segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

FARC-EP Preocupadas Com Segurança dos Prisioneiros

Com informações de Rádio Café Stéreo, El Tiempo e ANNCOL


O governo colombiano, desde o anúncio acerca da libertação de três prisioneiros em poder das FARC ao presidente venezuelano Hugo Chavez, intensificou suas operações militares, incluindo minuciosas varreduras em toda a extensão da fronteira entre Colômbia e Venezuela.

As FARC têm denunciado, há muito, os planos do governo colombiano de impedir qualquer solução pacífica para a questão dos prisioneiros. A tentativa de resgate dos 12 deputados do Vale del Cauca, em que 11 deles acabaram mortos por militares colombianos, foi exemplo dessa política. Segundo as denúncias, o governo Uribe está disposto a causar até mesmo a morte de todos os prisioneiros em poder das FARC, a fim de impedir que sejam libertados ou que qualquer negociação efetiva ocorra.

Além das operações militares assassinas, outro aspecto que reforça a denúncia, é a inflexibilidade de Uribe no processo de negociação. Uribe destituiu Chavez e Córdoba dos mandatos de negociadores exatamente quando as negociações avançavam em ritmo acelerado. Agora, com Sarkozy entrando nas negociações, Uribe se mantém inflexível quanto ao estabelecimento de uma zona desmilitarizada para as negociações e trocas de prisioneiros.

A zona desmilitarizada, na região que compreende os municípios de Florida e Padrera, é fundamental para a troca de prisioneiros e as negociações, por razões de segurança, tendo em vista o deslocamento dos prisioneiros e negociadores até o local. Exatamente por essa razão é que Uribe não aceita tal condição, pois que inviabilizaria suas operações militares que permitiriam o assassinato de membros das FARC e de prisioneiros, inviabilizando a continuidade de qualquer negociação de paz, o seu real objetivo.

Diante de tal realidade, de absoluta insegurança para o transporte de prisioneiros, a libertação de Clara, Emmanuel e Consuelo, que poderia ter acontecido antes do natal, pode ser adiada, com o objetivo de garantir a vida dos mesmos. Alguns veículos de informação chegam a apontar a possibilidade de suspensão das negociações e da libertação dos prisioneiros por parte das FARC, mas o histórico da organização guerrilheira, de cumprir integralmente com todas as promessas, não autoriza tal especulação, reforçando a certeza de que permanecerão em busca de uma rota de segurança para cumprir com a promessa de libertação, ainda antes do final do ano.

Agora, mais do que nunca, é necessária a atenção de toda a comunidade internacional, seja pressionando o governo colombiano, seja fiscalizando cada operação e cada movimentação militar, para impedir que as forças armadas atentem contra a vida dos prisioneiros e daqueles que fazem o seu transporte para garantir-lhes a libertação.

Mais uma vez, resta evidenciada a busca das FARC por garantir a vida e segurança dos prisioneiros, além de sua incessante busca pela paz. E mais uma vez fica claro o espírito belicista, terrorista e assassino do governo narco-paramilitarista da Colômbia, sob Álvaro Uribe, antigo funcionário do Cartel de Medelin e de Pablo Escobar.

Os familiares de prisioneiros, como o professor Gustavo Moncayo, continuam exortando o governo a aceitar um processo de negociação, que se tornou imperativo e inevitável após o anúncio de libertação de prisioneiros das FARC.

Ao povo colombiano e aos familiares dos prisioneiros, resta torcer pelo êxito da operação das FARC, pelo fracasso das intenções de Uribe e pela astúcia e habilidade dos guerrilheiros que conduzem os prisioneiros, para entregá-los em segurança em território venezuelano.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Fim de ano - um pequeno balanço

Fim de ano é momento de festas, mas também de refletir sobre o que ocorreu no decorrer do ano que se encerra.

Iniciei este espaço no mês de junho desse ano, depois de algum tempo sem escrever nada que fosse para divulgação, apenas documentos e textos dirigidos. A idéia, originalmente, era de mesclar algumas análises e informações sobre política, conjuntura, cultura, direito, sociologia, filosofia e alguma coisa de literatura, poesia, contos. Também foi pensado na hipótese de aproveitar esse espaço para reproduzir alguns dos artigos escritos para jornais antes da popularização da internet, alguns deles sem sequer minha assinatura nas versões impressas, mas sempre sob pseudônimos ou em nome de entidades. Ou talvez alguma parte dos mais de 500 artigos, contos e textos de meu arquivo.

Como pode ser verificado, o que ocorreu naquele início foi bastante diferente do objetivo inicial. Três artigos jurídicos iniciaram as publicações, ao lado de contos, poesias, prosas, crônicas e afins. E foi essa a tônica por algum tempo, talvez em razão de um ritmo imposto pela vida que levava à falta de tempo e paciência pra transcrever tantas idéias e análises. Assim os pensamentos descomprometidos, sentimentos e sensações dominaram as postagens naquele período. Houve quem gostasse. Mas eu não estava satisfeito, pois achava muito pouco.

Naquele início, pouca gente se dava ao trabalho de ler o que aqui era escrito. 10, 15 pessoas ao dia. Alguns dias apenas uma pessoa visitou esse espaço. Mas não era possível esperar outra coisa, afinal, se ninguém conhecia o espaço, não seria possível que ele fosse mais visitado.

Com o passar do tempo, o aprofundamento de outros trabalhos, o maior envolvimento com diversas atividades, acabaram por conduzir os pensamentos de forma cada vez mais concentrada nas questões políticas, sobretudo com relação à realidade vivida pelos irmãos latino-americanos que se encontram em processos de luta. Principalmente com o acompanhamento da ANNCOL-Brasil, suas dificuldades, seu retorno, suas baixas, suas conquistas, surgiu a necessidade de dedicar-se de forma mais profunda a esses temas. E assim chegamos ao ponto atual, em que contos, poesias e outros assuntos mais suaves foram deixados à margem desse espaço, apesar de ainda produzir alguns textos, que disponibilizo apenas no Recanto das Letras.

Essa radical alteração de foco de atuação provocou, igualmente, uma radical alteração do perfil dos visitantes desse espaço. A média de visitas que já superava as vinte pessoas ao dia, caiu drasticamente para não mais do que cinco ou dez. Mas isso não durou muito.

Temas como o conflito colombiano, o processo revolucionário venezuelano, as transformações na Bolívia, a propagação de pensamentos nazistas em nossa sociedade, a hipocrisia de nossa direita, passaram a ocupar quase todas as palavras. E tais temas, ao que parece, chamaram a atenção de muitos. Com isso, tenho a agradecer, profundamente, aos mais de 30 usuários que visitam esse espaço cotidianamente. E também aos mais de 4 mil que já passaram por aqui.

Foi empolgante observar que em certos momentos, quando surgiram determinados temas para o debate público, chegamos a 200 visitantes em um único dia. Alguns textos ultrapassaram as 300 leituras e alguns posicionamentos renderam até mesmo ameaças de morte contra o administrador desse espaço.

Destaco, apesar de temer cometer possíveis injustiças, o acompanhamento do referendo venezuelano, a falsa notícia acerca da morte do comandante da frente 16 das FARC, companheiro Negro Acácio, além da análise sobre o forte componente fascista do filme Tropa de Elite como alguns dos principais momentos aqui. Tivemos vários outros, é verdade. Talvez alguns tenham despertado até mais emoção, como escrever sobre os 40 anos da morte de Che Guevara, ou sobre os 32 anos da morte de Vladmir Herzog.

Espero que as análises, reflexões e informações aqui trazidas, que por vezes são as únicas a desmascarar certas mentiras compradas de sistemas de propaganda de fora do país, em alguma medida estejam contribuindo para a construção de um pensamento crítico, que é a proposta original deste espaço.

E como não poderia deixar de lado, quero registrar aqui alguns agradecimentos importantes:

Ao camarada Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro, do Parêmias Proletárias, meu querido amigo, a quem muito admiro e respeito. Talvez o principal responsável por me trazer a tomar a iniciativa de iniciar esse espaço, além de muito ter contribuído com o meu envolvimento em outras lutas, com idéias, orientações e encorajando sempre a dar continuidade à propagação de idéias. Espero que ele aceite esse sincero agradecimento, além de que ele retome o caminho de outrora, caminho que ele sabe ser o seu.

Ao companheiro e amigo Michael Genofre, do Cozinha do No Sense, que também deu sua contribuição, com críticas, dicas, indicações, algo que eu ainda não retribui da forma que deveria.

Ao companheiro e amigo Jefferson Tramontini, do blog Classista, que se disse inspirado nesse espaço para iniciar o dele. Companheiro que também tem dado imensa contribuição, apesar de recente, com comentários, indicações e citações, além de ser, ao que parece, um dos que acompanham este espaço cotidianamente. Espero poder retribuir no mesmo nível.

E finalmente, não poderia esquecer os amigos Marcus Pessoa, Diego Salmen, Rômulo Mafra e Fernando Pureza, com quem tentamos organizar bela homenagem a Che nos 40 anos de sua morte, iniciativa que não teve o resultado esperado em razão de iniciada tão próxima a data. Quem sabe não possamos retomar a idéia nos 50 anos, se nossos espaços sobreviverem até lá.


Enfim, espero que esse espaço esteja alcançando seu objetivo, além de prometer que, no ano que se aproxima, vamos nos esforçar ao máximo para dar continuidade ao presente trabalho, sempre buscando aprimorá-lo, mais e mais.

Os agradecimentos a todos que visitam esse espaço e um excelente 2008 à todos.

Muito obrigado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Desculpas Não Aceitas

Alberto Fujimori, ex-presidente peruano, pediu desculpas pelos massacres ocorridos durante seu governo, nessa sexta-feira, na sexta audiência de seu julgamento.

Segundo Fujimori, ele não sabia da quantidade de desaparecidos em razão da amplitude do conflito. Também disse que “doía em sua alma” saber das mortes. Na versão da defesa de Fujimori, o ex-presidente não tinha conhecimento das ações e jamais ordenou as matanças promovidas pelo grupo Colina, de seu assessor direto, nem dos seqüestros e assassinatos promovidos pelas forças armadas.

A imagem que a defesa de Fujimori tenta passar, de um presidente fraco, sem autoridade ou controle sobre nada que ocorria sob o seu governo, é diametralmente oposta àquela que acabou sendo a marca registrada de sua gestão, de presidente forte, com autoridade e capacidade de comando.

Sob o governo Fujimori a oposição foi quase dizimada, através de assassinatos, massacres, seqüestros e desaparecimento de inúmeros opositores. Fujimori acabou conhecido no mundo todo pelo episódio da ocupação e aprisionamento de cidadãos de inúmeras nacionalidades durante uma festa na embaixada japonesa no Peru, em que o embaixador era desafeto declarado de Fujimori. Na ocasião, quando os negociadores estavam prestes a obter a libertação dos reféns, Fujimori pessoalmente ordenara e liderara a invasão da embaixada, tendo todos os membros do Sendero mortos, com todos os prisioneiros liberados vivos, exceto, curiosamente, seu desafeto, o embaixador japonês.

Durante sua gestão, Fujimori não se constrangia em se apresentar publicamente como alguém que não pensava duas vezes em exercer sua autoridade ilimitada, garantindo a morte de opositores que buscassem o fim de seu governo, como fez por diversas vezes.

Agora, esse pedido de desculpas, acompanhado de tentativas de justificar os acontecimentos, soa aos ouvidos de vítimas e familiares de vítimas como demagogia pura, apenas estratégia de defesa absurda em um tribunal. E todos aqueles que acompanharam ou viveram aqueles anos de terror, mostram-se indignados diante de tal descaramento e de tal fraude histórica.

Com certeza, tal pedido hipócrita de desculpas, não será aceito por aqueles que até hoje choram seus mortos e desaparecidos, além daqueles que sofreram o terror da tortura nos porões do poder de Fujimori. E mesmo aqueles que apenas acompanharam os fatos, já não conseguem se conter de indignação diante de tamanha hipocrisia.

A realidade é que, indiferente do resultado de tamanho descaramento, a história já reservou o lugar de Fujimori ao lado dos maiores assassinos e terroristas da história, junto a Hitler, Mussolini e seus comparsas.

Mas o fato é que a América Latina, com tal julgamento, está tratando de curar suas feridas e livrar-se de parte da vergonha de sua história.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

FARC-EP Libertam Prisioneiros em Nome da Paz

Mais uma vez, as FARC demonstram sua extrema disposição ao diálogo e à paz na Colômbia. Há tempos buscando o apoio internacional para pressionar o governo Uribe por um acordo humanitário que permita a libertação de prisioneiros de ambos os lados do conflito, as FARC se aproximaram muito desse objetivo sob a mediação de Chavez e a facilitação da Senadora Piedad Córdoba.

As negociações estavam avançando a passos largos pelo lado das FARC, apesar de todas as dificuldades que o governo colombiano busca impor ao processo, com a inclusão de novas e absurdas exigências diariamente. No entanto, ao compreender que o acordo, sob a mediação de Chavez e a facilitação de Córdoba, em tudo que dependesse das FARC, seria inevitável, sobretudo em razão da pressão e do olhar atento da comunidade internacional, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, tratou de por fim ao processo de negociação, sem maiores explicações, cassando o mandato de negociadores de Chavez e Córdoba.

Porém as iniciativas pelo lado das FARC foram mantidas, intensificando a pressão sobre a comunidade internacional para que levassem o governo colombiano novamente à mesa de negociações.

No mesmo rumo, foi grande parte da comunidade internacional, seja com a reprovação declarada de muitos países, entidades e personalidades contra a atitude de Uribe, seja com o silêncio daqueles de quem o presidente colombiano esperava apoio diante de seu ato injustificado sob ordens de Washington.

Como mais um agravante à situação de Uribe, vieram os familiares dos prisioneiros em poder das FARC declarar seu apoio e confiança na mediação de Chavez e Córdoba, ao mesmo tempo em que denunciavam os crimes e objetivos inconfessáveis do presidente colombiano. Segundo os familiares dos prisioneiros, tudo indicava que os posicionamentos das FARC eram absolutamente confiáveis, além de ser certo que a mediação de Chavez e Córdoba estava obtendo resultados claros, no caminho inevitável da libertação dos prisioneiros.

Poucos dias após a desastrada iniciativa de Uribe pondo fim às negociações, vieram a público as provas de vida dos prisioneiros em poder das FARC, provando definitivamente o avanço das negociações que haviam sido encerradas abruptamente. Esse foi o elemento que faltava para a extrema radicalização dos familiares dos prisioneiros, como também para a amplificação sem precedentes da pressão internacional pela volta das negociações. Ainda assim Uribe se manteve inflexível, em razão de seus diversos interesses na manutenção do conflito e de sua obediência às ordens estadunidenses que desejam a manutenção de sua intervenção militar na região.

Mas tal pressão obrigou Uribe a buscar o ingresso do presidente francês nas negociações, que por sua vez elogiou a gestão de Chavez, convocou a participação brasileira e nicaragüense nas negociações, mais uma vez frustrando os planos de Uribe de fracasso do processo.

A última cartada de Uribe veio com a exigência de libertação de reféns, posto que colocou em dúvida a real intenção da guerrilha em libertá-los posteriormente. Uribe fizera tal exigência na certeza de que as FARC não a atenderiam, pois que é notório que sua própria intenção é de não libertar os prisioneiros em seu poder, o que se tornaria mais fácil depois que as FARC não tivessem mais nenhum prisioneiro para a troca. Mas Uribe subestimou o desejo das FARC pelo acordo humanitário e a inteligência do povo colombiano.

Nessa terça-feira, 18 de dezembro, as FARC divulgaram comunicado, assinado por seu secretariado, informando que serão libertados 3 dos prisioneiros, como forma de comprovação de sua disposição ao acordo. Os prisioneiros libertados serão entregues a Chavez, em data e local não divulgados por razões de segurança.

Comunicado foi enviado à agência de notícias Prensa Latina, com sede em Cuba, no qual constam os prisioneiros que serão libertados como sendo Consuelo González, Clara Rojas, assessora de Ingrid Betancourt, capturada junto com a mesma em 2002 e seu filho, nascido já no cárcere.

A libertação dos três prisioneiros põe fim a qualquer possibilidade de discursos que tentem imputar às FARC qualquer tentativa de inviabilizar as negociações, provando sua disposição para uma solução negociada para o acordo humanitário e para o conflito que já dura mais de 4 décadas.

O comunicado, além de dar essa feliz notícia para os familiares dos prisioneiros, comprovando os esforços da guerrilha em nome da paz, traz as manifestações das FARC quanto ao processo de negociação que se aproxima como inevitável.

Para a guerrilha, é indispensável para a efetivação das negociações a desmilitarização da região de Flórida e Pradera pelo período de 45 dias, para permitir a realização do acordo. As FARC rechaçaram qualquer possibilidade de aceitar a realização das negociações em locais ermos e remotos, como estava a propor o governo Uribe.

A nota ainda lembra que apesar dos discursos do governo em defesa da paz, seus atos têm apontado no sentido oposto, com a intensificação de operações militares e a oferta de recompensa em dinheiro para que guerrilheiros traiam os seus ideais.

As FARC ainda ressaltam a importância que teve a mediação das negociações realizada por Chavez, a quem agradecem por seu imenso esforço em defesa da paz, ainda que a continuidade de seu trabalho tenha sido barrada pela ânsia belicista de Uribe. A nota ainda classifica a atitude do governo colombiano, de cassar o mandato de negociador de Chavez de maneira abrupta, como um verdadeiro atentado diplomático contra o presidente e o povo de uma nação irmã, o povo venezuelano.

Finalizam as FARC, fazendo uma saudação e manifestando seu agradecimento ao presidente francês, Nicolas Sarkozy e aos presidentes latino americanos que têm manifestado sua solidariedade para com o povo colombiano, por uma solução pacífica para o conflito. Também uma lembrança especial aos familiares dos prisioneiros de guerra de ambos os lados, que anseiam pela libertação dos mesmos e pelo fim de seu extremo sofrimento, que começa a ser amenizado pelo ato de libertação promovido pela guerrilha.

Com esse ato e essas declarações, torna-se claro para o povo colombiano e para o mundo, de que lado estão os esforços por um acordo humanitário, pelo fim do sofrimento do povo colombiano e por uma solução pacífica e negociada para o conflito que assola o país a mais de 40 anos.

Espera-se que a paz, com essa demonstração de extrema vontade da guerrilha, esteja mais próxima, com as FARC podendo alcançar o seu objetivo principal que é a paz, que não permite revanchismos ou a volta dos massacres que a originaram na região de Marquetália nos idos de 1948.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Berzoini: O Capitão do Mato do PT

Para os trabalhadores rurais, os escravos, os que vivem em regime de semi-escravidão, os estudiosos da história, a figura do capitão do mato é bastante conhecida. Trata-se do responsável por fazer o "trabalho sujo" do patrão, para que o mesmo não precise se envolver no sangue derramado, nem com o constrangimento de levar o sofrimento aos seus subordinados.

Em diversos outros ramos de atividades temos figuras semelhantes. É o policial bandido que espanca o suspeito para arrancar-lhe as informações sobre outros membros do bando, o chefeta da empresa responsável por aterrorizar empregados para manter a disciplina, o braço direito do traficante que promove os julgamentos sumários e execuções a sangue frio.

Na política não é diferente, existindo os tarefeiros que executam o trabalho sujo para evitar que o nome do “patrão” seja envolvido na sujeira ocasionada pelos atos que julga necessário. No governo Lula e no PT, muitos foram os candidatos, mas Lula elegeu o seu capitão do mato predileto, que hoje ocupa reeleito a presidência do partido.

Berzoini foi o “homem forte” escolhido para representar o terror junto à população durante sua estada no governo. Na Previdência, diante de um desejo urgente do governo por redução nas despesas, foi Berzoini que protagonizou o caso do “recadastramento” dos mais idosos, que levou pessoas com mais de 90 anos às filas intermináveis do INSS, a fim de não terem seu mirrado sustento cortado.

Esse caso, como foi demonstrado na prática posterior, era completamente desnecessário, pois esse recadastramento poderia ser feito de diversas outras formas, como foi efetivamente feito depois. Mas a sutileza das atitudes nunca foi a marca registrada de um capitão do mato.

Tratava-se, naquela ocasião, de obter não somente um recadastramento e acabar com as fraudes que tanto sangram os cofres da previdência, mas de uma medida urgente com a finalidade de reduzir despesas e possibilitar a realocação de recursos para a remuneração da especulação com títulos da dívida pública. Os especuladores tinham pressa em ver seu lucro garantido da maneira mais generosa possível, tendo o governo igual pressa em atender-lhes a vontade. Assim, o capitão do mato atuou da forma mais rude e espalhafatosa possível, em método clássico de sua atividade, só não obtendo sucesso em razão de seu ato ter afetado a imagem do patrão. Mas o trabalho foi levado adiante de outra forma.

Os trabalhos sujos do governo ainda não haviam acabado. Portanto Berzoini continuava sendo indispensável. E lá foi o capitão do mato transferido para o Ministério do Trabalho, com a finalidade de empurrar goela abaixo dos trabalhadores as reformas trabalhista e sindical, tão sonhadas pelos patrões e tentadas pelo governo tucano. O capitão do mato não obteve o resultado final, mas deixou o trabalho iniciado e os subordinados devidamente instruídos para seguirem com a obra, que continua em andamento, inclusive com a proposta de restrição do direito de greve ao funcionalismo, encomendada à AGU.

A onda de denúncias contra o governo estoura de forma inimaginável, abalando fortemente o PT. Tarso Genro é escalado para recolocar a casa em ordem, mas lá chegando resolveu questionar muitas coisas, acabar com práticas há muito consolidadas. Seus objetivos nem eram tão bons assim, mas já era o suficiente para afetar certos interesses e certas figuras. Então Tarso não servia, era necessário alguém que não questionasse. Era necessário o capitão do mato.

Berzoini assumiu a presidência do PT com a missão de manter intocável a estrutura real de poder dentro do partido, não permitir nenhuma mudança estrutural, impedir o crescimento de grupos críticos à mudança ideológica da legenda e garantir toda a política de acordos e alianças firmadas para a manutenção dos aparelhos governamentais.

Pode-se dizer que o capitão do mato fez um trabalho perfeito dessa vez. Sob suas ordens, o PT não fez uma única concessão à esquerda, promoveu uma aceleração em sua caminhada à direita, aumentou a política de aproximação com a direita clássica em vários aspectos, manteve a estrutura interna de poder sem qualquer alteração. É importante observar que nesse desenrolar, o capitão do mato obteve extremo êxito em evitar que fosse feita qualquer apuração interna acerca dos fatos e responsáveis por conduzirem o partido à situação que gerou toda a crise.

Agora o PT precisa caminhar a passos largos para se consolidar como um partido tradicional, de características fisiológicas, da estrutura política brasileira, que em nosso sistema tanto favorece a disputa pelos aparelhos de poder. E para isso é preciso barrar, nem que seja à força, qualquer movimentação que vise o resgate de um aparente espírito popular que o partido teve outrora. E para tal missão ninguém melhor do que o capitão do mato.

E nesse rumo, a estrutura de poder real do partido conseguiu, com muito esforço, compra de apoios, filiações em massa, garantir a manutenção de seu tarefeiro mais fiel no comando formal da máquina. E com a manutenção da administração da fazenda nas mãos do capitão do mato, o patrão pode ficar mais tranqüilo, enquanto seus subordinados perdem todas as esperanças de alcançarem, ainda dentro dessa estrutura, um futuro melhor ou o resgate de suas antigas bandeiras.

A Farsa Estadunidense Sobre Argentina e Venezuela

O forte processo de transformações populares pelo qual passa a América Latina tem levado grandes preocupações a Washington.

Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, FARC na Colômbia, Assembléia Popular em Oaxaca, transformações da estrutura econômica na Argentina, Banco do Sul, solidariedade a Cuba, integração acelerada, vários são os movimentos que indicam uma independência da região em relação às políticas colonialistas. Com isso, mais do que esperadas as fortes reações estadunidenses.

Depois das trágicas experiências de implantação de ditaduras militares pelo continente, promovidas por Washington, seria esperado que movimentos de tais contornos tivessem sido completamente abandonados. Ainda assim, houve a tentativa de golpe na Venezuela, sob ordens, financiamento e organização estadunidense, como também o início do movimento golpista e separatista na Bolívia teve a mesma origem. Porém, em países de maior peso econômico na região, tal política se torna mais arriscada, em razão da grande visibilidade dos mesmos no mundo inteiro, além de nenhuma das principais economias da região se encontrar em processo tão avançados quanto os dois alvos principais. Mas alguns deles têm incomodado, ainda assim.

Agora surge um caso clássico de tentativa de desestabilização do governo da Argentina, ao mesmo tempo em que se tenta afasta-lo do principal desafeto de Washington na América Latina, o presidente venezuelano Hugo Chavez.

A acusação é de um suposto envio de 800 mil dólares, de Chavez, para a campanha presidencial de Cristina Kirchner, de forma ilegal. O dinheiro foi apreendido com o empresário de cidadania venezuelana e estadunidense, Guido Antonini Wilson, no dia 04 de agosto, quando o empresário tentava desembarcar em Buenos Aires, de um vôo fretado por uma estatal argentina, com o dinheiro em mãos.

Na ocasião, o empresário que possui negócios no ramo de petróleo, viajava em companhia de funcionários da venezuelana PDVSA e funcionários do governo argentino, teve o dinheiro apreendido e foi liberado, o que permitiu que retornasse a Miami, onde possui residência.

Nos Estados Unidos, o FBI realizou a prisão de 3 empresários venezuelanos e um uruguaio, sob a acusação de serem agentes a serviço do governo venezuelano, encarregados de impedir que Wilson revelasse a origem e o destino do dinheiro apreendido. E foi na acusação contra os quatro empresários presos que surgiu a tese acusatória contra Chavez e Cristina Kirchner.

Segundo o Procurador Federal, Thomas Mulvihill, encarregado do caso, o dinheiro seria uma contribuição ilegal do governo venezuelano à campanha de Cristina. A acusação é negada de forma veemente por Cristina e por representantes do governo venezuelano.

Com tal tese acusatória, o governo estadunidense deve impedir a extradição de Wilson à Argentina, onde deveria responder pela origem e pelo destino do dinheiro apreendido, ou seja, pelo crime efetivamente cometido.

A tese do Procurador estadunidense, segundo divulgado por agências de notícias, seria baseada em escutas telefônicas realizadas pelo FBI. O conteúdo de tais escutas até o momento não foi divulgado, nem a existência das mesmas foi confirmada pelo FBI até o momento.

Inúmeros questionamentos deveriam ser feitos sobre o caso, mas o governo estadunidense não parece disposto a respondê-las.

A acusação de uma doação ilegal, em dinheiro transportado em malas, de um país para uma campanha presidencial, é bastante estranha.

Caso um país qualquer desejasse executar tal operação, o caminho mais simples seria o mesmo adotado pelo governo dos Estados Unidos, em operações de financiamento de campanhas e movimentos, ou seja, via embaixada e consulados. Dessa forma, o dinheiro estaria disponível no país de destino sem passar pelos riscos do transporte, ao mesmo tempo em que estaria resguardado por todo o sigilo das operações diplomáticas. De tal forma, caso a acusação fosse verdadeira, resta explicar as razões de não terem feito tal operação através da representação diplomática.

Mesmo no caso de se descartar tal questionamento, sob a alegação de que a estratégia exigia um sigilo completo, com a operação sendo ocultada até do corpo diplomático venezuelano, resta a pergunta acerca das razões da não utilização de operações financeiras internacionais. É notória que o caminho mais seguro para operações ilícitas é a circulação do dinheiro através de contas em paraísos fiscais, usando empresas de fachada, tornando o rastreamento até mesmo impossível.

Ainda que se descarte tal questionamento mais, cabe lembrar que apenas dois dias após a apreensão do dinheiro, o presidente venezuelano estaria em visita oficial à Argentina. Como é sabido por todos, caso Chavez desejasse efetuar tal alegada operação, o mais seguro caminho seria através de sua própria comitiva, que como qualquer comitiva presidencial, é imune a qualquer tipo de revista, mesmo alfandegária.

Trata-se, portanto, de uma acusação leviana e caricata, que não leva em conta a realidade e as inúmeras possibilidades lógicas para a execução de uma operação desse tipo bem sucedida.

Além disso, a acusação esquece de questionar o que levaria a uma doação dessas, visto a folgada vantagem da então candidata à cadeira presidencial, que em razão da vitória certa também contava com folgados recursos financeiros para sua campanha.

A acusação se baseia, única e exclusivamente, nas supostas interceptações telefônicas e gravações supostamente obtidas pelo FBI. Mas tais gravações jamais foram apresentadas, nem seu conteúdo divulgado.

E mesmo com tudo isso, resta o questionamento acerca de legalidade, legitimidade e razões de interceptações e gravações de conversas, promovidas pelo FBI, contra autoridades de outros países. É, sem dúvida, uma grave infração a todos os protocolos e toda a legislação internacional a alegação da existência de tal tipo de procedimento.

Como pode se verificar, tal tese acusatória carece de legitimidade, carece de base na realidade, de uma análise das possibilidades, ou seja, de qualquer embasamento mínimo, sendo tão somente uma caricata tese difamatória, das piores já elaboradas por Washington em suas guerras de propaganda e desestabilização.

Fica evidente, a partir de tal observação, que se trata apenas de mais uma tentativa de inviabilizar a integração latino americana e a aproximação dos países não alinhados à política da Casa Branca para a região.

Mas se a estratégia do governo estadunidense era isolar Chavez e desestabilizar a Argentina, parece que seus planos falharam por completo. A desestabilização na Argentina não veio, tendo Cristina Kirchner uma popularidade ainda mais alta do que a quantidade de votos que a levaram ao governo. E a julgar pelas declarações dos governos do Equador, Bolívia, Uruguai, além do desdém do Brasil, Chile, dentre outros, os únicos que correm algum risco de isolamento na região são os próprios conspiradores sediados em Washington.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Bolívia - O Preço da Paz

A situação de extrema convulsão social na Bolívia tem gerado grande preocupação na América Latina e no mundo. Enfrentamentos de rua, desrespeito a todas as instituições, chamamentos ao golpe de Estado, seqüestro, espancamento e tortura de constituintes, discursos racistas e separatismo perfazem o cardápio que a oposição direitista adotou no país.

A situação toda ultrapassou o limite do aceitável há muito. E ainda estão em curso inúmeros atos de radicalização da oposição boliviana. A última estratégia foi a declaração de autonomia dos departamentos controlados pela direita, com a finalidade de se apropriar de todas as riquezas contidas nos mesmos.

A Bolívia tem como principal riqueza o gás e o petróleo, cuja exploração sempre esteve vinculada a empresas estrangeiras, em operações nas quais uma pequena parcela da população boliviana muito lucrou.

As populações indígenas, maioria no país, que se espalhavam por todo o território, foram deslocadas, gradualmente, para regiões do país sem as mesmas riquezas naturais, tão logo sua mão de obra barata não mais fosse indispensável. Essas regiões para onde foram deslocadas quase a totalidade das populações indígenas, ao longo da história, foram deixadas de lado de toda a política de desenvolvimento, se constituindo em regiões pobres e abandonadas.

Através de fortes mobilizações populares, iniciou-se um processo de resgate da dívida histórica do país com essas populações indígenas, com os camponeses e os trabalhadores assalariados, até então marginalizados no país. Evidente que tal alteração na correlação de forças no poder formal pôs a classe dominante do país em verdadeiro pé de guerra.

Assim de desenvolve esse processo de conflito e confrontos sem precedentes no país. E a direita elitista promete aprofundar a radicalização de seus atos até que tenha fim esse processo de ascensão de direitos das camadas populares bolivianas, com a volta dos privilégios de que sempre gozaram os poderosos de outrora.

Com isso, a população boliviana vive uma verdadeira chantagem, segundo a qual a única forma de obter a paz seria conformar-se com as profundas desigualdades do país, aceitando que o Estado continue atuando como mero gestor dos interesses de uma minoria abastada, garantindo a manutenção da imensa maioria populacional na miséria. Esse é o preço que a direita boliviana cobra pela paz. Sem isso, a pequena elite econômica local apoiada em grandes grupos econômicos internacionais e países que atuavam de forma imperialista e colonialista no país, prometem uma verdadeira guerra civil.

Entretanto, o imenso apoio e a imensa mobilização popular em defesa das transformações no país, parecem ser razões suficientes para imaginar que o confronto não é uma alternativa tranqüila mesmo para essa elite.

Talvez em outro momento histórico do país, a chantagem já tivesse surtido efeito, com as populações oprimidas tornando a aceitar a opressão de forma dócil e pacífica. No entanto, a grande efervescência dos movimentos populares parece apontar para o fato de que não há verdadeira paz, sem paz social, sem justiça, sem dignidade.

Ocorre que na Bolívia houve a conscientização de uma grande parcela da população do fato de ser falsa qualquer paz que exponha um determinado setor da sociedade a condições análogas à das vítimas da guerra. Parece que aquela paz, da qual falavam os senhores de escravos de outros tempos por toda a América, quando combatiam os sonhos de liberdade de seus escravos negros, não cabe mais para esse povo que aprendeu a enxergar sua verdadeira força.

A paz na Bolívia só será realmente possível em termos que permitam a plenitude da cidadania de seu povo, por inteiro, com todas as diferenças, com todas as necessidades supridas.

Se alguns sonham com a retomada da opressão, mesmo que pra isso seja necessário construir a guerra, é necessário que o povo boliviano procure a paz, sem medo de que nesse caminho seja necessária a guerra.

Se a direita impõe a opressão como o preço de sua paz, que se faça a guerra, pois a paz do povo não admite a opressão, mesmo que a guerra seja o preço da paz.