando que seu desligamento da igreja católica, exigência legal para possibilitar a candidatura de Lugo, não seria válido, visto que a igreja não reconhecia o direito de um Bispo desligar-se da igreja.

Outra marcante estratégia da oligarquia paraguaia para impedir uma possível vitória de Lugo nas eleições, foi a absolvição e a libertação do ex-presidente Lino Oviedo, responsável por massacres, magnicídio de Luís Maria Argaña, duas tentativas de golpe de Estado, dentre outras. A manobra se deu em razão de supostos dados de pesquisas e projeções, que avaliavam a penetração de Oviedo entre o mesmo eleitorado de Lugo.

Entretanto, apesar de todas as tentativas desesperadas da oligarquia paraguaia, há menos de um mês das eleições no Paraguai, Fernando Lugo aparece em primeiro lugar nas pesquisas, mais de 10 pontos à frente do segundo colocado.

É cada vez mais marcante na campanha de Lugo a forte mobilização popular, levada a cabo por uma ampla coalizão de forças que incluem quase a totalidade de movimentos populares, sindicais, sociais e traz desde o Partido Comunista Paraguaio, até o Partido Liberal Radical Autêntico, além de outros partidos de esquerda e centro e o movimento Tekojoja, do próprio Lugo.

Marcante também é o grande apelo popular de Lugo junto aos setores progressistas de outros cantos do mundo, que acompanham a realidade paraguaia, em clara demonstração de sua importância como elemento de esperança para o início de alguma mudança da dramática realidade social do país. Destaca-se, nesse aspecto, o explícito apoio do Governo do Estado do Paraná, em cuja fronteira extensa com o Paraguai se localiza a usina de Itaipu. Tal apoio, inclusive tem levado à participação direta do Secretário de Comunicação do estado na campanha de Lugo, que até o momento tem todas as características de crescimento contínuo, com uma larga dianteira.

Hoje, mais do que nunca, a sensação é de que o fim de uma tragédia, a tragédia social paraguaia, está próxima de seu fim. E parece muito próximo o nascimento de uma nova nação, agora livre e soberana, justa e com possibilidade de construção de um futuro digno.

Está prestes a nascer um novo Paraguai.

Invasões, Pontal do Paranapanema e MST


A região do Pontal do Paranapanema há muito se tornou o símbolo máximo da criminalidade no campo, da conivência das autoridades que não fazem cumprir a lei de forma adequada e dos meios de comunicação que silenciam diante de tantos crimes conhecidos por todos.

Naquela região as invasões tornaram-se a regra, não mais a exceção. E isso já tem tanto tempo que já nem é mais possível determinar quando começou. A lei, o direito, conceitos de civilidade e organização social simplesmente parecem não existir. E a situação alcança níveis de tão elevado absurdo, que os criminosos, aqueles que confrontam a lei de forma direta, passaram a ser apontados como os “mocinhos”, enquanto aqueles que simplesmente exigem o cumprimento da lei, a vigência do nosso Estado de Direito, passaram a ser criminalizados.

Hoje, após a vigésima ocupação de terras promovida pelo MST apenas neste ano, essa situação fica ainda mais evidenciada.

Talvez ao leitor mais desatento, ou menos informado, a impressão dada até aqui seja o exato oposto do que se está a demonstrar. A realidade de desrespeito absoluto da lei se dá justamente por aqueles que hoje, com extremo acesso à imprensa, clamam por justiça, mesmo sem por ela estarem amparados.

A região do Pontal do Paranapanema não é apenas mais uma, dentre tantas outras, de grandes concentrações agrárias, frontalmente contrárias ao estabelecido em nossa Constituição de 1988. Trata-se de uma região em que praticamente não existem propriedades rurais privadas, sendo a quase totalidade das terras de propriedade do Estado brasileiro, as chamadas Terras Devolutas.

São terras que jamais pertenceram a ninguém, portanto definidas como propriedade da União, mas que sempre foram cultivadas, em geral por famílias ou pequenos grupos sociais ao longo da história, em uma região extremamente fértil.

Por tais características, é uma região que chama a atenção de qualquer um que pretenda produzir no campo em larga escala, ou mesmo apenas especular com terras de grande capacidade produtiva. Evidente que terras com tais características chamaram a atenção daqueles mesmos que, por meio da pistolagem e outros expedientes nada aceitáveis em termos morais ou legais, construíram as grandes concentrações de terras no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Norte do Paraná, Sul de São Paulo, dentre outras regiões. E assim se deu.

A região de terras públicas altamente agricultáveis foi ocupada por titulares de grandes fortunas, que hoje se arrogam na posição de donos das terras. E o fizeram por meio das armas, do terror ou pressão.

Terras que, nos termos de nossa legislação, nos termos dos princípios constitucionais vigentes, deveriam servir à Reforma Agrária ou ao desenvolvimento do país por meio da pesquisa ou outros projetos, são hoje ocupadas, invadidas, por grandes latifundiários, inclusive mantendo grande parte dessas terras na absoluta improdutividade.

Diante de tal realidade de mais absoluto desrespeito à lei, é justamente o movimento acusado pela grande imprensa e setores conservadores como infrator da lei, a buscar as atenções e a ação do Estado como garantidor de nossas normas, de nosso Estado de direito: o MST.

Curiosamente, ao invés de denunciar a grilagem de terras públicas, a grande mídia que se diz independente acusa aqueles que fazem a denúncia devida e exigem a aplicação da lei, como se fossem os verdadeiros criminosos. E ao mesmo tempo, é essa a mídia que aplaude os governos quando esse decidem, ao invés de fazer a reforma agrária prevista em nossa constituição, doar essas terras públicas aos latifundiários que as grilaram, nas chamadas “regularizações de propriedade de terras devolutas”.

Parece que a própria UDR, entidade dedicada à organização de milícias terroristas que assassinam líderes camponeses já deu a solução, ainda que sem querer, para a solução desse longo conflito agrário: a aplicação da lei. Não a lei com que está acostumada nossa elite rural, que só se aplica contra pobres, camponeses, trabalhadores rurais, mas a lei de verdade, aplicada de forma imparcial, com a restituição de todas as terras públicas à União e sua conseqüente destinação legalmente prevista, prioritariamente à reforma agrária.

É mais do que hora de acabar com a criminalidade no campo, quase sempre cometida pelo grande latifúndio. É mais do que hora de acabar com a grilagem de terras, executada quase sempre por grandes proprietários, que agora está em vias de ser mais uma vez incentivada, com a “regularização” mais um bloco de terras fruto da grilagem na região do Pontal do Paranapanema. É mais do que hora de eliminar a pistolagem e seus troféus, consistentes na posse das terras públicas ou privadas conquistadas sobre o sangue de famílias de pequenos produtores.

Que se respeite a lei: faça-se a reforma agrária.

sábado, 22 de março de 2008

Um lacaio em busca de legitimação

Uribe segue a receita de confronto de Bush



Nada como um dia depois do outro: a reunião do Grupo do Rio, ocorrida na República Dominicana, em 07 de março, afastou o risco de guerra e evitou a ampliação de uma crise na América Latina, desencadeada pela violação das fronteiras do Equador por tropas colombianas em uma operação que resultou no massacre de um grupo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e a morte de seu interlocutor internacional, o comandante Raul Reyes. A Organização dos Estados Americanos já havia condenado, dois dias antes, a agressão ao Equador, considerada “um desrespeito às leis internacionais”. Solidificam-se, desta forma, os governos do Equador e da Venezuela, cujos processos de desenvolvimento com justiça social e ampla participação da população vem ocorrendo nestes dois países, assim como a Bolívia.

Uribe isolou-se: além da maior parte dos veículos de imprensa burguesa, o presidente colombiano só encontrou guarida na Casa Branca. Até mesmo o presidente do México, Felipe Calderón (eleito em um
processo evidentemente fraudulento, e que só conseguiu assumir a presidência por pressão do departamento de Estado dos EUA) condenou a ação colombiana.

Mas o que quer Uribe? A guerra. Sua resistência à abertura de diálogo com as FARC na Colômbia pode trazer como resultado a internacionalização do conflito. Uribe se tornou um fator de instabilidade na América Latina, ao manter a política de confronto. Para manter seu projeto de poder – submisso, diga-se com todas as letras a verdade, aos EUA – Uribe não pode recuar desta estratégia pois ele se legitimou politicamente como o homem que resolveria a guerra civil. E, sem guerra civil, não haveria como justificar a presença militar norte-americana na Colômbia, a manutenção da censura à imprensa, a exclusão social e o poder das oligarquias colombianas. Tampouco haveria condições políticas para Uribe pleitear um terceiro mandato, já mencionado, no Congresso, no bojo de um processo de discussão,
em curso, sobre a possibilidade de reformar-se a Constituição do país.

A iniciativa das FARC de liberar reféns unilateralmente vai contra este projeto, num claro e pacífico aceno ao diálogo institucional. Quem não quer esse diálogo? Quem fez de tudo para que a operação de soltura dos reféns terminasse em fracasso? Quem dificulta as condições para a libertação de Ingrid Bettancourt, que, uma vez solta, poderia se candidatar à presidência da Colômbia com índices elevados de popularidade? A resposta é simples e direta: Uribe, representante das oligarquias e dos interesses
dos EUA.

A agressão ao Equador e às FARC foi uma clara provocação contra o intercâmbio humanitário e contra a possibilidade de paz na região. Uribe agrediu, num só ato, as FARC, o Equador e a Venezuela. Agrediu toda a América Latina, todos os que lutam por paz e justiça social.

A resposta dos povos

Mas não se consegue enganar a muitos por muito tempo: no ultimo dia 06 de março, milhares de pessoas se manifestaram em homenagem às vítimas dos crimes de Estado que imperam na Colômbia e contra a invasão do Equador por tropas deste país. As ruas de Bogotá estavam repletas. Estes milhares de manifestantes disseram claramente que desejam a paz. Desejam a inversão de um quadro de extrema violência que se instalou na Colômbia.

Entre 1982 e 2005, milhões de pessoas foram deslocadas de suas casas e de suas cidades pelo exército colombiano e pelas milícias de direita que o apóiam. Há milhares de colombianos desaparecidos, entre os quais se incluem índios, sindicalistas, parlamentares de esquerda, membros da União Patriótica. Muitos foram torturados antes de morrer. Recentemente, foi assassinado, em território venezuelano, um dirigente
da Juventude Comunista da Colômbia, a JUCO.

Há que relembrar-se que, neste período, mais de 6 milhões de hectares foram tomados dos camponeses. Muitos grupos armados de direita mantiveram-se ativos mesmo depois de sua desmobilização oficial, em 2002 (chamam-se, agora, “águias negras”). Muitos representantes destes grupos estão em cargos públicos.

A população colombiana e internacional desconhecia estes fatos até recentemente, dada a forte censura à
imprensa exercida pelo governo sobre os meios de comunicação daquele país. Mas o tiro de Uribe saiu pela culatra: a mobilização popular e a movimentação dos governos progressistas da América Latina vão isolar cada vez mais o regime fascista colombiano, abrindo caminho para a paz, o diálogo e o desenvolvimento com justiça social na Colômbia.

sábado, 15 de março de 2008

As FARC política e as políticas das FARC – parte I

Nos últimos tempos, sobretudo em razão de trágicos acontecimentos, muito se tem falado a respeito do conflito colombiano e das FARC. Entretanto, interessante aspecto dessa abordagem é a mais completa ausência de uma análise histórica, ou mesmo de assimilação dos conceitos e percepções de origem popular sobre o tema. De tal forma, cumpre dar alguma contribuição, ainda que bastante rasa, tendo em vista a profundidade que o tema exige.

É comum, aos detratores da guerrilha colombiana, apontá-las como um grupo terrorista, criminoso, essencialmente militarista e completamente desvinculado do povo ou das lutas populares. E isso é um erro que só se sustenta em razão dessa completa falta de abordagem histórica da guerrilha.

Outra acusação comum é oriunda de setores ditos democráticos, de que as FARC, ou seriam criminosas e terroristas, ou de que se perderam em razão de sua limitação ao militarismo em essência, tendo que seu objetivo teria se transformado em apenas manter sua própria estrutura.

Poderíamos questionar tais teses a partir da análise das fontes de dados e informações que as sustentam. Podemos apontar que tais elementos são assim postos fora da Colômbia, ou nos grandes centros urbanos de predominância de uma classe média típica, que representa menos de 20% da população do país. E poderíamos apontar que as fontes de tais versões são plenamente identificáveis, basicamente em dois grandes veículos de informação, a Revista Semana, crítica aberta de todos os movimentos populares colombianos e do jornal El Tiempo, sob controle econômico de Francisco Santos, vice-presidente colombiano. Entretanto, deixaremos isso para um segundo plano, pois que a simples verificação da realidade histórica já nos basta à análise.

Sobre a essencialidade puramente militar da guerrilha, cabe lembrar sua origem, seu nascimento, na região de Marquetélia, há 44 anos atrás.

Desde 1946, sob o governo de Mariano Ospina Pérez, a Colômbia viveu sob um regime de puro terror, com os massacres cotidianos de trabalhadores e camponeses, de todos os militantes liberais e comunistas. Foi um tempo em que qualquer voz que denunciasse os crimes era calada definitivamente, como foi o caso de Jorge Eliecer Gaitán, o mais célebre combatente contra a política terrorista de então, brutalmente assassinado pelo regime.

Nesse período, dominado fundamentalmente pela ingerência de grupos econômicos privados estrangeiros nas áreas urbanas, enquanto dominavam os grupos de grandes latifundiários conservadores na área rural, foi marcante para toda a história posterior da Colômbia.

O domínio pleno, sem lei, de grandes latifundiários conservadores na zona rural, levou não apenas à violência habitual em situações de mesmo tipo, mas também à trágica experiência da “reforma agrária às avessas”, em que os pequenos proprietários e camponeses eram expulsos de suas terras à força, ou em caso de resistência eram assassinados com toda a família, tendo suas terras anexadas às grandes propriedades de então.

Foi nesse cenário que se formou uma aliança inusitada, fruto da necessidade urgente, do desespero popular, entre os comunistas e os liberais, para organizar a resistência popular, em defesa da vida desses camponeses e de suas pequenas propriedades de que necessitavam para a sobrevivência.

Tal aliança, evidentemente, teve grande força, conquistando inúmeras vitórias populares para a época, que hoje, no mundo dito democrático se diriam fundamentais. Mas as possibilidades de tal movimento estavam muito além dessas pequenas conquistas. Porém conquistas maiores não eram interessantes nem mesmo aos liberais.

Em 1953, com um golpe de Estado que levou Gustavo Rojas Pinilla ao poder, surge a promessa de pacificação do país, com a garantia de anistia, oportunamente aproveitada pelos líderes liberais de então. No entanto, grande parte dos liberais não aceitaram participar desse movimento, mesmo sem vislumbrar a manutenção da luta por meio das armas. Esse grupo se organiza na região de Marquetália e inicia um processo de desenvolvimento econômico agrário extremamente bem sucedido, com a participação, ainda que minoritária, também dos comunistas.

Em meados da década de 1960, essa experiência da região de Marquetália, que atingia um grau extremamente elevado de desenvolvimento agrário e econômico, em um modelo completamente diverso da tradicional propriedade, torna-se uma ameaça aos interesses dos conservadores e dos líderes liberais, que respondiam diretamente a grandes grupos financeiros, além dos interesses privados estadunidenses na região, garantidos por seu governo.

Nessa situação, volta a intensificar-se a violência paramilitar e militar contra os camponeses da região, só que agora já completamente abandonados pelos liberais, que deixaram os camponeses a eles ligados completamente abandonados.

Na rabeira da intensificação da violência, viu-se também a volta da política sistemática de “reforma agrária às avessas”, com o êxodo forçado de milhares de camponeses da região. Só que agora, como resultado da experiência de resistência anterior, os ataques aos camponeses deixam de ser tão fáceis.

Diante do completo abandono dos liberais à causa, são os comunistas que tomam a frente da resistência, tendo Marulanda, antigo líder camponês liberal, agora já nas fileiras do Partido Comunista, organizando, junto com outros 47 líderes camponeses, a resistência à violência estatal e paraestatal.

Tendo a resistência organizada, torna-se imperativo para os interesses dos conservadores, dos liberais e dos estadunidenses, o completo extermínio da mesma, no que em 1964 organizam uma missão de 16 mil soldados, bombardeios e todo tipo de forças paramilitares, com o único objetivo de exterminar os 48 líderes camponeses da região.

Nesse episódio de 1964, a resistência, ainda que sem uma vitória territorial clara, obtém uma significativa vitória ao frustrar, por absoluto, o objetivo do ataque, que era o extermínio da resistência. E o fizeram, dentre outras coisas, pelo levante em armas, na forma de guerrilha rural, que acabou por iniciar a vida e a história das FARC-EP, movimento que acabou por se espalhar por todo o território colombiano, sob sustentação dos comunistas, com a adesão de camponeses e trabalhadores de todo o país, vítimas do terrorismo de Estado e dos paramilitares, tendo adotado sua forma de organização e seu nome após a reunião de todas as frentes guerrilheiras, também na região de Marquetália.

Tal origem das FARC, sua forma de organização, de nascimento, aliada à sua composição popular, de pronto impedem qualquer possibilidade de entendê-la como organização essencialmente militar, pois é popular em sua raiz, em seu nascedouro, em sua formação real.

(continua...)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Marcha pela paz na Colômbia - Bogotá

La Jornada / Tradução Naila Freitas - Agência Carta Maior


CONTRA A VIOLÊNCIA DE ESTADO


Mais de 200 mil marcham contra Uribe na Colômbia




Jorge Enrique Botero - La Jornada


Em repudio às matanças perpetradas pelos paramilitares, milhares de colombianos protestaram contra o governo de Álvaro Uribe. Multidão chamou presidente de "lacaio imperialista". Jovens enfrentaram a polícia no fim do protesto. Pelo menos dez ficaram feridos.
BOGOTÁ - Como um rio furioso cujas águas tivessem estado represadas por anos, a maior multidão vista nos últimos tempos saiu às ruas de 21 cidades colombianas, no dia 6 de maço, para render tributo às vítimas dos paramilitares e de crimes de Estado.

Nesta capital, pelo menos 200 mil pessoas caminharam pela central Carrera Séptima rumo à Praça de Bolívar, que ficou cheia pelo menos três vezes ao longo de quase cinco horas, durante as quais os manifestantes lançaram duras críticas ao governo do presidente Álvaro Uribe.

As marchas que tinham sido qualificadas por altos funcionários governamentais como “de apoio à guerrilha”, foram uma verdadeira avalanche humana em que a maioria dos manifestantes acusou Uribe de ser aliado dos grupos paramilitares de extrema direita.

“Vamos à rua, derrubar o governo paramilitar”, gritavam centenas de estudantes da Universidade Nacional, enquanto milhares de trabalhadores de empresas estatais acusavam o mandatário colombiano de “fascista, lacaio imperialista”.

Organizadas pelo Movimento Nacional de Vítimas dos Crimes de Estado, as marchas tomaram um rumo inesperado quando os participantes se pronunciaram sobre os mais recentes acontecimentos políticos, incluída a crise diplomática com o Equador e a Venezuela. Inclusive, numerosos manifestantes marcharam ao grito de “Chávez sim, Uribe não”, no meio dos aplausos do grande público que se lotava cada lado da principal avenida da capital colombiana.

Jaime Caicedo, vereador de Bogotá pelo Pólo Democrático (esquerda) disse para La Jornada que a massiva mobilização era uma contundente resposta à idéia vendida pela mídia de que Uribe conta com o apoio majoritário dos colombianos. “Parece que os pesquisadores nunca perguntaram a opinião destas centenas de milhares de colombianos”, ironizou.

No cair da tarde, quando a manifestação na Praça de Bolívar já estava se dissolvendo, centenas de jovens tiveram um enfrentamento com a polícia, que literalmente tinha ocupado o centro da cidade. Os fatos derivaram para uma verdadeira batalha campal que deixou um saldo de pelo menos 10 feridos, vultosos danos em locais bancários e comerciais, e um número indeterminado de detidos.

Um dos organizadores da homenagem às vítimas, Iván Cepeda, filho do senador comunista Manuel Cepeda, assassinado em 1992, confessou para este correspondente que a magnitude da marcha superou suas expectativas e explicou que participaram, além de órfãos e viuvas, milhares de camponeses expulsos de suas terras pelas ações dos grupos paramilitares.

De acordo com cifras de organismos especializados, mais de quatro milhões de pessoas foram vítimas do êxodo forçado após centenas de massacres perpetrados pelos paramilitares. Atualmente, mais de 60 congressistas que apoiaram a eleição de Uribe estão presos ou são investigados por seus vínculos com os esquadrões da morte.

Cepeda acrescentou que também houve homenagens às vítimas dos paramilitares e dos crimes de estado em 150 cidades dos cinco continentes.

La Jornada entrevistou, também, um grupo de jovens associados ao movimento “Filhos e Filhas”. Alejandra Gaviria, cujo pai foi assassinado no início dos anos 80 na cidade de Medellín, disse que não permitirá que este crime seja esquecido. Explicou que até agora o assassinato de seu pai está impune. “Por isso, um dos nossos lemas é: nem perdão nem esquecimento, castigo para os assassinos”.

Também foram destaque nas marchas a grande quantidade de coloridas expressões culturais: pequenas representações da violência, música e dança.