terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Berzoini: O Capitão do Mato do PT

Para os trabalhadores rurais, os escravos, os que vivem em regime de semi-escravidão, os estudiosos da história, a figura do capitão do mato é bastante conhecida. Trata-se do responsável por fazer o "trabalho sujo" do patrão, para que o mesmo não precise se envolver no sangue derramado, nem com o constrangimento de levar o sofrimento aos seus subordinados.

Em diversos outros ramos de atividades temos figuras semelhantes. É o policial bandido que espanca o suspeito para arrancar-lhe as informações sobre outros membros do bando, o chefeta da empresa responsável por aterrorizar empregados para manter a disciplina, o braço direito do traficante que promove os julgamentos sumários e execuções a sangue frio.

Na política não é diferente, existindo os tarefeiros que executam o trabalho sujo para evitar que o nome do “patrão” seja envolvido na sujeira ocasionada pelos atos que julga necessário. No governo Lula e no PT, muitos foram os candidatos, mas Lula elegeu o seu capitão do mato predileto, que hoje ocupa reeleito a presidência do partido.

Berzoini foi o “homem forte” escolhido para representar o terror junto à população durante sua estada no governo. Na Previdência, diante de um desejo urgente do governo por redução nas despesas, foi Berzoini que protagonizou o caso do “recadastramento” dos mais idosos, que levou pessoas com mais de 90 anos às filas intermináveis do INSS, a fim de não terem seu mirrado sustento cortado.

Esse caso, como foi demonstrado na prática posterior, era completamente desnecessário, pois esse recadastramento poderia ser feito de diversas outras formas, como foi efetivamente feito depois. Mas a sutileza das atitudes nunca foi a marca registrada de um capitão do mato.

Tratava-se, naquela ocasião, de obter não somente um recadastramento e acabar com as fraudes que tanto sangram os cofres da previdência, mas de uma medida urgente com a finalidade de reduzir despesas e possibilitar a realocação de recursos para a remuneração da especulação com títulos da dívida pública. Os especuladores tinham pressa em ver seu lucro garantido da maneira mais generosa possível, tendo o governo igual pressa em atender-lhes a vontade. Assim, o capitão do mato atuou da forma mais rude e espalhafatosa possível, em método clássico de sua atividade, só não obtendo sucesso em razão de seu ato ter afetado a imagem do patrão. Mas o trabalho foi levado adiante de outra forma.

Os trabalhos sujos do governo ainda não haviam acabado. Portanto Berzoini continuava sendo indispensável. E lá foi o capitão do mato transferido para o Ministério do Trabalho, com a finalidade de empurrar goela abaixo dos trabalhadores as reformas trabalhista e sindical, tão sonhadas pelos patrões e tentadas pelo governo tucano. O capitão do mato não obteve o resultado final, mas deixou o trabalho iniciado e os subordinados devidamente instruídos para seguirem com a obra, que continua em andamento, inclusive com a proposta de restrição do direito de greve ao funcionalismo, encomendada à AGU.

A onda de denúncias contra o governo estoura de forma inimaginável, abalando fortemente o PT. Tarso Genro é escalado para recolocar a casa em ordem, mas lá chegando resolveu questionar muitas coisas, acabar com práticas há muito consolidadas. Seus objetivos nem eram tão bons assim, mas já era o suficiente para afetar certos interesses e certas figuras. Então Tarso não servia, era necessário alguém que não questionasse. Era necessário o capitão do mato.

Berzoini assumiu a presidência do PT com a missão de manter intocável a estrutura real de poder dentro do partido, não permitir nenhuma mudança estrutural, impedir o crescimento de grupos críticos à mudança ideológica da legenda e garantir toda a política de acordos e alianças firmadas para a manutenção dos aparelhos governamentais.

Pode-se dizer que o capitão do mato fez um trabalho perfeito dessa vez. Sob suas ordens, o PT não fez uma única concessão à esquerda, promoveu uma aceleração em sua caminhada à direita, aumentou a política de aproximação com a direita clássica em vários aspectos, manteve a estrutura interna de poder sem qualquer alteração. É importante observar que nesse desenrolar, o capitão do mato obteve extremo êxito em evitar que fosse feita qualquer apuração interna acerca dos fatos e responsáveis por conduzirem o partido à situação que gerou toda a crise.

Agora o PT precisa caminhar a passos largos para se consolidar como um partido tradicional, de características fisiológicas, da estrutura política brasileira, que em nosso sistema tanto favorece a disputa pelos aparelhos de poder. E para isso é preciso barrar, nem que seja à força, qualquer movimentação que vise o resgate de um aparente espírito popular que o partido teve outrora. E para tal missão ninguém melhor do que o capitão do mato.

E nesse rumo, a estrutura de poder real do partido conseguiu, com muito esforço, compra de apoios, filiações em massa, garantir a manutenção de seu tarefeiro mais fiel no comando formal da máquina. E com a manutenção da administração da fazenda nas mãos do capitão do mato, o patrão pode ficar mais tranqüilo, enquanto seus subordinados perdem todas as esperanças de alcançarem, ainda dentro dessa estrutura, um futuro melhor ou o resgate de suas antigas bandeiras.

A Farsa Estadunidense Sobre Argentina e Venezuela

O forte processo de transformações populares pelo qual passa a América Latina tem levado grandes preocupações a Washington.

Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, FARC na Colômbia, Assembléia Popular em Oaxaca, transformações da estrutura econômica na Argentina, Banco do Sul, solidariedade a Cuba, integração acelerada, vários são os movimentos que indicam uma independência da região em relação às políticas colonialistas. Com isso, mais do que esperadas as fortes reações estadunidenses.

Depois das trágicas experiências de implantação de ditaduras militares pelo continente, promovidas por Washington, seria esperado que movimentos de tais contornos tivessem sido completamente abandonados. Ainda assim, houve a tentativa de golpe na Venezuela, sob ordens, financiamento e organização estadunidense, como também o início do movimento golpista e separatista na Bolívia teve a mesma origem. Porém, em países de maior peso econômico na região, tal política se torna mais arriscada, em razão da grande visibilidade dos mesmos no mundo inteiro, além de nenhuma das principais economias da região se encontrar em processo tão avançados quanto os dois alvos principais. Mas alguns deles têm incomodado, ainda assim.

Agora surge um caso clássico de tentativa de desestabilização do governo da Argentina, ao mesmo tempo em que se tenta afasta-lo do principal desafeto de Washington na América Latina, o presidente venezuelano Hugo Chavez.

A acusação é de um suposto envio de 800 mil dólares, de Chavez, para a campanha presidencial de Cristina Kirchner, de forma ilegal. O dinheiro foi apreendido com o empresário de cidadania venezuelana e estadunidense, Guido Antonini Wilson, no dia 04 de agosto, quando o empresário tentava desembarcar em Buenos Aires, de um vôo fretado por uma estatal argentina, com o dinheiro em mãos.

Na ocasião, o empresário que possui negócios no ramo de petróleo, viajava em companhia de funcionários da venezuelana PDVSA e funcionários do governo argentino, teve o dinheiro apreendido e foi liberado, o que permitiu que retornasse a Miami, onde possui residência.

Nos Estados Unidos, o FBI realizou a prisão de 3 empresários venezuelanos e um uruguaio, sob a acusação de serem agentes a serviço do governo venezuelano, encarregados de impedir que Wilson revelasse a origem e o destino do dinheiro apreendido. E foi na acusação contra os quatro empresários presos que surgiu a tese acusatória contra Chavez e Cristina Kirchner.

Segundo o Procurador Federal, Thomas Mulvihill, encarregado do caso, o dinheiro seria uma contribuição ilegal do governo venezuelano à campanha de Cristina. A acusação é negada de forma veemente por Cristina e por representantes do governo venezuelano.

Com tal tese acusatória, o governo estadunidense deve impedir a extradição de Wilson à Argentina, onde deveria responder pela origem e pelo destino do dinheiro apreendido, ou seja, pelo crime efetivamente cometido.

A tese do Procurador estadunidense, segundo divulgado por agências de notícias, seria baseada em escutas telefônicas realizadas pelo FBI. O conteúdo de tais escutas até o momento não foi divulgado, nem a existência das mesmas foi confirmada pelo FBI até o momento.

Inúmeros questionamentos deveriam ser feitos sobre o caso, mas o governo estadunidense não parece disposto a respondê-las.

A acusação de uma doação ilegal, em dinheiro transportado em malas, de um país para uma campanha presidencial, é bastante estranha.

Caso um país qualquer desejasse executar tal operação, o caminho mais simples seria o mesmo adotado pelo governo dos Estados Unidos, em operações de financiamento de campanhas e movimentos, ou seja, via embaixada e consulados. Dessa forma, o dinheiro estaria disponível no país de destino sem passar pelos riscos do transporte, ao mesmo tempo em que estaria resguardado por todo o sigilo das operações diplomáticas. De tal forma, caso a acusação fosse verdadeira, resta explicar as razões de não terem feito tal operação através da representação diplomática.

Mesmo no caso de se descartar tal questionamento, sob a alegação de que a estratégia exigia um sigilo completo, com a operação sendo ocultada até do corpo diplomático venezuelano, resta a pergunta acerca das razões da não utilização de operações financeiras internacionais. É notória que o caminho mais seguro para operações ilícitas é a circulação do dinheiro através de contas em paraísos fiscais, usando empresas de fachada, tornando o rastreamento até mesmo impossível.

Ainda que se descarte tal questionamento mais, cabe lembrar que apenas dois dias após a apreensão do dinheiro, o presidente venezuelano estaria em visita oficial à Argentina. Como é sabido por todos, caso Chavez desejasse efetuar tal alegada operação, o mais seguro caminho seria através de sua própria comitiva, que como qualquer comitiva presidencial, é imune a qualquer tipo de revista, mesmo alfandegária.

Trata-se, portanto, de uma acusação leviana e caricata, que não leva em conta a realidade e as inúmeras possibilidades lógicas para a execução de uma operação desse tipo bem sucedida.

Além disso, a acusação esquece de questionar o que levaria a uma doação dessas, visto a folgada vantagem da então candidata à cadeira presidencial, que em razão da vitória certa também contava com folgados recursos financeiros para sua campanha.

A acusação se baseia, única e exclusivamente, nas supostas interceptações telefônicas e gravações supostamente obtidas pelo FBI. Mas tais gravações jamais foram apresentadas, nem seu conteúdo divulgado.

E mesmo com tudo isso, resta o questionamento acerca de legalidade, legitimidade e razões de interceptações e gravações de conversas, promovidas pelo FBI, contra autoridades de outros países. É, sem dúvida, uma grave infração a todos os protocolos e toda a legislação internacional a alegação da existência de tal tipo de procedimento.

Como pode se verificar, tal tese acusatória carece de legitimidade, carece de base na realidade, de uma análise das possibilidades, ou seja, de qualquer embasamento mínimo, sendo tão somente uma caricata tese difamatória, das piores já elaboradas por Washington em suas guerras de propaganda e desestabilização.

Fica evidente, a partir de tal observação, que se trata apenas de mais uma tentativa de inviabilizar a integração latino americana e a aproximação dos países não alinhados à política da Casa Branca para a região.

Mas se a estratégia do governo estadunidense era isolar Chavez e desestabilizar a Argentina, parece que seus planos falharam por completo. A desestabilização na Argentina não veio, tendo Cristina Kirchner uma popularidade ainda mais alta do que a quantidade de votos que a levaram ao governo. E a julgar pelas declarações dos governos do Equador, Bolívia, Uruguai, além do desdém do Brasil, Chile, dentre outros, os únicos que correm algum risco de isolamento na região são os próprios conspiradores sediados em Washington.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Bolívia - O Preço da Paz

A situação de extrema convulsão social na Bolívia tem gerado grande preocupação na América Latina e no mundo. Enfrentamentos de rua, desrespeito a todas as instituições, chamamentos ao golpe de Estado, seqüestro, espancamento e tortura de constituintes, discursos racistas e separatismo perfazem o cardápio que a oposição direitista adotou no país.

A situação toda ultrapassou o limite do aceitável há muito. E ainda estão em curso inúmeros atos de radicalização da oposição boliviana. A última estratégia foi a declaração de autonomia dos departamentos controlados pela direita, com a finalidade de se apropriar de todas as riquezas contidas nos mesmos.

A Bolívia tem como principal riqueza o gás e o petróleo, cuja exploração sempre esteve vinculada a empresas estrangeiras, em operações nas quais uma pequena parcela da população boliviana muito lucrou.

As populações indígenas, maioria no país, que se espalhavam por todo o território, foram deslocadas, gradualmente, para regiões do país sem as mesmas riquezas naturais, tão logo sua mão de obra barata não mais fosse indispensável. Essas regiões para onde foram deslocadas quase a totalidade das populações indígenas, ao longo da história, foram deixadas de lado de toda a política de desenvolvimento, se constituindo em regiões pobres e abandonadas.

Através de fortes mobilizações populares, iniciou-se um processo de resgate da dívida histórica do país com essas populações indígenas, com os camponeses e os trabalhadores assalariados, até então marginalizados no país. Evidente que tal alteração na correlação de forças no poder formal pôs a classe dominante do país em verdadeiro pé de guerra.

Assim de desenvolve esse processo de conflito e confrontos sem precedentes no país. E a direita elitista promete aprofundar a radicalização de seus atos até que tenha fim esse processo de ascensão de direitos das camadas populares bolivianas, com a volta dos privilégios de que sempre gozaram os poderosos de outrora.

Com isso, a população boliviana vive uma verdadeira chantagem, segundo a qual a única forma de obter a paz seria conformar-se com as profundas desigualdades do país, aceitando que o Estado continue atuando como mero gestor dos interesses de uma minoria abastada, garantindo a manutenção da imensa maioria populacional na miséria. Esse é o preço que a direita boliviana cobra pela paz. Sem isso, a pequena elite econômica local apoiada em grandes grupos econômicos internacionais e países que atuavam de forma imperialista e colonialista no país, prometem uma verdadeira guerra civil.

Entretanto, o imenso apoio e a imensa mobilização popular em defesa das transformações no país, parecem ser razões suficientes para imaginar que o confronto não é uma alternativa tranqüila mesmo para essa elite.

Talvez em outro momento histórico do país, a chantagem já tivesse surtido efeito, com as populações oprimidas tornando a aceitar a opressão de forma dócil e pacífica. No entanto, a grande efervescência dos movimentos populares parece apontar para o fato de que não há verdadeira paz, sem paz social, sem justiça, sem dignidade.

Ocorre que na Bolívia houve a conscientização de uma grande parcela da população do fato de ser falsa qualquer paz que exponha um determinado setor da sociedade a condições análogas à das vítimas da guerra. Parece que aquela paz, da qual falavam os senhores de escravos de outros tempos por toda a América, quando combatiam os sonhos de liberdade de seus escravos negros, não cabe mais para esse povo que aprendeu a enxergar sua verdadeira força.

A paz na Bolívia só será realmente possível em termos que permitam a plenitude da cidadania de seu povo, por inteiro, com todas as diferenças, com todas as necessidades supridas.

Se alguns sonham com a retomada da opressão, mesmo que pra isso seja necessário construir a guerra, é necessário que o povo boliviano procure a paz, sem medo de que nesse caminho seja necessária a guerra.

Se a direita impõe a opressão como o preço de sua paz, que se faça a guerra, pois a paz do povo não admite a opressão, mesmo que a guerra seja o preço da paz.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Conflito Boliviano Anunciado

A Bolívia se vê cada vez mais próxima de um conflito de grandes proporções. É possível que todos os enfrentamentos ocorridos até o momento tenham sido apenas o anúncio de uma verdadeira guerra, que oporá as populações historicamente excluídas e a parcela privilegiada no decorrer de toda a história boliviana, em razão da radicalização extrema comandada pela direita e pela elite econômica do país.

A forte mobilização popular que conduziu Evo Morales à presidência e que tem levado a Bolívia às transformações tão almejadas pelo povo mais pobre, ao invés de facilitar a construção da nova Bolívia, ocasionou uma forte reação dos setores privilegiados da sociedade.

Com a derrota eleitoral dos grupos que sempre dominaram o país, a direita boliviana passou a buscar outros mecanismos para contra-atacar e impedir o processo de transformações que se anunciava. E nessa busca, amargaram ainda mais algumas derrotas, o que ampliou o seu desgosto e sua disposição à radicalização.

As transformações necessárias à construção da nova Bolívia, necessariamente, passava pela construção de uma nova Constituição, de caráter popular, que entrasse em vigor com o apoio popular. Assim, foi convocada a Assembléia Nacional Constituinte, cujo resultado, ainda antes de entrar em vigor, necessitaria da aprovação do novo texto constitucional em referendo popular.

A constituinte boliviana contou com todo o tipo de obstáculos, desde a sabotagem, até as tentativas de impedimento de sua realização com o uso da força e da violência. Houveram constituintes seqüestrados, espancados, torturados, violência generalizada, depredações, carros queimados, dentre inúmeras outras manifestações de força e violência organizada por governadores de direita e pelos antigos poderosos, sob a liderança do maior partido oposicionista, o Podemos.

Com isso, houve a necessidade de transferência do local para continuidade dos trabalhos da constituinte, mesmo após várias interrupções e negociações, para que os trabalhos fossem concluídos dentro do prazo legal estabelecido.

Com o sucesso da constituinte mesmo com todas as sabotagens da oposição, restou ao Podemos e seus governadores mais uma dose de radicalização, tendo em vista a certeza de que o texto, que contempla todas as reivindicações históricas de todo o povo boliviano, será aprovado no referendo popular.

Apesar de esperada radicalização, a direita boliviana conseguiu superar até mesmo as expectativas de todos os grupos direitistas do continente, ao partir para uma estratégia de clara divisão do país.

Na Bolívia, um país unitário onde apenas em 2005 os governadores de departamentos passaram a ser eleitos, não existem parlamentos regionais. Com isso, o controle absoluto dos departamentos está nas mãos de seus governadores, que não precisam responder por seus atos a nenhum órgão que represente a população do departamento. Assim foi que os governadores de direita decidiram adotar a estratégia das autonomias, em que teriam o controle absoluto de suas regiões, territórios, finanças e riquezas.

Foi nesse fator francamente antidemocrático que o Podemos apostou ao adotar a estratégia de divisão do país, como mecanismo para legitimar sua violência, sua ruptura com o Estado de Direito e com a democracia, tentando obter uma aparência de legitimidade relativa aos anseios regionais.

Os chamados “estatutos autonômicos”, que chegam a impor restrições à migração de populações da própria Bolívia, restringindo o ingresso de indígenas e populares de outras regiões, são absolutamente ilegais, contrariando a constituição ainda em vigor. Além disso, demonstram um profundo desrespeito pela decisão popular, pois contrariam a decisão da constituinte, eleita pelo voto popular para definir o novo marco legal, como também tenta retirar do povo o direito de decidir sobre sua nova constituição.

Dessa forma, tanto sob o aspecto da legalidade, como da legitimidade, é impossível aceitar tal imposição antidemocrática desses governadores direitistas, o que porá a Bolívia em estado de guerra de forma bastante contundente. A guerra civil é o exato objetivo da direita, com a finalidade de justificar um golpe, uma quebra das instituições e a imposição de um regime ditatorial para abafar as fortes mobilizações populares do país.

O grande fator que impulsiona esse movimento golpista é o fato desses setores ainda terem o controle territorial sobre as principais fontes de riqueza, além de terem o domínio econômico sobre os meios de produção, demonstrando a aplicação absoluta das teses de Marx sobre a infra-estrutura e de Lassale sobre os fatores reais de poder.

Entretanto, um fator que complica a estratégia adotada pela direita boliviana é a absoluta ausência de legitimidade e justificativa perante a comunidade internacional, como a falta de apoio militar interno, além da absoluta falta de apoio popular aos seus objetivos.

Com tudo isso espera-se que, em razão da irredutibilidade dos posicionamentos do Podemos e dos setores econômicos mais abastados da Bolívia, a radicalização seja crescente, com a aposta da direita na crescente desestabilização social através da violência generalizada, além das sabotagens, boicotes de alimentos e outras questões similares, a fim de causar o caos, onde reinaria a barbárie da imposição do poder econômico.

Nesse cenário torna-se bastante provável a explosão de uma verdadeira guerra civil na Bolívia, de conseqüências ainda não mensuráveis, que acabará, ou com forte massacre de populares, ou com a queda mais dura da direita após muito sofrimento da população do país, exceto de a direita começar a aceitar algum diálogo e a disputa de opinião frente a população.

sábado, 15 de dezembro de 2007

A Hipocrisia Descarada do Governo Colombiano

A Colômbia, durante sucessivos governos, tem entregue sua soberania ao governo estadunidense, que mantém inúmeras bases militares no país, além do efetivo comando sobre as forças armadas e mesmo sobre a política de segurança da Colômbia.

Além disso, a Colômbia, há muito, é dirigida pelo narcotráfico, como ficou comprovado pelas ligações de vários de seus presidentes e altos comandantes militares com os cartéis de Cali e Medelin, inclusive do atual, Álvaro Uribe, que prestava valiosos serviços a Pablo Escobar, chegando a chamar Uribe de “seu preferido” e “indispensável”, conforme relatam diversos antigos colaboradores de Escobar e mesmo sua noiva, em livros, entrevistas e processos judiciais.

Como já é notória, a hipocrisia do governo colombiano começa pelo fato de buscar, através de um forte aparato de comunicação, dirigido por Washington, responsabilizar as FARC pelo narcotráfico que é dirigido de dentro da Casa de Nariño, o palácio presidencial do país.

Agora vemos mais uma cena dessa hipocrisia, na reação do governo colombiano às declarações do presidente nicaragüense, Daniel Ortega, a respeito dos prisioneiros em poder das FARC e da política Ingrid Betancourt.

Ortega fez críticas ao governo colombiano pela encerramento da bem sucedida mediação de Chavez nas negociações humanitárias, além de fazer um apelo às FARC, dirigindo-se a Manuel Marulanda, pela libertação de Betancourt. Ortega, ao dirigir-se a Marulanda teria dito “Quero fazer um apelo a nosso querido irmão, o comandante Manuel Marulanda, em nome dos revolucionários latino-americanos”.

A reação do governo colombiano foi bastante dura, exigindo que Ortega não interferisse em assuntos internos da Colômbia, também condenando a “irmanação” com um “grupo terrorista”.

É interessante ver um país reivindicando respeito à sua soberania, ao mesmo tempo em que é controlado, de forma absoluta, por Washington, tanto militarmente, quanto politicamente. Talvez Uribe e os membros de seu governo devessem estudar um pouco sobre o tema da soberania, buscando entender o que significa, pois a Colômbia não possui soberania alguma.

Da mesma forma, é interessante observar um governo que apoiava a criação de grupos paramilitares que promoviam atentados a bomba, assassinatos e execuções de camponeses, extermínio de populações inteiras de pequenos povoados, condenando declarações amistosas de um presidente em relação a um grupo “terrorista”, que jamais promoveu ataques contra populações civis, ou mesmo atentados a bomba. Talvez, em verdade, Uribe esteja condenando os presidentes que declaram apoio ao seu governo.

A nota do governo colombiano lembra que as declarações partem do presidente de um país que já sofrera muito com a violência. E esse é um ponto central a se destacar, pois a violência na Nicarágua teve em Ortega um dos maiores lutadores pelo seu fim.

Alguém deveria lembrar a Uribe que Ortega e as FARC têm mesmo que se “irmanar”, pois são irmãos de luta, irmãos de sonhos, irmãos de objetivos. Lembrar a Uribe que a solidariedade entre os povos em luta, é a marca registrada daqueles que sonham e buscam um mundo melhor, mais justo, mais fraterno, mais igualitário.

Ortega foi um importante lutador, que combateu por longo tempo um regime autoritário e assassino, que se travestia de democrático, sob a direção e com o apoio, político e material dos Estados Unidos, assim como é o governo colombiano atual.

Não é preciso lembrar de que lado estão cada um dos governos latino-americanos, dentre os quais, de forma francamente contrária a qualquer possibilidade de avanço popular, só se encontra Uribe, em sua trajetória assassina, autoritária e criminosa.

As declarações de Ortega, ao contrário dessas do governo Uribe, não tiveram uma única contradição, nem mesmo qualquer tipo de conteúdo hipócrita.

Ortega criticou o fim da mediação de Chavez, que os familiares dos prisioneiros dizem que era bem sucedida, que os países de todo o mundo afirmam que era bem sucedida, que as FARC dizem que era bem sucedida, que os fatos demonstram que era bem sucedida. Ortega apontou o risco de “que se aproveitem do fato de Betancourt estar em meio à selva, para assassiná-la, apenas para poder culpar as FARC posteriormente”, risco que as FARC já denunciam, que grupos humanitários denunciam, que a família de Betancourt denuncia, que o caso da morte dos 11 deputados do Vale del Cauca comprova.

Na verdade, tudo que Ortega disse, é o mesmo que os governos da França, Espanha, Suécia, Brasil, Suíça, Bélgica, Argentina, Chile, Uruguai, insinuam, mas ainda não tiveram a coragem de expor de forma clara.

Quando assassinos contumazes tentam negar suas intenções homicidas, como faz o governo colombiano, quando um governo de um país sem soberania exige respeito à sua soberania, como faz o governo colombiano, quando aqueles que não respeitam a inteligência alheia, nem os mais elementares conceitos de humanidade, exigem respeito, é mais do que momento para se preocupar ao extremo.

A Colômbia reclama a atenção e o cuidado de todo o mundo, para evitar que a ânsia belicosa de Uribe e seus asseclas provoquem tragédias ainda maiores e o aprofundamento do sofrimento daquele povo tão maltratado nesses mais de 40 anos de conflito.

Lula e a Negação do Passado e da Realidade














A presidente Lula segue em sua luta para se livrar do passado popular, de sindicalista, de defensor dos trabalhadores, apelando até para a negação da realidade numa exaltação da exceção.

Há pouquíssimo tempo, quadrilhas foram desbaratadas em todo o país, que se dedicavam a dar alta a pacientes que estavam afastados pelo SUS, recebendo o auxílio doença, para que as empresas tivessem o trabalhador em atividade novamente, ainda que sem plenas condições, permitindo que fosse mandado embora tão logo fosse possível. Outros apenas negavam o afastamento, fazendo o trabalhador continuar trabalhando sem condições, ou permitindo sua demissão quando deveria estar afastado e com direito à estabilidade na seqüência. Sempre casos de médicos que recebiam suborno das empresas e sindicatos patronais para preparar tais laudos periciais.

Outros casos foram de denúncias de médicos que estavam sendo intimidados para fornecer laudos que permitissem o retorno do trabalhador à atividade, ou impedissem seu afastamento, ainda que ele precisasse afastar-se do emprego.

Qualquer trabalhador que já tenha atuado em sindicato, em comissões de prevenção de acidentes, ou tenha necessitado de mais de um afastamento em sua vida laboral, conhece essa regra existente e jamais combatida de fato, com a qual os trabalhadores são obrigados a viver.

Mas para o presidente Lula não, para ele os vilões são os malditos trabalhadores, que buscam o auxílio doença sem necessidade e ficam bravos quando são obrigados a voltar ao trabalho.

O mais interessante, é observar tal posicionamento do ex-sindicalista arrependido, logo depois de ter acompanhado, nas últimas semanas, 7 casos de pessoas que receberam a liberação dos peritos credenciados da previdência, para retornarem ao trabalho, mesmo sem condições reais.

Lula fez questão de usar um caso específico, como exemplo para generalizar um padrão de comportamento do trabalhador, lembrando que “Eu conheci um companheiro que chegou a se internar num hospital psiquiátrico para receber o benefício”.

Para qualquer trabalhador assalariado, de setores onde o esforço físico ou os acidentes são comuns, ou mesmo de qualquer grande empresa, é fácil perceber que tal exemplo é a exceção, até mesmo porque o afastamento representa períodos de atraso na remuneração, perda de benefícios, redução da renda, etc.. Mas como o Lula não se deu ao trabalho de apontar mais dados, argumentos, ou casos, também não vou me dar a esse trabalho, me limitando a citar um caso e generalizá-lo.

Imaginem que um trabalhador, cujo trabalho se dá sobre uma motocicleta, sofre um acidente com a mesma, sofre uma fratura no tornozelo que necessita da utilização de gesso por mais de 60 dias. Imagine que esse trabalhador retira o gesso e passa por 30 dias de fisioterapia para recuperar os movimentos, mas tem receitado mais 45 dias. Mas esse trabalhador, apesar de seu médico solicitar mais 45 dias de afastamento, recebe a liberação do perito do INSS.

Agora imagine que esse trabalhador, mesmo sem conseguir movimentar o pé e a perna de forma completa, é obrigado a pilotar uma motocicleta em serviço, ou permanecer por horas seguidas, em ponto fixo, de pé, sem qualquer apoio.

Se você conseguiu imaginar, perdeu seu tempo, afinal não é necessário imaginação, pois o caso é real. E mais do que isso, verificando os processos na justiça do trabalho em que a empresa na qual o trabalhador em questão é funcionário, verifica-se que os sócios desse “perito” em questão, são auxiliares técnicos da empresa em vários dos processos trabalhistas.

O que podemos dizer de tal trabalhador, que desejava permanecer mais esses 45 dias em afastamento, sob cuidados médicos, recebendo o auxílio acidente, mesmo tendo uma significativa perda de rendimentos? Para o Lula, trata-se de um caso simples, pois que “É uma coisa fantástica. Tudo o que a gente quer é ficar bom. Mas no caso de determinados benefícios a pessoa não quer”.

Mais uma vez, vemos que o nosso presidente busca desesperadamente renegar seu passado de defensor dos trabalhadores, de sindicalista, agradar ao empresariado mais atrasado e alinhar-se ao gosto da elite que sempre controlou nosso país.

Agora, mais do que nos tempos em que a tradicional aristocracia brasileira governou nosso país, o trabalhador é o vilão, culpado de todos os males.

Nem mesmo vou me dar ao trabalho de comparar tal afirmação do presidente, com o fato de o mesmo ser aposentado em razão da perda de um dedo. Também não vou renegar tudo que já afirmei sobre a questão, pois não tenho a mesma vocação de Lula. Mas que ficará mais difícil, daqui pra frente, defender o direito de Lula à aposentadoria em razão de tal acidente, isso é evidente. Mas, para a sorte dele, ainda existe quem defenda os trabalhadores, mesmo os traidores, contra os ataques hipócritas, demagógicos e mentirosos como os dele.

Mesmo os traidores merecem defesa contra a lei da chibata e da máxima exploração. Mesmo os traidores merecem proteção contra a lógica do ser humano descartável. O trabalhador ainda busca respeito.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Fim da CPMF Não Afetará Especuladores, Superávit e Pagamento de Juros



Com a derrota na tentativa de prorrogação da CPMF, o governo perdeu 40 bilhões de reais de arrecadação ao ano. É um impacto significativo no orçamento da União, que obrigará a realização de ajustes para o orçamento de 2008.

Alguém, em algum dos fóruns de discussão da internet, levantou a questão do superávit primário, como ponto que poderia ser rediscutido na questão do orçamento, ponto em que nenhum dos governistas havia tocado até então, que apenas foi citado na passant em alguns órgãos de imprensa.

Mas a questão do superávit primário, da política monetária e questões conexas, foi levantada de forma mais incisiva pelo próprio mercado financeiro, agências de classificação de risco e investidores, todos apontando o “temor” acerca de possíveis mudanças que “prejudicassem” o superávit.

O orçamento da saúde, as transações correntes, os investimentos em infra-estrutura, só foram lembrados por alguns membros do governo nos discursos políticos que buscam imputar a responsabilidade por possíveis problemas futuros à oposição. Mas todas as dúvidas já deveriam começar a se desfazer pelas declarações da ex-líder do PT no senado, ao afirmar, logo após a votação, que “Mas pelo menos garantimos a rolagem da dívida”, deixando claro qual é a prioridade do governo.

E hoje, a voz do governo na área econômica, o ministro da fazenda, Guido Mantega, esclareceu o assunto, ao dizer que “As contas públicas continuarão em equilíbrio. A trajetória entre dívida e PIB continuará em queda.”, afirmando de forma categórica que o superávit primário será mantido em 3,8% do PIB.

Cabe ressaltar que, ao manter o superávit primário em 3,8% do PIB, não só estarão mantendo essa destinação de recursos para o pagamento de juros e remuneração do capital especulativo, como haverá um crescimento do superávit em relação à arrecadação, visto que a arrecadação diminuiu o superávit não.

Assim o governo define, de forma inquestionável, as suas prioridades, o foco de toda a sua ação. E mais uma vez, Mantega escancara, afirmando que a maior prejudicada será a saúde, já descartando a regulamentação da emenda 29 da Constituição, que destinaria maiores recursos para a saúde, em razão da perda de arrecadação. Mantega afirmou que toda a atividade orçamentária está suspensa, que haverá uma readequação.

Com isso, já temos definido qual é o programa de readequação que o governo fará. Haverá um aumento das alíquotas da Cofins e outros tributos que incidem sobre as folhas de pagamento ou o consumo. Haverá a manutenção do superávit primário em relação ao PIB, com um aumento em relação ao orçamento, por meio de cortes profundos nos investimentos e no custeio da máquina pública. A saúde será a principal prejudicada, com profundos cortes em investimentos e no próprio custeio, sendo previsível seu sucateamento progressivo, aprofundando o caos no setor.

Essas conclusões não são exercícios de “futurologia”, mas a simples declaração do próprio ministro, que afirmou textualmente que “O maior prejuízo ficou para uma área muito sensível para a população brasileira, que é a saúde. Esse segmento iria receber recursos adicionais. Em um primeiro momento essa área ficou prejudicada. Então não vou garantir aqueles programas que haviam sido estabelecidos”.

A conclusão final dessa história é que os únicos que poderão permanecer tranqüilos, após essa derrota do governo, são os mesmos que jogaram contra a prorrogação do tributo, justamente os maiores grupos econômicos, mais os especuladores. E o terror da população parece estar só começando.

Por fim, o governo afirma que o crescimento econômico não será prejudicado. Mas a certeza que temos é que todo o crescimento ficará nas mãos de quem menos precisa dele, justamente os especuladores, os sonegadores e o grupo dos donos da Fiesp.

Melhor o povo parar de ficar doente ou reclamar do desemprego, para não atrapalhar a festa do mercado.